Chegamos à reta final deste terrível 2020 com uma nota de esperança, à medida que o processo de vacinação contra a Covid-19 vai sendo conhecido. Sabemos agora, que ao longo do próximo ano e começando pelos grupos de cidadãos em maior risco, poderemos então, em diferentes fases, inocular-nos para proteção contra um vírus que, desde há cerca de 12 meses, paralisa sectores económicos inteiros, encerra empresas lançando milhões no desemprego e retira a vida aos que nos são próximos, com a contagem das vítimas da Covid em todo o planeta a ultrapassar já o milhão e meio de seres humanos.

Perante isto, a revista Time fez mesmo, recentemente, uma das suas capas com a declaração de que 2020 terá sido “o pior ano de sempre”. Não o encaramos assim com base na nossa coletiva consciência histórica, assente na memória de períodos igualmente difíceis ou ainda piores. Bastaria lembrar o ano de 1918, último de uma guerra mundial e assolado por outra pandemia, a da designada “gripe espanhola”, que só terminaria em 1920 depois de provocar a morte de um número nunca efetivamente apurado de pessoas, mas que hoje se considera não ter sido inferior a 50 milhões. Muitos maçons também à época se empenharam no apoio aos doentes e aos seus familiares das mais variadas formas, como se encontra documentado nos arquivos históricos de diversos países.

No entanto, e para além das comparações, não haverá ninguém que não suspire de alívio ao ver este ano por trás das costas, ao mesmo tempo que – citando Jorge de Sena – vemos, finalmente, “uma pequena luz bruxuleante, brilhando incerta, mas brilhando, aqui no meio de nós”.

Desde março deste ano, a Maçonaria Regular esteve em recolhimento, mas não em isolamento. Substituímos as sessões presenciais pelas virtuais, os abraços pelos emojis, os rituais pelas conferências e debates online. Reforçámos as nossas ações de apoio às instituições da sociedade civil, procurando ir, de acordo com as nossas capacidades, ao encontro de quem mais precisa. Oferecemos máscaras para proteção às IPSS dos países lusófonos, motas totalmente equipadas ao INEM e viseiras aos bombeiros portugueses, entre muitas outras ações que por todo o país foram levadas a cabo a nível local e regional pelas diferentes Lojas maçónicas.

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Numa carta enviada a todos os maçons regulares por ocasião do equinócio do Outono, data importante para a Maçonaria, tive ocasião, na qualidade de Grão-Mestre, de alertar para a urgência de intervirmos, onde for e como for, visando a recuperação da normalidade da vida em sociedade. Temo-lo feito e reforçaremos ainda mais essa intervenção ao longo do desafiante ano de 2021, à medida em que, sempre de acordo com as normas do Governo e a proteção de cada um de nós e dos outros, formos regressando a uma prática maçónica assente, como é desejável e mesmo indispensável, na proximidade física como na espiritual. Para os maçons, os rituais, sendo actos simbólicos, representam os valores que produzem uma comunidade coesa, que é capaz de harmonia e de um ritmo comum, sem os quais cada um de nós se encontra isolado na sua humanidade.

As repercussões do ano que termina far-se-ão sentir fortemente naquele que agora se inicia. Os cenários macroeconómicos são preocupantes e os Portugueses deverão preparar-se para atravessar um período social e economicamente desafiante, antes de chegar então, finalmente, a tão desejada recuperação. Será um ano cujo desafio primordial passará por demonstrarmos, com ainda mais vigor, a nossa solidariedade perante os outros, não apenas através do apoio social, económico ou material a quem mais necessita, mas também do suporte espiritual e moral, da presença, das palavras de incentivo e de coragem.

Também na mesma carta, por ocasião do equinócio, chamei a atenção para o grande desafio dos próximos anos e que será o de nos unirmos contra o que desregula a natureza e prejudica a sobrevivência humana e todo o ecossistema planetário, com a sua incontável biodiversidade. Mais do que não devermos, não podemos deixar que as justificadas preocupações com as nossas condições a curto e médio prazo nos façam ignorar uma calamidade com data marcada no calendário se, em cada atitude e em cada gesto, individual e coletivamente, nas famílias como nas empresas, não contribuirmos para a sustentabilidade do planeta e para minorar os efeitos negativos ao nível ambiental.

Apesar do confinamento em massa, registado a nível mundial por causa da pandemia da doença Covid-19 ter desencadeado uma quebra nas emissões (até 8% a nível mundial, de acordo com algumas estimativas), os cientistas já salientaram que o desenvolvimento global não irá abrandar sem mudanças sistémicas, particularmente nas áreas da energia e da alimentação. De acordo com os especialistas da área do ambiente da ONU, a emissão de gases com efeito estufa teria de diminuir 7,6% por ano durante a próxima década.

Como salientou o secretário-geral da ONU, António Guterres, a ameaça climática é “muito mais grave do que a pandemia em si”. “É uma ameaça existencial para o planeta e para as nossas próprias vidas”, referiu. “Ou estamos unidos ou estamos perdidos”, avisou o secretário-geral da ONU, apelando, em particular, à adoção de “verdadeiras medidas de transformação nos domínios da energia, transportes, agricultura, indústria, no nosso modo de vida, sem as quais estamos perdidos”.

Outros líderes mundiais, como a presidente da Comissão Europeia, Ursula Gertrud von der Leyen, vieram já reforçar a necessidade de acelerar o passo, passando por um aumento da meta de redução de emissões, até 2030, de 40% para 55%. Para isso, Bruxelas pretende financiar 30% do próxima Geração UE (750 mil milhões de euros) através da emissão de chamadas obrigações verdes.

Por causa da pandemia do novo coronavírus, várias reuniões internacionais sobre questões ambientais agendadas para este ano tiveram de ser adiadas, suscitando receios de novos atrasos na luta contra as alterações climáticas. A boa notícia é que os EUA, após a eleição de Joe Biden, deverão regressar ao Acordo de Paris, cujo objetivo é o de limitar o aumento da temperatura média mundial “bem abaixo” dos 2º C em relação aos níveis pré-industriais e em envidar esforços para limitar o aumento a 1,5º C. O alcance de tal meta está assente na aplicação de medidas que limitem ou reduzam a emissão global de gases com efeito estufa.

Estas questões não podem ser-nos alheias, nem devemos vê-las com distanciamento. Devem, pelo contrário, ser motivo das nossas preocupações e ações diárias, para que as gerações futuras tenham a oportunidade de existir com uma qualidade de vida equivalente àquela que nós próprios herdámos.

Com essa convicção, os mais de 3500 maçons que integram a Maçonaria Regular iniciarão o ano de 2021 motivados e energizados, para um trabalho quotidiano de melhoria de si mesmos, dos outros, da sociedade e do mundo a que todos pertencemos. Só assim, solidário e envolvente, faz sentido o trabalho maçónico. Um ano virá, que poderá ser visto como “o melhor de sempre” se assim o quisermos.