Não há como negar. Javier Milei é um dos maiores fenómenos políticos do século XXI. Pela admiração ou aversão, a verdade é que serão muitos poucos os que, interessados por política mundial, terão uma opinião indiferente face ao presidente da Argentina eleito em 2023. A conjuntura não era para menos. Milei assume poder numa Argentina arrasada por anos de um insustentável socialismo, assente em premissas de fundos infinitos, até ao ponto de rotura em que é confrontada com a dura realidade: o dinheiro não cai das árvores. A sufocante inflação destruía qualquer hipótese de robustez económica e a carga de impostos para operações simples como marcar um voo pela internet assolava o mais comum dos cidadãos. Para contexto, nos meses antes à eleição de Milei, eram vários os estabelecimentos desde supermercados a restaurantes que não tinham marcadores de preço pois os mesmos variavam da manhã para a tarde e para a noite. Não porque houvesse valor acrescentado ou diminuído em adquirir produtos a diferentes horas do dia, mas sim pela desvalorização do Peso Argentino de hora a hora. Verificar a taxa de câmbio do Peso face ao Dólar tornara-se o ritual matinal de cada argentino.

É neste cenário que os Argentinos, desesperados, deram poder a um homem de motosserra em riste, patilha à Wolverine, que prometia mandar “afuera” 11 de 19 ministérios desde o das Mulheres, Género e Diversidade a outros mais convencionais como Educação ou Saúde. A premissa era a acabar com a máquina do Estado, acabar com a burocracia estatal motivado por uma lema que marca a actualidade política: “Viva a Liberdade C*****”. Não foi difícil encontrar no leque de paineleiros e comentadores políticos em Portugal quem, na altura, vaticinasse o caos na Argentina, resultante da eleição de Milei. Como em tudo, o contexto é fundamental e a breve descrição que deixei no primeiro parágrafo serve para isso mesmo. Afinal, a meu ver, não consigo julgar nenhum Argentino por ter votado em Milei sabendo que, de outro modo, estaria a votar pela continuidade do Peronismo e Kirchnerismo que ia destruindo um dos países potencialmente mais ricos do mundo. E como tantas vezes, os julgamentos foram demasiado rápidos. A verdade é que os resultados de Milei têm sido globalmente positivos, não só na percepção de quem vê de fora sem palas ideológicas assim como, e mais importante ainda, para os argentinos. Milei é dos poucos presidentes que, no 1.º ano após eleição, viu a sua popularidade crescer, algo que pude comprovar pessoalmente tendo visitado Buenos Aires 4 meses antes e 1 ano e meio após a sua eleição. Nesse sentido, é natural que à volta do mundo vão surgindo vários agentes políticos que reclamam replicar ou querer replicar as fórmulas de Milei. Em Portugal, a Iniciativa Liberal, quando representada pelos seus quadros de maior saliência, tem assumido parte desse discurso mantendo uma distância saudável evitando entrar nos excessos do excêntrico Chefe de Estado Argentino. Não só porque Milei leva o discurso liberal ao patamar de libertário e anarco capitalismo (assumido pelo próprio), indo por isso contra muitas das bases do Estado Social que a Iniciativa Liberal defende mas, acima de tudo, em dois pontos relevantes.

O primeiro prende-se com o alinhamento nas Relações Internacionais. Uma das promessas de Milei era que a Argentina deixaria de ser um agente neutro a nível geopolítico, identificando desde logo os seus principais aliados: os Estados Unidos e Israel. Acresce a que, desde a eleição de Trump, o discurso de Milei tem se revelado de um quase sebastianismo para com o recém eleito presidente americano, expandido-se ao seu parceiro descrito por Milei como o “fantástico Elon Musk” e a outro agentes a nível mundial como Bukele em El Salvador, Meloni em Itália, Orban na Hungria ou Netanyahu em Israel (e apoiar Netanyahu é muito diferente de ser favorável ao desejo de garantias de segurança por parte do Estado de Israel). Tudo isto vai contra aquilo que acredito ser o alinhamento político defendido na sua génese pela Iniciativa Liberal, estando presentes nesta lista vários elementos com comportamentos antagónicos àqueles que idealizo para uma democracia ocidental do século XXI.

O outro ponto crucial e talvez o mais importante, é que Milei é um ultra conservador profundamente religioso. Não o digo em tom pejorativo. Mas digo-o com a certeza de que o alinhamento defendido pela Iniciativa Liberal (com o qual me identifico na generalidade) em matéria de políticas e costumes sociais, como aborto ou eutanásia vai no sentido oposto ao que apregoa Milei. É uma diferença fundamental, assumindo o próprio Milei que a sua batalha, mais que económica, é cultural e que, só vencendo a segunda, se montam as bases para ser bem sucedido na primeira.

Ainda é cedo para fazer uma análise profunda aos resultados das políticas económicas de Milei. Assim como será difícil fazer uma análise justa no final do mandato de 4 anos, período relativamente curto para conseguir dar a volta ao caos em que se encontrava o país. Fica, no entanto, uma certeza: o facto de Milei ser um fenómeno de popularidade não lhe deve garantir um livre passe para moldar todo o pensamento político. E que se por um lado há políticas que podem e devem ser elogiadas e replicadas em vários países, a melhor forma de não cair em dissabores futuros é entender o enquadramento social no qual Milei cresce na Argentina e encarar as tomadas de posição por parte do presidente Argentino como o sal e a pimenta.