Com a entrada num novo ano, surgem novas esperanças. Traçam-se novos objectivos ou redefinem-se alguns dos mesmo ainda não cumpridos.

A mudança do mês de dezembro para janeiro tem um peso e significado preponderante face aos outros meses. Não é que o novo ano instaure por si só uma vida nova, mas traz a ilusão de um começo ou possibilidade de recomeço, e por isso, novas expectativas e as ditas resoluções traçam-se para os meses vindouros.

A ideia, mesmo que ilusória, de poder traçar um caminho novo, organiza um espaço psíquico que permite um tempo de balanço do que se fez e do que se aspira vir a fazer. Surgem intenções expressas ao próprio e aos outros. Fazem-se listas e demarcam-se pontos para concretizar.

É o desejo da mudança que serve com ímpeto para traçar o mapa das intenções. Uma possibilidade de renovação do que não foi possível de realizar, ora por condições externas, ora por falta de motivação interna, mas a ideia que “agora é que vai ser”, dá um novo alento.

Sabe-se que muitos destes contratos entusiasticamente estabelecidos perdem-se ao longo do tempo, e o ânimo esperançoso de novas possibilidades, dilui-se com os contratempos dos acontecimentos mais imperativos dos limites da realidade. Como fazer para não cair na tendência para desistir do assinalado como tão desejado?

Primeiro, talvez, não aspirar ao impossível e irrealista. Se a fantasia tem um lugar importante para permitir ter pontos de fuga e possibilidade de evasão, ficar na circularidade da imaginação de um futuro belo sem viver o presente e transformar o que é possível no imediato, é um bloqueio ao sentimento de realização. Há que delinear etapas até conseguir atingir o desejável, pois se é traçada desde logo uma meta muito exigente, a probabilidade de não a fazer acontecer é muito maior.

Por outro lado, assumir que já existem coisas boas que são para manter e eventualmente ajustar, trará logo a possibilidade de uma consistente renovação, (re)actualizando por exemplo sonhos antigos já realizados, mas na actualidade renovados.

Ainda, poder adoptar é uma nova forma de lidar com o que já existe, ainda que não seja ideal, pode ser também a via para ter esperança em viver com mais alegria e satisfação o presente. É no dia -a-dia e  no modo de um presente contínuo que se vão criando as condições para a realização dos desejos, pois o futuro está ainda por vir e não acontece passar para esse estado futurível num salto explosivo e repentino.

Para renovar, é necessário abrir espaço para a mudança interna e pensar sobre os padrões de repetições sucessivas que atrofiam o fluir de um bem-estar na relação consigo, com os outros, com os projectos de vida.

Não há mudanças sem reflexões profundas. Não se apaga o passado nem se começa integralmente do zero, mas sim, recomeça-se, renova-se, reactualiza-se. As expectativas do novo são infrutíferas se forem demasiado abstractas e utópicas. Mais do que esperar coisas novas que possam acontecer, quase que magicamente caídas do céu, deve procurar-se é maneiras novas de lidar com hábitos velhos e traçar objectivos progressivos. Desse modo, passa a ser possível criar a mudança e conceber a esperança não morrer. Aprender a tomar decisões que simplifiquem e não compliquem o modus vivendis, com a possibilidade de equilibrar o sonho e a rotina, a novidade e o já esperado, é a forma mais plausível de ver os pontos da lista assinalados com sucesso.

Bons pensamentos produzem bons sentimentos e vice-versa.  Ter um bom ano parte desta dinâmica acontecer assim. A bússola para traçar o caminho é escutar o que é benéfico e apropriado às suas necessidades, desejos e realidades tangíveis.

Que seja um bom ano, com boas experiências e vivências.

anaeduardoribeiro@sapo.pt