Abro a porta da sala ainda às escuras. É a primeira aula que dou. Sinto o cheiro das emoções a preenchê-la. Há uma energia própria nas expectativas de milhares de adolescentes ao entrarem no secundário. Falamos de sonhos, de expectativas alimentadas por vozes familiares: “tu és especial”, “tu vais ser alguém”. Mas a resposta que perdura é sempre a mesma: “Todos somos especiais”, “Todos somos alguém”. Vejo olhos cheios de esperança.

Alguns dizem-me para ser duro, para ver estes adolescentes como inimigos. Não consigo. Não enxergo este brilho puro, quase animal, como se fossem bestas prestes a despedaçar-me — mesmo sabendo que, em parte, o possam ser. O instinto animal diz-nos para nos defendermos, mesmo quando não há perigo real. A mente tende a ver o outro como ameaça. Não porque pareça malicioso, mas porque é desconhecido. Nada mete mais medo do que aquilo que não conhecemos. Também eu começo desconfiado, frio, por vezes distante. Como um emissário romano a dialogar com o chefe de uma tribo gaulesa.

Há sempre perguntas inusitadas que nos desarmam. “Professor, conhece famosos?”, dispara uma jovem do 10.º ano. Procuro na memória algumas celebridades com quem me cruzei. Sinto-me embaraçado por não ter muitas. Venho da Reboleira. Gangsters não entram na lista de estrelas para uma rapariga de 15 anos.

A fixação da juventude com a fama sempre me comoveu. Julgo ser uma procura de imortalidade, de reconhecimento perante as famílias. Vêem-na como transcendência, fuga à monotonia urbana. O glamour, a polémica, os admiradores — tudo isso seduz. Ainda mais na adolescência: esse quarto escuro com poucas referências, muitas dúvidas e pouca luz. Um quarto onde a fama é, tantas vezes, a única vela acesa. Não posso julgar a sua sede de fama. Também eu a tive.

Aos 15, sonhava ser ator de Hollywood. Simulava entrevistas em que era o único português a ganhar um Óscar. Uma espécie de James Dean lusitano. Também provei a minha dose de egocentrismo artístico. Oscar Wilde deixou a frase lapidar: “A única coisa pior do que falarem de nós é não falarem de nós.” Não buscamos a fama. Se vier, que venha. Se não vier, paciência. Mas falem de nós. Bem ou mal, não interessa. É prova de que marcamos o mundo com passos, palavras e atos.

Mais triste é passar pela vida como um candeeiro apagado. Porque, no fundo, nenhum de nós quer ser o candeeiro que nunca deu lume.