A NATO nasceu em 1949, numa Europa devastada pela guerra e perante a ameaça soviética. Foi  concebida como um pacto de defesa coletiva para garantir que nenhum país europeu  enfrentaria sozinho a pressão de Moscovo. Durante décadas, funcionou como dissuasor  estratégico, sustentado sobretudo pela superioridade militar norte-americana. A queda do  Muro de Berlim e o colapso da União Soviética levaram muitos a pensar que a Aliança perderia  utilidade. Mas a história demonstrou o contrário. A NATO sobreviveu, adaptou-se e expandiu-se  para Leste, recebendo países que tinham vivido sob a influência de Moscovo.

Hoje, setenta e cinco anos depois da sua fundação, a NATO não só continua a existir como  voltou a ser central para a segurança europeia. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 foi o  ponto de viragem que revalidou a sua razão de ser. Longe de estar ultrapassada, a Aliança  regressou ao papel que a definiu: deter um adversário disposto a usar a força para alterar  fronteiras. A entrada da Finlândia e da Suécia confirma que, perante a ameaça, os países  vizinhos da Rússia procuram refúgio na NATO, e não fora dela.

O problema é que, apesar da sua indispensabilidade, a Aliança não tem demonstrado coragem  suficiente para afirmar esta força. Os aliados falam em unidade, aprovam metas financeiras  ambiciosas e condenam violações russas, mas hesitam quando chega a hora de traduzir  palavras em ações dissuasoras inequívocas. Os Estados Unidos, que continuam a ser o pilar  militar insubstituível, têm conduzido a estratégia com uma mistura de firmeza verbal e retração  prática. Trump reuniu-se com Putin no Alasca, prometeu defender “cada centímetro” da NATO,  mas evitou qualquer passo que pudesse comprometer a relação direta com o Kremlin. Esta  ambiguidade é explorada por Moscovo, que percebe a diferença entre retórica e ação.

Sem a NATO, a Europa estaria hoje exposta a riscos que nenhum país poderia enfrentar sozinho.  A interoperabilidade entre forças armadas, a partilha de inteligência, os sistemas antimísseis, a  defesa aérea e a capacidade nuclear dos EUA formam uma teia de proteção que impede a  Rússia de avançar para além da Ucrânia. Esta rede de segurança é o que sustenta a soberania  dos Estados bálticos ou da Polónia, países que sabem que, sem a Aliança, seriam vulneráveis à  pressão russa.

Mas a NATO não é apenas um ator regional. A sua presença no Atlântico, no Mediterrâneo ou no  Indo-Pacífico demonstra que continua a ser um fator global. O reequilíbrio face à China, a  dissuasão no Médio Oriente ou a estabilização de rotas comerciais estratégicas são parte da  sua agenda. A NATO foi ao Kosovo em 1999, ao Afeganistão em 2001 e à Líbia em 2011,  mostrando que a Aliança pode projetar poder fora do espaço europeu. O alargamento  geográfico do seu raio de ação confirma que não é apenas um pacto militar, mas também um  instrumento político.

Contudo, a força da NATO tem sido mais simbólica do que operacional. Os Estados Unidos não  carecem de meios militares, mas da vontade de os usar de forma clara e preventiva. A Casa  Branca tem receio de uma confrontação direta com Moscovo que possa incendiar o sistema  internacional. Por isso prefere respostas calculadas, sempre um compasso atrás das agressões  russas. Essa hesitação transmite à Rússia a ideia de que pode testar continuamente os limites  da Aliança, seja com drones sobre a Polónia, seja com ameaças de reposicionar mísseis em  regiões sensíveis.

É neste ponto que se joga a perceção pública da NATO. Se a Aliança não responder com clareza,  arrisca-se a perder a credibilidade que constitui o seu maior ativo. A acusação de  expansionismo feita pelo Kremlin é parte dessa batalha de narrativas. Mas a realidade é clara:  foram os países vizinhos da Rússia que pediram adesão à NATO, não a NATO que os forçou a  integrar-se. O que Moscovo teme não é uma invasão ocidental, mas a proximidade de  democracias estáveis, com regras de direito, junto às suas fronteiras.

O maior problema é interno. A Europa continua sem capacidade política para liderar. A  Alemanha hesita, a França proclama mas não executa, e países como Itália ou Espanha  limitam-se a cumprir compromissos mínimos. Portugal, segundo as estimativas da NATO,  deverá finalmente atingir os 2% do PIB em 2025, depois de anos de incumprimento. Mas a sua  relevância estratégica mantém-se reduzida. Cumpre a regra, mas não influencia a definição da  política da Aliança nem dispõe de meios para projetar poder. A dependência estrutural e cultural  face aos Estados Unidos permanece.

A questão de fundo é saber se a Europa pode depender eternamente das oscilações políticas  de Washington. O regresso de Donald Trump à Casa Branca colocou novamente essa dúvida em  cima da mesa. O discurso de que os europeus não contribuem o suficiente para a sua própria  defesa é antigo, mas agora vem acompanhado de exigências concretas: aumentar gastos para  3,5% do PIB até 2035 e dedicar 1,5% a infraestruturas críticas. No total, 5% da riqueza anual.  Um esforço colossal, que mostra até que ponto a perceção da ameaça russa transformou a  agenda ocidental.

Mas, mais dinheiro não resolve por si só a fragilidade política. Sem coesão estratégica, a NATO  pode tornar-se um gigante financeiro com pés de barro. Os desafios que se acumulam vão muito  além da dissuasão convencional. A guerra cibernética, a manipulação da informação, as  operações híbridas e o controlo do espaço são novos domínios onde a Aliança tem de se  afirmar. A Rússia e a China investem fortemente nessas áreas. Se a NATO não fizer o mesmo,  ficará refém de uma conceção de defesa do século passado.

Portugal é exemplo disso. Apesar do aumento do orçamento, continua a ter carências  estruturais: capacidade limitada de projeção, fragilidade na defesa aérea, dependência em  tecnologia importada e reduzida presença em missões internacionais de alto impacto. O  esforço financeiro é real, mas ainda não se traduziu em relevância operacional. Cumpre o  número, mas não acrescenta poder.

A NATO é indispensável, mas vive presa à contradição de ser forte nas declarações e frágil na  execução. Enquanto isso, a Rússia prossegue a guerra, dedica 7,1% do PIB à defesa e prepara  novas formas de pressão militar. Se a Aliança não demonstrar força credível, visível e  dissuasora, arrisca-se a ser vista como um gigante verbal e um anão estratégico.

A NATO não é um mito fundador nem um projeto de redenção global. É uma coligação de  Estados soberanos que escolheram defender em conjunto aquilo que sozinhos não  conseguiriam proteger: os seus territórios, as suas populações e a sua forma de vida  democrática. Não combate para expandir fronteiras, mas para as preservar; não procura impor  modelos políticos, mas afastar os que procuram destruí-los. O seu futuro não se decide em  cimeiras ou em declarações inflamadas, mas na capacidade de provar, quando testada, que  continua a ser um escudo credível contra ditaduras e democracias de fachada. Se falhar, a  Europa ficará exposta; se cumprir, garantirá apenas o essencial: a sobrevivência da liberdade.