Como a vida, tudo tem um fim. E no dia 28 de Março de 2025, após mais de 30 anos de serviço, a minha tasquinha onde tantas vezes me fui reconfortar nos anos em que trabalhei na Baixa de Lisboa, fechou. O ritual era simples. Ao entrar dirigia-me ao lavatório de porcelana para lavar as mãos. Neste caminho de cerca de 10 segundos, já o dono, o Sr. Baião, me tinha topado e decidido o que iria ser o meu almoço. Entre os dois pratos de peixe e outros tantos de carne que compunham o menu, o Sr. Baião já me ia conhecendo os gostos. “Jovem, hoje vai comer aqui um …”. “Maravilha, Sr. Baião, pode por aí a toalha ao Balcão, por favor” Sempre ao Balcão.

Enquanto lavava as mãos, a frase de fundo, direccionada para a cozinha, era sempre a mesma “sai uma dose de … para o Benfiquista”. A D. Maria da Conceição lá atrás já sabia que eu tinha chegado. E, antes de vir cá fora partilhar a alegria da vitória gloriosa ou reclamar daquela decisão do malvado árbitro que apitara o último jogo do Benfica, já me tinha preparado o almoço que me daria a energia para o resto dia. O Sr. Carlos servia às mesas e, volta e meia, entre tantos cumprimentos lá me entornava um pingo de café para as calças num daqueles acidentes que só acontece a quem trabalha. Era vê-lo em sufoco à procura do tira nódoas para garantir que eu não saía daquela casa infeliz. O Sr. Fernando, seu colega, repartia o serviço de mesa. O Sr. Fernando é o pináculo do melhor que a Portugalidade tem a servir à mesa e a garantir que o seu cliente se sente verdadeiramente em casa. Uma simpatia e genuinidade absolutamente ímpares. Sem desprimor a ninguém, mas, e após ter visitado incontáveis casas de suposto alto gabarito na restauração em Lisboa, afirmo sem qualquer dúvida que se contam pelos dedos de uma mão, aqueles que conheci a servir à mesa que podiam dizer estar ao nível do Sr. Fernando. Desdobrava-se em Espanhol, Inglês, Francês e até Italiano tudo pelo simples sentimento de garantir que quem entrasse naquelas quatro paredes, viesse de onde viesse, sentisse que pertencia ali.

A comida era variada. Cozido à Portuguesa, Moelas estufadas, Massada de Bacalhau, Arroz de Polvo Malandrinho, Frango com Esparguete, Leitão de Negrais, Açorda de Gambas, Favas à Portuguesa, Iscas c/élas, Bacalhau no Forno com Batata a Murro, Arroz Malandrinho de Miúdos, Peixe Grelhado, Galinha de Cabidela. E, claro, o Bitoque. Dos melhores Bitoques que já comi, mas que nem estava no menu porque se sabe que onde há cozinha portuguesa, arranja-se sempre um Bitoque. O ingrediente em comum? Aquele que distingue a Cozinha Popular Portuguesa de todas as outras a nível mundial. O amor. Cada prato transpirava carinho e genuinidade. A partir daí, tudo surge de forma natural.

No dia 26 de Março, e antes de partir de viagem, comi na minha tasquinha pela última vez. Digerir este facto está a ser mais difícil do que qualquer uma das iguarias acima mencionadas. Houve abraços, sorrisos e lágrimas. Ternura e gratidão. Fecham para dar a uma Croissanteria Francesa. Pelo meio das despedidas, uma confissão: “andámos aqui anos a montar esta casa e nunca ninguém nos valorizou, além dos nossos amigos, claro.” Uma afirmação crua mas, acima de tudo, factual. Numa altura em que tudo tem galas, tudo tem prémios, é triste constatar que ainda não houve qualquer iniciativa oficial para reconhecer o valor patrimonial e cultural das Tascas como espaços de preservação da Cozinha Popular Portuguesa. Pelo contrário, quem se esforça por a preservar é olhado com desdém e deixamos que se olhe para as Tascas como espaços inferiores, como se fosse vergonha fazer destes espaços casa.

Portugal ignora cabalmente o seu maior património: a Cozinha Popular e Tradicional Portuguesa. Os jovens empresários da restauração preferem a “cozinha portuguesa com um toque moderno” que quase sempre obedece a fichas técnicas dignas de um ficheiro de Excel e atiram para o lixo todo o toque fraternal que verdadeiramente coloca Portugal no topo da Gastronomia Mundial. Chamam Tasca a algo que de Tasca não tem nada e oferecem comida robotizada que privilegia o rigor técnico em detrimento da naturalidade. As autarquias ignoram que, além dos portugueses, nenhum turista quer vir a Lisboa ou qualquer cidade portuguesa comer os croissants, pizzas, kebabs ou ramens que come da mesmíssima maneira em qualquer outra cidade do Mundo, optando por desleixar este património em vez de criar incentivos à sua preservação. Mais ainda quando a oferta gastronómica nacional é infinitamente superior à da esmagadora maioria de outros países europeus. Um turista quer entrar numa Tasca, comer uma Cabidela ou Cozido que nunca mais vai comer na vida enquanto repara que está rodeado de cidadãos locais. Ter uma Tasca deve ser visto como um privilégio e honra. Quem as perpetua com a sua genuinidade, deve ser respectivamente reconhecido

Há exemplos que fogem a esta regra. O Vida de Tasca, no Bairro de Alvalade em Lisboa, é o exemplo perfeito do que deve ser a renovação geracional das Tascas. De como é possível transportar as Tascas para o século XXI e continuar a servir comida típica e honesta com viabilidade no negócio. Turismo de Portugal e Ministério da Cultura (sim, porque a cultura de um país reside muito na forma como estamos à mesa, mais ainda no caso de Portugal) deviam olhar para este caso como referência e criar incentivos para que seja replicado noutros pontos do país. Para que da próxima vez que um contrato de arrendamento chegue ao fim ou merecidíssima reforma de quem ali dedicou a sua vida, o fecho de portas de uma Tasca signifique apenas um passar de testemunho e não um passo galopante rumo a uma tristíssima potencial realidade: o fim cruel da Cozinha Tradicional Popular.