Quando um sistema de saúde deixa de proteger quem nele trabalha, não é apenas a classe médica que se fragiliza, é a confiança de um país inteiro que se mina.
Nos últimos anos, a obstetrícia portuguesa tem vivido sob um escrutínio intenso, por vezes transformado em perseguição. Basta um caso trágico chegar às redações, quase sempre sem contexto clínico completo, já que os processos são confidenciais, para se montar um tribunal mediático. Em poucas horas, forma-se uma opinião pública unânime, apoiada em versões parciais, e o obstetra converte-se no réu de um julgamento sem defesa possível.
1.Quando o esporádico aparenta ser a normalidade
O mediático caso de Umo Cani, uma mulher grávida que faleceu nos últimos dias, ilustra esta distorção. Rapidamente, após a publicação de uma notícia — ou de uma não-notícia — ergueu-se a narrativa da negligência médica. Condenou-se quem a observou na última consulta, quem a avaliou na consulta anterior e, por fim, condenou-se todo um sistema, reduzido a um alvo solitário: o obstetra. A conclusão que importa, a que vende, é simples e devastadora: a senhora morreu, logo, morreu por incompetência médica. E, em segundo lugar, por falha do sistema — sendo o sistema protagonizado pelo médico, o que é sempre conveniente.
Mas a realidade, como quase sempre, mostrou-se mais complexa. A senhora tinha acompanhamento médico, fora referenciada por risco obstétrico, e a equipa hospitalar reagiu dentro dos limites do possível, com aparente competência. As entidades competentes, como é seu dever, prosseguem a investigação. Enquanto isso, os profissionais diretamente envolvidos aguardam em silêncio, com o peso da consternação e da dúvida, ouvindo na praça pública as declarações e indignações dos não envolvidos.
Quando o sistema falha, a tendência é procurar culpados. Raramente soluções.
É certo que há falhas nos cuidados de saúde prestados à população — ninguém o nega.
Mas convém recordar que a obstetrícia é uma das áreas com menor taxa de erro clínico efetivo. Ou melhor: é provavelmente a especialidade com maior taxa de intercorrências reportadas, precisamente porque é das poucas (ou a única) que verdadeiramente reporta. E reportar, em vez de esconder, é sinal de maturidade e transparência, não de incompetência.
Poucos meses antes, outra história fez manchete: a de uma médica obstetra que teve o parto em casa. Tudo correu bem, mas a notícia foi tratada como uma curiosidade quase exótica. Seria possível uma obstetra desejar um parto domiciliário? Ou não reconhecer os sinais de trabalho de parto?
Creio que a resposta a ambas as perguntas é negativa. O mais provável é que se tenha tratado de um daqueles trabalhos de parto precipitados, que ocorrem em minutos, em qualquer lugar — uma eventualidade tão antiga quanto a própria humanidade.
2. Um país a duas velocidades
O caos obstétrico em Portugal é, hoje, um problema territorial.
A norte de Coimbra, ainda subsistem serviços sólidos, com equipas estáveis, cultura de segurança e liderança clínica.
A sul, reina o improviso. Escalas incompletas, maternidades que encerram temporariamente, ausência de anestesia ou neonatologia permanente.
É neste cenário que se pedem milagres a profissionais exaustos e se criticam médicos que, tantas vezes, estão a trabalhar sem rede.
Porque a verdade é esta: os obstetras não têm retaguarda. Não têm a retaguarda de um sistema coordenado. Trabalham em sobrecarga, em serviços deficitários, sob risco jurídico permanente.E quando percebem que não têm qualquer proteção, incluindo jurídica, muitos optam por sair. Desistem não da medicina, mas de um ambiente institucional que deixou de ser sustentável.
3. A falsa solução da “vigilância de baixo risco”
Perante a aparente escassez de médicos, discute-se agora a transferência da vigilância das gravidezes de baixo risco para a enfermagem. A medida é apresentada como inovação, mas é, na verdade, um expediente para disfarçar o desinvestimento.
Não está em causa a competência dos enfermeiros — profissionais essenciais, dedicados e altamente qualificados. O que está em causa é o princípio clínico: a gravidez é um processo dinâmico. Uma gravidez considerada de baixo risco pode transformar-se em alto risco numa questão de minutos.
Curiosamente, são os próprios enfermeiros mais experientes — aqueles cuja opinião todos escutamos — os primeiros a recusar a vigilância isolada de uma gravidez ou de um parto. Fazem-no não por falta de competência, mas porque a experiência lhes ensinou que tudo muda em segundos. E que nesses segundos — quando o coração do feto desacelera, quando a hemorragia não estanca, quando a decisão tem de ser tomada — não há substituto possível para o trabalho em equipa.
4.Caminhos possíveis
Reverter este ciclo exige mais do que diagnósticos: exige coragem política. Há pelo menos quatro eixos essenciais de reforma.
- Reorganizar a rede materno-infantil, concentrando urgências e recursos, assegurando que nenhuma grávida é transferida por falta de anestesista, neonatologista ou obstetra disponível.
- Reforçar as equipas e as condições de trabalho, garantindo progressão na carreira, tempos de descanso, estabilidade e remuneração proporcional à responsabilidade.
- Criar uma verdadeira retaguarda institucional, com administrações e departamentos jurídicos que defendam os profissionais, comuniquem com rigor técnico e assumam responsabilidades quando o sistema falha.
- Reforçar a literacia pública em saúde, para que a sociedade compreenda que a vida e a medicina comportam imprevisibilidade, e que nem tudo o que é trágico é necessariamente evitável.
Tenho o privilégio de ser formada numa instituição que se rege pela evidência científica, com protocolos rigorosos e pensamento clínico livre — precisamente para evitar que as guidelines se transformem em blindlines. Mas temo que, fora destas ilhas de excelência, o discurso político e mediático esteja a destruir o essencial: a confiança.
A obstetrícia é talvez a área mais exposta da medicina. Cada nascimento é público, cada falha é notícia, cada decisão comporta emoção. Mas não se corrige um sistema atacando quem o sustenta. Se queremos um país que valorize a vida, temos de começar por valorizar quem dela cuida.
A perseguição aos obstetras empobrece os cuidados de saúde e mina a confiança da população.
Muitos médicos optam por sair, cansados do desalento e da ingratidão de um sistema que não protege quem nele acredita. E quando um obstetra sai, não é apenas uma vaga que fica a descoberto, é experiência e conhecimento. Quando um obstetra sai, a obstetrícia empobrece, e perdemos todos: as mulheres, os bebés, as famílias e a sociedade — que se quer viva, saudável e justa.