É aceite, sem grande discussão, que ao logo da vida as características da nossa espécie sofrem uma inexorável evolução.
Com tristeza e desespero para muitos, os olhos ficam encovados, as rugas invadem todo o corpo, o nariz e as orelhas tornam-se mais proeminentes, a percentagem de gordura corporal aumenta e diminui a massa muscular, as articulações vão ficando menos elásticas, a estatura diminui, o cabelo embranquece e vai escasseando…não continuo porque provavelmente incomodaria quem aceita com desgosto o envelhecimento.
Mas estas alterações visíveis acompanham-se de outras alterações em órgãos e sistemas.
Claro, e é um lugar-comum ouvir-se, que a alternativa ao envelhecimento é bem pior! Como bem disse o geriatra brasileiro Emílio Moriguchi, envelhecer não é castigo é privilégio. Cícero afirmou que só os idiotas lamentam envelhecer.
Perdem-se no tempo as tentativas de preservar a juventude ou, pelo menos, de envelhecer lentamente, mantendo por décadas alguma da frescura da idade jovem. No século XVI, Ponce de Leon teria procurado a fonte das águas que permitiam a juventude eterna. Há três mil anos os médicos do Rei Salomão, ofereceram-lhe os cuidados de uma escrava Sunamita para lhe tornar menos pesados os últimos anos de vida. Nos Séculos XVII e XVIII Thomas Sydenham e Herman Boerhaave copiando os médicos do Rei Salomão, criaram uma técnica semelhante de acompanhamentos dos velhos a que chamaram Sunamitismo.
Talvez que desde sempre a velhice tenha incomodado, porque a vida se aproxima do fim e pelo reconhecimento das várias qualidades que ficam reduzidas ou desaparecem com o envelhecimento.
Mas as doenças dos velhos e as suas particularidades também foram reconhecidas pelos médicos clássicos que entendiam que nos velhos as doenças eram crónicas e os tratamentos deviam ser mais suaves, de intensidade gradual, adaptados à fragilidade do idoso.
Em 1909 Ignatz Leo Nascher, médico austríaco naturalizado americano, criou a palavra Geriatria (do grego antigo: geron- velho, iatros-médico), definindo-a como a medicina dos velhos e como Geriatra o médico melhor preparado para tratar os idosos.
O sucesso da Geriatria traduziu-se na extraordinária difusão desta especialidade. A maioria das Escola Médicas ensina Geriatria, criaram-se muitos organismos internacionais dedicados à Geriatria, a especialidade foi reconhecida, os grandes hospitais organizaram consultas multidisciplinares de Geriatria e unidades de internamento de Geriatria (no Reino Unido desde 1948, nos EUA desde 1982, em Espanha desde 1984, em França desde 2000). Os detratores da Geriatria não conseguiram impedir a sua implementação em todo o Mundo, por uma razão bem simples: a Geriatria existe e cresceu porque é eficaz!
Atualmente mais de 3000 portugueses são centenários e quase 25% têm mais de 65 anos (INE/Pordata), idade considerada como o início da velhice. Esta baliza etária não assentou, nem assenta, em determinantes biológicas, mas em razões administrativas. Foi o Chanceler Otto von Bismark, no século XIX, que ao criar o primeiro sistema político de aposentadoria, escolheu os 65 anos como a idade da reforma e o fim da era produtiva, que por extensão foi assumida como a idade que marca o início do envelhecimento.
Por puro preconceito entende-se que ser velho é ser doente, dependente e muitas vezes demente. Cintudo um estudo à escala nacional, englobando Portugal continental e ilhas (PEN-3S, publicado em 2018) concluiu que 82,3% dos portugueses não tinham compromisso cognitivo e 73,6% eram independentes para as atividades instrumentais da vida diária.
A Geriatria, a medicina dos velhos, é tão justificável e necessária como a Pediatria, a medicina das crianças. Na nossa sociedade que exalta a juventude e valoriza pouco os idosos, quase ninguém quer ser velho!
É conhecida a história do idoso que precisa, por segurança na marcha, de usar bengala e que a substitui por um chapéu-de-chuva. Prefere que o considerem idiota por usar chapéu-de-chuva num dia seco, do que ser considerado velho com problemas na marcha.
Os hospitais e clínicas procuram despenalizar aquela dificuldade de assunção da velhice, criando com imaginação assistência médica sem a palavra geriatria. Por exemplo: consultas para doentes maiores, consulta 65 mais, consulta de saúde do adulto ativo, consulta de bem-estar sénior…
Esconder a idade, mascará-la com artifícios vários, não altera o envelhecimento biológico inexorável.
O idoso ao esconder ou recusar a Geriatria, ao camuflá-la com eufemismos, corre o risco de não ter acesso à otimização da assistência que a sua idade exige.