Estava em casa a trabalhar com o meu laptop, num final de tarde chuvoso e um tanto inóspito, e eis que, vindo de parte nenhuma, o vi, silencioso e magnífico, ali mesmo à minha frente:  o Arco-Íris!

Estremeço sempre que isto me sucede: aquela melodia de cores atmosféricas, todas ordenadamente ao lado umas das outras, maravilha-me e intimida-me ao mesmo tempo: a minha tensão arterial sobe de repente, e invariavelmente digo, espantado, «UAU! FANTÁSTICO!» : diante deste incrível espetáculo, é tudo o que consigo expressar.

Também como é costume acontecer, uns escassos minutos depois veio a verificar-se o seu apagamento e partida para outras paragens, confirmando deste modo a ideia de que é por natureza, e paradoxalmente, um ente discreto que não tem culpa de ser assim luminoso e bem parecido.

É verdade que da minha janela se tem um horizonte desimpedido, e que isso contribui para que o Arco me visite com alguma frequência, em profundo contraste com o que sucede a uma pessoa minha conhecida cuja única vista é a de um prédio-torre que ocupa todo o espaço à sua frente; e ela queixa-se ainda e sempre desse seu infortúnio que já dura há anos, desde que teve de mudar de casa por causa de uma aumentada renda que o senhorio e proprietário impusera como condição para renovação do contrato do apartamento que tinha em frente um desanuviado horizonte.

«Se a dita torre não estivesse ali, e o espaço ficasse livre» – disse-me ele um bocado invejoso -, «seria óbvio que também viria a beneficiar dessas visitas de que repetidamente falas com tanta arrogância». E eu, que não gostei dessa maneira de tentar desvalorizar a minha evidente vantagem relativa, contestei-o e respondi-lhe sem intervalo: «Isso é uma mera especulação, já que ninguém pode garantir que apetecesse ao A-Í passar por aí».  E acrescentei, numa venenosa estocada final: «Repara, isto não tem nada de pessoal!».

Admito que essa minha reticência possa parecer, à primeira vista, pelo menos estranha: será que eu quero um Arco-Íris só para mim? porquê levantar essa maldosa dúvida, ainda por cima traduzindo-se numa afirmação tão especulativa e falível como aquela que eu critiquei ao meu interlocutor? qual é o direito que me assiste de pôr em causa a simples possibilidade de, ademais num caso de figura meramente teórico, tal aparição ocorrer? e eticamente, não seria normal – precisamente por não se verificarem, naquela rua e localização, nenhumas condições para o brilhante espetáculo se vir a produzir em toda a sua plenitude – que a minha atitude fosse de incondicional e genuíno acompanhamento da sua tristeza?

Prosseguindo perigosamente o raciocínio, o meu gozo seria menor se partilhado por terceiros, revelando-se-me assim uma mesquinhez que me surpreende e incomoda? Custa-me acreditar que o subconsciente me esteja a fazer uma tal partida, e nego de imediato e veementemente o seu direito de me causar um tal transtorno moral em sede de Arco-Íris: pois não sei eu que essa Maravilha tem um profundo sentido bíblico – vide Génesis 9:13-17 e o pacto com Noé – que consubstancia a eterna aliança e harmonia entre Deus e todas, repito, todas, as suas criaturas?

Muitos milhões de seres humanos já puderam gozar os breves minutos desse encantamento pessoal, enquanto alguns outros preferem ater-se a uma visão, de tipo científico, sobre as condições que conduzem à formação do referido e sensacional Arco. Não sendo de forma alguma contraditórias as duas interpretações – e por isso as faço igualmente minhas – , a espantosa beleza que dele emana convida-nos a viajarmos por desconhecidas galáxias mentais e, ou, espirituais.

Penitencio-me pelo meu desastrado egoísmo e mau-feitio. Isto dito, espero que tenha ficado claro pelas linhas que a seguir escrevi, que já me converti à boa causa: “«Por um Arco-Íris para todos os habitantes em Portugal» é, agora, o meu lema por excelência. Isto significa que não interessa a nacionalidade ou outro qualquer critério discriminatório e exclusivo sobre a pessoa residente em território português: todos deverão estar em condições de usufruir do extremo gozo de presenciar uma possível aparição daquele incomum fenómeno atmosférico, sem muros ou paredes a impedi-lo.

Do lado do Arco-Íris propriamente dito, afigura-se plausível, pela sua maneira de ser e de estar, que evite dar nas vistas em momentos de maior tensão política ou social: tudo indica que deseje manter-se à sombra de determinadas ocorrências públicas de reconhecida relevância, a fim de não concorrer involuntariamente para um qualquer transtorno no seu normal funcionamento. Isto dito, ele pode estar à nossa esquina e surgir quando menos se espera:  por exemplo, entre um e outro debate televisivo entre os candidatos presidenciais.

Se«estar-se na Lua» significa ausentar-nos para local incerto, já olhar-se para o Arco-Íris leva-nos a um lugar concreto tantas vezes cantado por multidões: o do Artista celestial que está por detrás das suas visíveis 7 cores. E o peso e a importância simbólica deste número nas Sagradas Escrituras merece ser sublinhado: aí, assume com grande clareza, sozinho ou multiplicado, a sua função específica de anunciador da perfeição, totalidade e plenitude divinas.