Aproxima-se o Natal. Nesta data ocorrem-me sentimentos opostos. De alegria antevendo o encontro com os familiares próximos e em simultâneo de tristeza porque recordo os Natais da minha infância. Nesses Natais do passado estavam presentes os que pela lei natural me deixaram e que com amargura e sentimentos de perda sempre recordo.
Calculo que ao escrever esta crónica me torne incómodo, maçador e que os leitores, se os houver, não passem das primeiras linhas.
Há dois anos procurei que em Portugal o Natal dos nossos Idosos, institucionalizados ou vivendo sozinhos, não fosse apenas preenchido por tristeza e solidão, mas que a data trouxesse carinho, ternura, convivência e partilha de afetos.
Quis que tivéssemos o Dia de Respeito pelos Idosos. Juntei assinaturas, enviei ao Presidente da Assembleia da República, fui depois ouvido por três deputadas, do PS, do PSD e do CHEGA.
Da deputada do PS recebi a resposta de que a sua Bancada não aprovava a criação do Dia de Respeito pelos Idosos, da deputada do PSD nunca tive qualquer resposta e da deputada do CHEGA recebi a promessa de que a proposta seguiria o seu percurso institucional.
Entretanto mudou o Governo, mudaram os deputados e o percurso do Dia de Respeito pelos Idosos perdeu-se.
Sempre senti, como médico que consagrou a maior parte da vida à assistência aos velhos, que os idosos incomodam. Incomodam os que acham que nunca envelhecerão e eventualmente nunca irão morrer, como me escreveu o meu patrono na Europeam Academy for Medicine of Ageing, Prof. Jean-Pierre Michel, quando lhe disse das dificuldades que encontrava em criar na minha Faculdade, a Cadeira de Geriatria.
Incomodam os políticos que os consideram um peso para a economia, uma “peste grisalha”, como um dos nossos políticos lhe chamou.
Incomodam muitos de nós porque são a imagem inexorável do que todos (os que tiverem essa sorte), seremos um dia, como canta Mafalda Veiga, na canção “Velho”.
A exaltação da juventude, a promoção de bens de consumo que não podem ser aproveitados pelos idosos, a dívida que os mais sensíveis reconhecem para com os seus velhos, promove e disfarça-se ignorando os idosos.
No PEN-3S (Portuguese Elderly Nutritional Status Surveillance System), um grande estudo nacional, concluiu-se que na nossa comunidade 23,5 % dos idosos sentem-se deprimidos e 13,2% sofrem de solidão. Nos Lares, agora denominados Estruturas Residenciais para Idosos, a depressão afeta 52,8% e a solidão 42,5% dos velhos nelas institucionalizados.
Escrevi numa crónica anterior como parece difícil aceitar que os idosos existem e que necessitam de assistência médica especializada, do mesmo modo que as crianças. No início e no fim do nosso percurso de vida as características biológicas são diferentes em muitos aspetos das dos adultos.
Também é difícil passar a informação de que os velhos são até ao fim, dignos e merecedores de atenções e de carinho.
Não teremos reconhecido o Dia de Respeito pelos Idosos, oficialmente não poderemos valorizar a dignidade dos idoso, combater preconceitos associados ao envelhecimento, promover políticas e práticas de respeito e proteção, sensibilizar a sociedade para o contributo dos mais velhos. Não teremos um Dia para celebráramos o respeito e gratidão pelos velhos, para lhes reconhecer o seu papel social e histórico, para promover a solidariedade intergeracional, para lhes afirmar, como na campanha promovida em 2021, com a colaboração de inúmeras figuras da cultura, das artes, da ciência, de Sua Santidade o Papa Francisco e do Senhor Presidente da República, que “Os Idosos são Valiosos”.
Mas cada um de nós pode, sem aviso e sem notícia nos órgãos de comunicação social, sem que os que detêm o poder tenham reconhecido o Dia de Respeito pelos Idosos, encontrarmo-nos com os nossos velhos, no dia 22 de Dezembro, oferecendo-lhes respeito e carinho, partilhando recordações, reconhecendo como continuam a ser valiosos nas nossas vidas.