Em primeiro lugar, expliquem-me, por favor, como é que alguém anda tanto tempo a preparar-se para ser primeiro-ministro e uma vez lá chegado se enreda desta maneira?! Em todo este caso de Luís Montenegro há algo que não entendo.

Em segundo, se o governo de Montenegro por força da fraca maioria do executivo ousava pouco e procurava agradar a quase todos vai agora, com um primeiro-ministro enfraquecido, arrastar-se com medo do chão que pisa. Sem censura que chegue nem confiança que baste. É neste ponto que estamos. O governo não cai mas também não se segura o suficiente para fazer mais que gerir o tempo à espera do próximo sobressalto. O Governo está como a Spinumviva a empresa que foi do primeiro-ministro: nem activo nem desactivado. À espera. É a política em modo spinumvivoflatico.

Em terceiro, o falhanço de Montenegro não é o falhanço de Montenegro. Ou não é apenas o falhanço de Montenegro. A sucessão de acusações e explicações dos últimos dias em torno da empresa de Luís Montenegro e da sua família levou ao rubro o Partido Estado,  essa coligação transversal na sociedade portuguesa, que vai do Chega ao BE e a que alguns, poucos, se opõem no PSD, IL e uma percentagem cada vez mais ínfima no PS.

Essa crescente multidão que vive do e no Estado e que por isso se alimenta e alimenta a suspeição sobre todos aqueles que vêm de fora, anda por aí a pronunciar a palavra “empresa” como quem profere o mais terrível dos palavrões. Para cúmulo, as empresas fazem negócios e os negócios visam os lucros, coisa que em Portugal está ao nível do pecado mortal. No ponto em que estamos, só pode aspirar ao exercício de cargos políticos quem trabalhou toda a vida para o Estado. Ou melhor esse era o ponto em que estávamos. Agora os seus familiares também devem ser idealmente funcionários públicos ou, na falta dessa mais valia, trabalhadores por conta de outrém. Empresários é que não!

Politicamente falando, Luís Montenegro com as omissões sobre a sua vida empresarial não resolveu nenhum dos nossos problemas e agravou vários. Não havia necessidade.

Vejo e revejo a cena da Sala Oval. Umas vezes com som. Outras ficam só as imagens. E paulatinamente torna-se-me óbvio que Vance e Trump (a ordem não é irrelevante) têm um plano de paz para a Ucrânia que tem um único ponto: afastar Zelensky. Tirar Zelensky funciona como contrapartida para as concessões que Putin vier a fazer. Como lembrava o major-general Arnaut Moreira, no Contra Corrente com que assinalámos os três anos da invasão da Ucrânia, a maior derrota para Putin é no acordo constar a assinatura de Zelensky, o homem que há três anos surpreendeu o mundo com aquele vídeo em que algures numa rua de Kiev dizia rodeado de representantes do poder eleito da Ucrânia “Estamos aqui”.

Em nome da decência (e também da inteligência mas no caso a decência é mais importante) poupemo-nos ao exercício de detectar os erros de Zelensky na Casa Branca para explicar o desfecho da reunião-emboscada. Zelensky podia ter rastejado, chorado, declamado, dançado ao ritmo dos Village People ou ficado pura e simplesmente calado que o resultado teria sido o mesmo: acabaria a ser confrontado por Vance e humilhado por Trump. Transformar Zelensky no entrave à paz foi aquilo a que se assistiu na Sala Oval. Quem viu não esquece.

Putin pode e muito provavelmente quer assinar um tratado de paz. Mais provavelmente ainda até pode ceder em vários pontos desde que nesse tratado não conste a assinatura de Zelensky. Trump e Vance não estão a dar a vitória a Putin. Estão a proporcionar-lhe a oportunidade de se vingar. Por agora de Zelensky. Depois se verá de quem mais.

PS. Alguém sabe informar se nos encontros que o presidente francês teve em Portugal foi referido, aludido ou proferido o nome de Lino Sousa Loureiro, o emigrante português assassinado por um terrorista em Mulhouse, França?

Com  a chuva torrencial que se abateu sobre o país e o ar encharcado que sobressaía daquilo tudo pode ter-me escapado o momento em que Macron, Marcelo, Montenegro, Moedas… referiram o heroísmo desse homem que à semelhança de tantos portugueses emigrou para França e aí fez  a sua vida, acabando a perdê-la para defender dois polícias.  Mas certamente que o nome de Lino Sousa Loureiro foi proferido e o seu exemplo de integração elogiado. Só gostava de saber o momento em que tal aconteceu. Afinal, não dá para acreditar que se possam ter esquecido.