Ouvi, num congresso pediátrico, que os hospitais são lugares extremamente barulhentos. No Natal, no entanto, ganham um silêncio diferente. Não é que haja menos ruído, continuam os sons das máquinas, as urgências cheias, os choros, as dores, os passos apressados, mas há uma suspensão no ar, uma espera. Os corredores parecem ouvir mais.
Esta semana, ao acompanhar o Coro de Natal da Operação Nariz Vermelho, senti esse silêncio ser preenchido por alegria, com uma particular intensidade. Ver serviços inteiros encherem-se com as nossas cores, a nossa alegria e a nossa música é sempre profundamente transformador. Mesmo quando tudo continua tão duro para tantas pessoas: pais que recebem notícias difíceis, profissionais exaustos depois de turnos intermináveis, crianças que só querem ir para casa. Ainda assim, por breves instantes, algo muda. A vida entra pelos corredores.
No serviço de fisioterapia pediátrica do Hospital Dona Estefânia, aconteceu um desses momentos inesquecíveis. Com a entrada do coro da ONV, armou-se em menos de dois minutos um verdadeiro espetáculo. Crianças com grandes dificuldades motoras e com questões clínicas graves começaram, cada uma à sua maneira, ‘a abanar o esqueleto’, a dançar, a rir, a divertirem-se. Aquela sessão transformou-se em fisioterapia fora da caixa: uma festa improvável dentro de um serviço onde a resiliência é diária, exigente e, tantas vezes, invisível. Senti uma alegria nos pais que é difícil de expressar por palavras.
Orgulha-me pensar que este espírito atravessou todo este 2025 na Operação Nariz Vermelho. Como se o Natal fosse mesmo todos os dias. Um ano excecional para a nossa organização.
Chegámos a novos serviços e iniciámos o nosso programa de visitas no Hospital de Aveiro, uma conquista há muito desejada, e só possível graças à campanha A Camisola Mais Valiosa do Mundo. Esta campanha nasceu da vontade de cumprir o último desejo do João, um jovem adepto de futebol que passou grande parte dos seus 16 anos de vida no hospital, onde recebia regularmente a visita dos Doutores Palhaços, com quem construiu uma ligação profunda, de confiança e humor. Antes de falecer, em 2020, o João decidiu deixar à ONV uma camisola da Seleção Nacional, assinada pelos jogadores, para que, com ela, angariássemos fundos e pudéssemos levar os Doutores Palhaços a mais um hospital. Essa camisola e este gesto do João tiveram impacto real: estamos em mais um hospital, temos contacto com mais equipas de profissionais de saúde e, acima de tudo, com mais crianças hospitalizadas.
Mas 2025 foi também um ano de consolidação científica e institucional. Demos um passo histórico ao abrir a primeira cadeira optativa “A Arte do Doutor Palhaço no Contexto da Formação dos Estudantes de Medicina”, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Este reconhecimento académico é fundamental, pois aproxima a arte do ensino médico, cria pontes com futuros profissionais de saúde e legitima, com rigor, aquilo que vemos diariamente nos hospitais. Realizámos ainda o nosso primeiro Encontro Científico de Arte e Saúde, que reuniu profissionais de diferentes áreas e que foi um enorme sucesso, abrindo espaço para reflexão, partilha e pensamento crítico. Ao longo do ano, membros da nossa equipa participaram em vários congressos, levando a experiência dos Doutores Palhaços para contextos científicos e institucionais.
Tudo isto importa porque queremos, e precisamos, de continuar a ser reconhecidos com seriedade, proximidade e evidência. Trabalhamos dentro dos hospitais com o mais alto profissionalismo, em articulação permanente com as equipas de profissionais de saúde, respeitando contextos clínicos exigentes e delicados. Levamos excelência, todos os dias, com preparação artística, ética e humana.
Afinal, regressamos sempre ao mesmo lugar: aos corredores, às salas de espera, aos mais variados serviços. Onde uma criança dança quando parecia impossível. Onde um profissional encontra um momento para respirar no meio do cansaço. Onde, mesmo nos contextos mais duros, a alegria insiste em aparecer.
É por isso que este foi um ano tão bom para a Operação Nariz Vermelho. Porque, dentro dos hospitais, continuámos a fazer aquilo que sabemos fazer melhor: levar vida onde ela faz mais falta. Obrigada a todos os que nos apoiam, nos permitem continuar a nossa Missão, e que continuarão a acompanhar-nos no próximo ano. A todos, um Nariz Natal e um excelente 2026!