Há pouco mais de três décadas, quando comecei a exercer medicina, um doente com mais de setenta anos de idade já era considerado um idoso. Entretanto, graças aos progressos científicos e à melhoria dos cuidados de saúde, a esperança de vida aumentou significativamente. Atualmente, as enfermarias têm cada vez mais doentes internados com mais de noventa anos.

A velhice traz consigo inexoravelmente uma série de problemas físicos: as doenças acumulam-se e a caixa da medicação, ao longo dos anos, continua a somar fármacos. Vive-se mais tempo, mas surgem cada vez mais doenças crónicas, perde-se autonomia e qualidade de vida. A dor persistente passa a ser uma companhia diária, ainda que indesejada.

Muitos idosos são dominados por um sentimento destruidor de inutilidade, sentindo-se um peso para terceiros e atravessando períodos de solidão profunda. “Já não ando cá a fazer nada”, “sou um fardo para a minha família, o melhor era morrer” são desabafos que se escutam com alguma frequência, embora revestidos de alguma ambivalência entre o desejo de viver e o de morrer.

Chegados aqui, gostaria de chamar a atenção para o subtipo de depressão que observo com maior frequência. Designo-a em sentido lato, e não como categoria de diagnóstico formal, como “depressão senil”. Trata-se de uma depressão associada ao envelhecimento avançado e à perda de autonomia, que invade a mente de uma pessoa idosa que sente que já perdeu tudo, incluindo a dignidade e o sentido para a vida. Confesso que estes casos são particularmente difíceis de tratar, pois a desesperança encontra-se profundamente arreigada. Quando não existe apoio da família ou uma visão religiosa que dê sentido ao sofrimento, fica aberta a porta para a eutanásia.

A sociedade aumentou a esperança de vida, mas não está a tratar da dimensão psicológica e psiquiátrica dos problemas inerentes ao facto de as pessoas viverem mais tempo, muitas vezes com sofrimento, solidão e uma autoperceção de perda de relevância social. Há por isso um perigo real de que, caso a eutanásia seja legalizada, surja um número significativo de pedidos de suicídio assistido, pois o conceito de sofrimento psicológico intolerável é subjetivo, abrindo a possibilidade para a banalização do suicídio assistido na população mais idosa.

Se a eutanásia vier a ser legalizada, verifica-se um paradoxo: o Estado, através dos serviços de saúde, garante uma maior esperança de vida, mas, ao mesmo tempo, oferece um novo “serviço” legal, ajudando as pessoas a suicidarem-se.

Este é um assunto complexo que deve merecer reflexão e uma intervenção pública, combatendo-se a visão utilitarista da vida humana. Como é que isso pode ser feito? A rede nacional de cuidados paliativos deve ser uma prioridade. As condições dos lares devem ser melhoradas, nomeadamente ao nível do apoio humano e do incremento das atividades ocupacionais, não se podendo transformar em depósitos de seres humanos privados de dignidade. Os programas de voluntariado, designadamente junto dos jovens, devem ser incentivados, transmitindo às novas gerações uma responsabilidade ética humanista, até porque, mais cedo ou mais tarde, também chegarão à velhice.

As leis laborais devem permitir maior flexibilidade aos filhos que trabalham e que têm pais idosos a seu cargo. Por sua vez, as empresas têm de assumir um compromisso ético, valorizando os colaboradores que têm a responsabilidade de cuidar dos pais, oferecendo-lhes, ao mesmo tempo, a possibilidade de manterem uma vida profissionalmente ativa.

A lei que visou legalizar a eutanásia em Portugal (Lei n.º 22/2023) não chegou a ser  regulamentada e algumas das suas normas foram consideradas inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional em 2025 (Acórdão n.º 307/2025), mostrando que este debate permanece juridicamente e eticamente longe de estar encerrado. Julgo que a pressão para a sua legalização voltará brevemente à agenda política.

Os defensores da eutanásia recorrem frequentemente ao argumento de que esta opção libertaria a pessoa do sofrimento. Trata-se, porém, de um falso eufemismo, pois a eutanásia não põe termo ao sofrimento: põe termo à vida. Em qualquer caso, o suicídio voluntário dos idosos, para além de não ser uma solução, não nos liberta da responsabilidade coletiva de lhes proporcionar uma vida humana digna até ao fim, até à morte natural.

Termino com as palavras que julgo que devem ser ditas a todos aqueles que sofrem de depressão associada ao envelhecimento avançado e pensam pedir o suicídio assistido: “não, a sua vida não perdeu sentido, não perdeu dignidade, tem valor até ao fim, não é um peso para os outros, continua a ter um valor imenso para todos nós”.