Durante décadas, a defesa da natureza foi um pilar do pensamento conservador. Os campos, as florestas, os rios e os montes eram vistos como heranças sagradas, legados recebidos dos nossos antepassados e que tínhamos o dever moral de preservar para os nossos filhos. E, no entanto, hoje assistimos a uma inversão perversa: o cuidado ambiental parece ter sido sequestrado por uma certa esquerda que se arroga dona da causa ecológica, enquanto a direita tradicional se mostra alheada, quase embaraçada, como se cuidar do ambiente fosse sinónimo de aderir a um programa marxista ou a utopias leninistas disfarçadas de verde.

Esta apropriação ideológica do ambiente pela esquerda não aconteceu por acaso. Ao longo das últimas décadas, os chamados “eco-leninistas” descobriram no discurso ambientalista uma nova frente de combate para o seu velho sonho revolucionário. Onde antes falavam de luta de classes e de coletivização da terra, agora falam de transições energéticas e de justiça climática. Mas, no fundo, o projeto mantém-se: usar o pretexto da proteção ambiental para impor modelos económicos centralizados, restringir liberdades individuais e reconfigurar a sociedade segundo a cartilha igualitária.

O mais lamentável é que este sequestro da causa ambiental só foi possível porque a direita conservadora abandonou o terreno. Durante demasiado tempo, muitos dos que se dizem herdeiros do pensamento de Burke ou de Chesterton , olharam para as questões ecológicas como manias da esquerda radical, esquecendo-se de que a conservação ; como o próprio nome indica, é, antes de mais, um valor profundamente conservador. O conservador cuida, preserva, transmite. E o que há de mais digno de preservar do que a nossa paisagem, o nosso território, a nossa casa comum?

A figura de Gonçalo Ribeiro Telles surge aqui como um farol num tempo de nevoeiro. Ribeiro Telles soube articular como poucos a tradição conservadora com uma visão ecológica profundamente enraizada na realidade portuguesa. Do ordenamento do território ao desenho das cidades, da defesa do mundo rural à proteção dos recursos naturais, o seu pensamento mostrou que o amor à terra não é um capricho ideológico, mas um imperativo moral. E, no entanto, a direita que devia reivindicá-lo como um dos seus maiores vultos, quase o esquece ou o reduz a uma nota de rodapé.

A esquerda, por sua vez, transformou a ecologia em arma de arremesso político. Fala de ambiente, mas pratica a demagogia. Promove políticas que, sob a capa da sustentabilidade, são muitas vezes contrárias ao bom senso e à realidade: bloqueios ao desenvolvimento rural, desprezo pelo mundo agrícola tradicional, burocracias asfixiantes para quem trabalha a terra, enquanto se subsidia o espetáculo mediático das cimeiras climáticas e dos protestos coreografados.

É urgente que a direita – a verdadeira direita, a que tem raízes fundas na História e na Cultura – recupere o seu lugar natural na defesa do ambiente. Que compreenda que não há pátria sem paisagem, não há identidade sem território. E que perceba que, ao deixar o campo livre à esquerda, contribui para o avanço de políticas que nada têm de conservação e tudo têm de engenharia social disfarçada.

A natureza não é de esquerda, nem de direita. Mas é dos que a amam com autenticidade. E a tradição conservadora, se quiser, ainda pode ser a voz que recorda ao país que proteger o ambiente não é um ato revolucionário, mas um dever de gratidão para com os que vieram antes e os que hão-de vir depois.