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No passado dia 21 de Agosto, Fernanda Câncio usou a sua coluna de opinião no Diário de Notícias para atacar violentamente Ascenso Simões, cabeça de lista do PS por Vila Real e ex-director de campanha do partido. À primeira vista, a escolha do alvo de Câncio pode parecer estranha – dada a conhecida proximidade da autora com o PS –, mas na verdade o violento ataque é perfeitamente compreensível à luz do impasse em que se encontra actualmente o partido.

No artigo, Câncio lamenta que a demissão de Ascenso Simões se tenha ficado a dever aos cartazes eleitorais do PS e não às suas ideias. E vai mais longe, atacando a continuidade de Simões como cabeça de lista por Vila Real. Para defender o afastamento por delito de opinião de Ascenso Simões, Câncio apresenta como evidência acusatória um artigo publicado no jornal Sol. Nesse artigo, cuja leitura se recomenda, Ascenso Simões defende a flexibilização do mercado de trabalho no âmbito de uma concepção progressista e reformista de social-democracia.

Pode-se concordar ou discordar dos argumentos apresentados por Ascenso Simões, mas defender um processo de saneamento político por causa do mesmo no contexto de um partido de esquerda moderada é, no mínimo, bizarro. Mais bizarro ainda se recordarmos que foi precisamente a moderação do PS e a sua rejeição das tentações extremistas e da cartilha marxista da “luta de classes” que abriu caminho ao estabelecimento de uma democracia liberal em Portugal e possibilitou a reversão de algumas das mais destrutivas políticas implementadas na sequência do 25 de Abril de 1974 e do PREC.

Neste contexto, seria porventura fácil descartar o violento ataque de Câncio como um mero exercício de diletância esquerdista de alguém com excesso de radicalismo e défice de conhecimento sobre matérias económicas e sobre a história política portuguesa das últimas décadas. Seria fácil, mas seria também errado. Apesar de não ocupar qualquer posição partidária formal, Câncio e a tendência de pensamento (definido em sentido lato) sectário e radical em que se insere são relevantes no panorama político português e em especial no PS.

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Para aferir a relevância desta corrente, basta recordar a forma como a liderança de António José Seguro foi impiedosamente minada desde o início na comunicação social. Não foi, naturalmente, apenas por isso que Seguro acabou por ser afastado da liderança do partido, mas essa acção foi um factor importante. Da mesma forma, o facto de se colocar seriamente a possibilidade de o PS vir a apoiar um candidato presidencial com o perfil de Sampaio da Nóvoa é sintomática da deriva do partido e do crescente peso interno do radicalismo esquerdista.

A melhor ilustração do crescente peso da esquerda mais radical no interior do PS exige no entanto recordar uma votação parlamentar de Julho de 2013. Nessa votação estava em causa uma proposta do Bloco de Esquerda para reestruturar unilateralmente a dívida pública portuguesa e quatro deputados do PS, contrariando a posição oficial na altura do partido, votaram a favor: Pedro Delgado Alves, Pedro Nuno Santos, João Galamba e Duarte Cordeiro. O que aconteceu desde então aos quatro deputados do PS que votaram ao lado do BE e do PCP? Nenhum foi purgado por delito de opinião nem por ter votado ao lado da extrema-esquerda contra a orientação da liderança do PS, antes pelo contrário: Pedro Delgado Alves é novamente candidato a deputado pelo PS, Pedro Nuno Santos é Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PS, João Galamba é membro do Secretariado Nacional do PS e Duarte Cordeiro substituiu Ascenso Simões como director de campanha do PS.

Não se pretende com isto sugerir que António Costa é, ele próprio, um radical esquerdista. Todos os indícios apontam aliás para que Costa, à semelhança de José Sócrates, tenha uma relação flexível e pragmática com os princípios e ideias políticas. Mas a verdade é que tanto Sócrates como Costa abriram espaço a elementos mais radicais, com a agravante de Costa até agora não dar mostras do carisma e das qualidades de liderança patenteadas por Sócrates. O futuro do PS – e também do sistema partidário português – dependerá em boa parte do desfecho deste impasse. Na ofensiva contra os sociais-democratas moderados no interior do partido o que está em causa é o perigo efectivo de radicalização do PS num contexto internacional de elevado risco.

Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa