Nenhuma distopia do pós-guerra conseguiu ir tão longe quanto Úrsula von der Leyen com o anúncio de um programa normativo para remilitarizar a Europa. Os governos europeus podem agora preparar-se para uma guerra. O ReArm Europe pretende reconstruir a indústria militar através de empréstimos aos Estados-membros e libertá-los de restrições orçamentais para ultrapassarem os limites aos défices públicos. A Europa que se reconstruiu com base na ideia de uma paz duradoura (ancorada no controlo das matérias-primas que haviam precisamente feito a guerra) é a mesma Europa que agora se industrializa para outra.
O ReArm Europe não é uma declaração de guerra, mas não deixa de colocar a Europa e os europeus no caminho do abismo: a inevitabilidade de tropeçar num passado que não passou. É um regresso ao espírito da paz armada de 1871 que levou a Europa para a Primeira Guerra Mundial. É um regresso trágico ao espírito invertido de 1935 que depois levou a Europa para a Segunda Guerra Mundial. O ReArm Europe não é (ainda) uma declaração de guerra, mas destrói o legado de Adenaeur, Schuman e Monet. A Europa como um lugar geograficamente móvel de estabilidade e ao mesmo tempo como uma ideia desterritorializada de paz. Esse mundo acabou. Há uma nova ordem do dia.
O poder interpretativo sobre a aplicação do programa poderá ser facilmente apropriado e confinado nos labirintos jurídicos, mas em algum momento os europeus terão de avaliar politicamente o seu impacto na soberania nacional de cada Estado-membro e nos termos da própria integração europeia. As opiniões públicas devem ou não discutir narrativas de soberania à luz do ReArm Europe? Os parlamentos nacionais devem ou não regressar ao espírito dos tratados que construíram o projecto europeu? Perguntado de outra forma, por se tratar de uma questão política, a remilitarização da Europa deve ou não ser avaliada através de mecanismos de consulta popular, como os referendos?
É verdade que não se pode fugir ao contexto em que o ReArm Europe surge. A Europa encontra-se perdida entre o abandono emocional norte-americano e o medo de uma invasão russa que pode estender a experiência dos ucranianos a todos os europeus. São precisamente estes tempos de reduzida consciência da realidade e de excesso de presentismo que exigem políticos capazes de caminhar para lugares difíceis. Lugares que podem significar abrir as portas do céu aos bárbaros. Tal como Willy Brandt fez para construir diálogos impossíveis num território partilhado de reconhecimento da verdade do outro. Para já, manda o princípio da precaução recordar que quando a Europa se prepara para uma guerra, a Europa começa a sua própria guerra.