Uma série, sobre a “adolescência”, que apareceu mais ou menos ao mesmo tempo que os “rankings” das nossas escolas, pôs algumas ágoras a funcionar. Não me parece, contudo, que se esteja a abordar o problema pelo lado correcto, o que tornará difícil chegar a uma solução. Jovens “problemáticos” sempre os houve, retratados noutros tantos filmes, nos do icónico Janes Dean, ao Rumble Fish de Coppola. Só que ao tempo eram assumidos como problemáticos a começar pelas famílias.
Quando as relações deixam de ser lineares passam a ser caóticas, é o que diz a teoria e comprova-se aqui. Foi o que aconteceu nas escolas. Da relação entre o aluno e o professor – linear – introduziu-se um terceiro elemento — a família – e o caos instalou-se.
Fazendo uma viagem no tempo, nos anos 60, nas escolas primárias todos vestiam bata branca, igual, havia castigos corporais e nem os pais se opunham, nem ocorria aos filhos queixarem-se do facto em casa. Quem o fizesse corria o sério risco de apanhar de novo.
As regras, rígidas, eram para todos. Todos se levantavam quando o professor entrava e o silêncio nas salas era a regra.
As batas escondiam a pobreza, hoje deviam voltar para esconder a riqueza. As marcas fomentam desigualdades, conflitos latentes, maus estar dos que não têm.
No secundário, os castigos físicos, eram raros (na escola pública), se aconteciam prendiam-se com insubordinação ou provocação (algum que tivesse visto um filme de Dean, ou fosse simplesmente parvo). Se repetisse havia expulsões. O roteiro variava consoante a bolsa dos progenitores, os mais abonados começavam uma vida pelos colégios internos, os menos abonados entravam na vida activa, como aprendizes em alguma oficina ou mister.
Os que mesmo assim se revoltavam, iam mudando de colégio, onde o rigor ia subindo de nível até atingir uma versão próxima de um reformatório. E eram os pais que lá punham os filhos, assumindo que não conseguiam dar conta do recado.
Com a entrada na vida adulta havia “a tropa”, que resolvia todos as síndromes, da hiperactividade à falta de concentração.
A narrativa actual é que a criança foi posta no centro do processo educativo, a realidade é outra, os pais é que passaram para o centro e querem que os filhos passem e com boas notas. Não estão particularmente preocupados se os filhos aprendem alguma coisa, no processo em curso parece coisa perfeitamente secundária. Mais uma vez, as finanças familiares mandam. Os mais abonados mudam-se para colégios privados (se em Lisboa ou Porto) ou ingressam em “explicações”, ou menos abonados seguem alegremente até ao 12º onde chegam sem terem aprendido nada de útil e sem a mínima possibilidade de ingressarem no superior. O futuro não é luminoso, como se percebe.
Segundo a OCDE, nos países ricos, a capacidade dos adultos raciocinarem a resolverem problemas atingiu o seu zénite em 2010 tendo vindo a decrescer desde aí. O caso português é paradigmático, ficou abaixo da média da OCDE nos três domínios avaliados no Inquérito 2023 sobre competências dos adultos entre os 16 e os 65 anos de idade: literacia, numeracia e resolução adaptativa de problemas
Hoje, foram sendo abolidos o glúten a lactose e em simultaneamente também as regras, o respeito pela escola e pelos professores e funcionários.
Perante os resultados dos exames, ouvimos justificações idênticas às dos treinadores nas flash interview após um jogo que perderam. A mais corrente são as condições sócio-económicas, ou seja, assume-se que os pobres não podem ser bons alunos. Como 22,4% da população está em risco de pobreza, assumem que 22 em cada 100 alunos não vão a lado nenhum. Eu tendo a concordar se as escolas continuarem a facilitar e não valorizar o esforço.
Há disciplinas sem professor, problema que se tem agravado, contudo há cada vez mais professores e menos alunos que contabilizam cerca de 2 milhões de dias de faltas por ano.
É que muitas escolas são hoje zonas de guerra e os professores não aguentam, compreensivelmente. Não aguentam os alunos que não querem aprender, não aguentam os pais e não aguentam o “clima”.
Obrigar a manutenção de um elemento desestabilizador na escola por 12 anos, confirma a teoria do caos, os restantes 20 colegas não vão aprender nada na escola porque os professores não conseguem ensinar. Volta a impor-se o princípio da economia, quem tem capacidade consegue que os filhos superem quem não tem, não tem.
Ao longo destes 50 anos vimos desaparecer as escolas profissionais onde muitos alunos se sentiam mais estimulados, motivados e de onde saiam úteis.
Tem de haver desde cedo, soluções alternativas para os “alunos” que não querem aprender.
O relaxe é total, entranhou-se em toda a estrutura. A escola tem servido ao longo dos séculos para aumentar o vocabulário, hoje em todos os graus a linguagem não é de estrebaria, é pior. Como serão as entrevistas de emprego?
Sabemos que estas questões não se põem quando se paga. Nos colégios onde se paga (como nos hospitais) os pais exigem…que os filhos aprendam.
Os “castigos” passam por “mandar os alunos para casa”. Coisa que não os afecta. Pergunto se um serviço cívico, ou a simples limpeza da escola não seria mais pedagógico.
Para os mais distraídos, os rankings estão muito incompletos, porque deviam incluir todas as escolas do mundo, é com quem os nossos vão competir. Dificilmente podemos competir com alunos do oriente, da China, da India ou do Japão, a disciplina está presente, sempre.
O ensino não precisa de uma reforma, precisa mesmo de uma revolução. E precisa dessa revolução amanhã, para não dizer ontem. 50 anos de experimentações muitas sem qualquer base científica e ajustada ao ar do tempo, ou aos interesses dos governantes, mas alheios aos das crianças e do país (sendo que as cobaias não são os tradicionais ratos, mas os nossos filhos). Quando vimos que a então secretária de Estado da educação colocou os filhos em colégios privados percebemos que ninguém acredita no sistema. Frases como o que é preciso é avaliar competências e não conhecimentos leva-nos aos tenebrosos tempos do Marquês de Pombal (que há muito devia ter sido apeado da rotunda) que destruiu o sistema educativo existente no seu tempo e atrasou o país mais de um século.
O professor Marçal Grilo resume o problema no título do seu livro – difícil é sentá-los
Bom, felizmente há luar.