Arnold Toynbee descrevia a Pérsia como “o grande corredor civilizacional”, enquanto Fernand Braudel a via como “a encruzilhada onde o Oriente encontra o Ocidente”.

A Grande Pérsia não é mero conceito geográfico, é uma ideia que atravessa o tempo. Dos impérios aqueménida e sassânida à dinastia Pahlavi, representou sempre sofisticação, poesia, arquitectura monumental e ciência que iluminou séculos obscuros europeus. Ferdowsi, Hafez, Rumi,  estes nomes pertencem à humanidade. A Pérsia foi guardiã do conhecimento, ponte que levou a sabedoria grega ao mundo árabe e depois à Europa renascentista, transformada e enriquecida. 

O século XX foi cruel com a Pérsia. O petróleo transformou uma terra de cultura em cobiça geopolítica. O golpe de 1953, orquestrado pela CIA e MI6 para derrubar Mossadegh, não foi apenas crime contra a soberania iraniana, foi crime contra a possibilidade de a Pérsia evoluir pelos seus próprios meios. Quando a Revolução de 1979 varreu o Xá, poucos no Ocidente compreenderam que aquela revolta nasceu da humilhação histórica, da intervenção externa constante.

O regime dos ayatollahs instalou-se nessa ferida aberta. A França tem culpa histórica, foi em Neauphle-le-Château que Khomeini organizou o regresso triunfal. A conivência francesa, motivada pela ilusão de que um regime islâmico seria controlável, revelou-se trágica. Instalou-se uma teocracia que progressivamente asfixiou as liberdades prometidas pela Revolução.

A guerra Irão-Iraque custou milhares de vidas. Saddam Hussein, armado indirectamente pelos EUA que viam no Irão revolucionário uma ameaça petrolífera, lançou uma agressão brutal. Washington forneceu inteligência, fechou olhos ao uso de armas químicas. Esta hipocrisia, a de condenar terrorismo enquanto se alimenta guerra, consolidou o regime através do conflito, transformando uma nação sitiada em fortaleza ideológica.

A relação com a Rússia é sobrevivência, não conveniência. Moscovo não é amigo por afinidade, mas por necessidade estratégica. Ambos isolados pelo Ocidente, usam-se mutuamente. Para a Rússia, o Irão é peça no tabuleiro do Médio-oriente; para o Irão, a Rússia é fornecedor de armas e aliado na ONU. Mas a história não esquece as invasões czaristas e soviéticas. Esta aliança durará enquanto as circunstâncias obrigarem.

A China apresenta-se como parceiro económico do futuro. O acordo de 25 anos de 2021 insere-se na nova Rota da Seda. Mas também aqui há cálculo, para Pequim, o Irão é energia e posição estratégica; para Teerão, a China é o mercado que o Ocidente recusou. A política de vizinhança persa tornou-se dança complexa, influência no Iraque, apoio a grupos na Síria e Líbano, rivalidade saudita. É estratégia de sobrevivência, não expansionismo.

O valor real do Irão é imenso e trágico. Imenso porque continua ponte geográfica e cultural, possui população jovem e educada, recursos abundantes, peso civilizacional inegável. Trágico porque este potencial está aprisionado por um regime que, em nome da preservação ideológica, asfixia a nação que deveria servir.

As tensões recentes revelam verdade incontornável, o regime está na corda bamba. As manifestações de mulheres queimando hijabs, protestos estudantis brutalmente reprimidos, revolta contra a polícia moral, a sociedade iraniana evoluiu para lá da prisão ideológica imposta. As novas gerações querem a Pérsia dos poetas, não dos censores. Querem a ponte que une civilizações, não a fortaleza que se isola.

Os ayatollahs apertam o nó de onde dificilmente conseguirão escapar. A actual escalada de repressão, documentada pela imprensa internacional, mostra um regime em pânico, consciente de que perdeu a juventude, as mulheres, a classe média urbana. Cada prisão arbitrária, cada execução de manifestantes, cada proibição de expressão artística cava mais fundo o abismo entre regime e povo.

Este regime desfasado sobrevive através da repressão e do medo. A ironia é cruel, a Pérsia, durante séculos sinónimo de conhecimento e arte, vive sob um regime que queima livros, prende realizadores, silencia dissidência. Deixou de nos dar aquilo que a Pérsia merece, a beleza, a sabedoria, as pontes entre culturas.

Não haverá espaço no século XXI para um regime obsoleto que se tornou foco de instabilidade mundial. Não por imposição externa, as intervenções já causaram demasiado sofrimento, mas por exigência interna. O povo persa, herdeiro de Ciro que proclamou o primeiro documento de direitos humanos, não aceitará indefinidamente viver sob tirania.

A ponte entre dois mundos vacila, mas não cairá. Porque a ponte não é o regime, é o povo. Não são os ayatollahs, são os milhões de iranianos que carregam herança de milénios. A questão não é se o regime cairá, esse destino parece inevitável, mas o que virá depois. Conseguirá a Pérsia, finalmente livre, reconstruir-se como ponte civilizacional que sempre foi?

Voltará o Irão a ser a luz que ilumina o meio? Voltará a grande Pérsia de Xerxes, Ciro, Dario, dos Xás a ser a grande ponte entre mundos? A grande Pérsia nunca irá cair, essa Pérsia que é paixão imensa… o regime cairá, a propaganda cairá, os cobardes cairão, os desvalidos cairão, a Pérsia, essa jamais, porque é perene, porque é infinita, porque é imortal, porque é de todos e não permitiremos que caia, nunca!