Nunca fomos tão longe para descobrir o que já sabemos.
Todos os anos, as companhias aéreas comerciais fazem 40 milhões de voos, transportando mais de 4 mil milhões de passageiros – numericamente, metade da população mundial a visitar a outra metade. Deveríamos estar a ficar mais próximos, mas há muito que não parecíamos tão distantes.
Viajamos sem saber a língua de quem visitamos ou que moeda usam, indignamo-nos se o nosso cartão bancário não funciona no país de destino ou se não o aceitam nalguma taberna supostamente típica. Falta-nos o ar se o nosso operador de telecomunicações não tem um convénio com uma companhia local; sentimo-nos o homem da pedra lascada sem internet; regressamos chocados se, por acaso, num vilarejo algures, não se encontrava quem soubesse falar inglês. Levantamos voo em direcção a um sítio qualquer quantas vezes sem ter lido ao menos um pouco de um guia de viagem, quanto mais estudado qualquer coisa da sua história ou cultura. Vamos fechados nos nossos headphones, nas nossas sapatilhas de marca, no nosso bom casaco comprado numa multinacional, a dizer com a mochila, milimetricamente feita para levar tudo o que não nos pode faltar, sem pesar demasiado nas costas. Instalamo-nos no hotel recomendado pelo visitante ou em cuja cadeia confiamos de outras paragens. Alegramo-nos por descobrir um Starbucks que nos sirva um café razoável, à falta de uma bica decente; de um McDonald’s que nos safe num momento de aflição porque, “o que eles comem naquele lugar”, deusnoslivre. Não vagueamos nem cirandamos – nem sequer perguntamos. Metemo-nos no Google e no GPS: “melhores restaurantes à minha volta”, “o que não perder”, “coisas obrigatórias de fazer em”. Vamos à procura daqueles lugares e “experiências” que vimos de antemão nos scrolls pelas redes sociais e que foram a verdadeira e única razão de ter decidido fazer aquela viagem. Fotografamo-nos no lugar reproduzindo exactamente as fotografias que vimos. Ficamos desiludidos quando não corresponde ao que esperávamos.
Naturalmente, porque não nos deixámos surpreender por nada, não fomos para descobrir – apenas para encontrar. Ao contrário do que dizemos, não fomos à aventura; fomos à caça. No fim, ou conseguíamos ou não. Ou voltávamos com todos os troféus pretendidos ou deixávamos escapar algum. Só deixámos espaço para a desilusão.
Supostamente, queremos o mundo, elevámos a viagem a projecto de vida, destino preferido dos nossos investimentos; na realidade, nunca saímos do bairro. Preferimos o que conhecemos. O segredo do sucesso das grandes cadeias globais é ficarmos tão felizes por saber com o que contar. Basta um sistema operativo de outra marca para nos deixar imediatamente confusos, paralisados, quanto mais uma moeda, uma língua, uma forma diferente de ser, pensar ou agir. É o curioso provincianismo da gentrificação, do alegado cosmopolitismo a que nos catapultámos: quando vamos, vamos com a casa às costas, como um rastejante caracol; quando ficamos, queremos as mesmas coisas em todo o lado. Festejamos a abertura do restaurante que já conhecemos doutra parte da cidade agora à porta de casa, que faz o mesmo molho, da mesma maneira, e a loja que vende os mesmos móveis, para a mesma ideia de felicidade.
Porque haveria de ser diferente na política? Vivemos num mundo em que tudo podendo escolher ver ou ouvir, escolhemos ver e ouvir só aquilo de que gostamos, só aqueles que concordam connosco. Não queremos aprender e muito menos descobrir que estávamos enganados; queremos o conforto da confirmação, a certeza de que, afinal, não estamos sós; o estimulante reforço das nossas convicções, fés, intuições mais primárias.
Viajamos cada vez mais, mas é-nos cada vez mais insuportável tolerar a diferença. Preferimos o robô previsível à desagradável hipótese da imponderabilidade do comportamento de outro ser humano. Exigimos políticos que nos defendam da invasão, da mudança, que nos devolvam ao que tínhamos, que prometam garantir o controlo e a ordem. Viajamos cada vez mais, mas não temos a menor curiosidade por clicar para ler um texto para lá do título, abrir um de tantos livros que temos na estante, entender o ponto de vista do fulano da mesa do lado. Queremos animais domésticos que nos façam sentir menos sozinhos, desde que saibam passar um dia inteiro fechados num apartamento. Tal qual nas relações amorosas. Garantimos, orgulhosamente, a quem nos rodeia: sabemos muito bem o que queremos, o que procuramos, ignorantes de que o problema seja mesmo esse. Não foi o coração que abrimos; foi o casting para um papel, uma vaga de trabalho, com funções prévia e claramente atribuídas.
No fim, é claro, nada nos chega, ninguém nos surpreende, o mundo sabe a pouco. Desde crianças hiper-estimuladas, perdemos o gozo de flanar, vagabundear, errar – no duplo sentido da palavra. Tudo o que fazemos é para a performance, o desempenho, aumentar os números de qualquer coisa, “rentabilizar” o tempo. Matámos o espanto. Tornámo-nos a mais aborrecida das criaturas. E assim, na maior ameaça a ela mesma.