1 A verdade política é incómoda. Não se confunde com a verdade que a retórica produz. Corresponde àquilo a que os gregos chamavam parrêsia. Não sou filólogo mas creio que não há mesmo numa língua tão rica como a nossa uma palavra isolada que a possa reproduzir. Talvez se possa avançar com o falar com toda a franqueza mesmo que com riscos.

A verdade fere. Não se destina a gerar consensos nem a aplacar adversários. Vai ao âmago das coisas e é por isso que quase todos a contrariam na arena política. O seu objectivo é desvelar a realidade tantas vezes encoberta pelos esforços retóricos dos que querem viver acomodadamente na e da situação em que prosperam. Os políticos não são, salvo poucas excepções, os portadores da verdade mas, muito pelo contrário, os prestidigitadores da realidade. É por isso que a verdade é política mas é frequentemente contra os políticos que temos.

A verdade política não é maioritária no sentido em que é comum a todos ou a quase todos. Mas é popular pois que é imediatamente perceptível pelos seus ouvintes e, quando dita, estes logo a reconhecem e compreendem. A explicação é muito simples. A construção retórica é volúvel, passageira porque tem de se adaptar a cada situação e, portanto, acaba por cansar. Gera uma sensação de desconfiança. Nada melhor do que a realidade política portuguesa para nos apercebermos disto. Os nossos políticos dizem apenas aquela verdade que convém segundo as regras do jogo por eles estabelecidas. A verdade não lhes interessa para nada. O que importa é a conveniência em conformidade com os pressupostos, também eles convenientes, de que partem. O político português actual não esconde a verdade como se fazia há sessenta ou setenta anos, por fidelidade a uma razão de estado imperiosa: substitui-a por uma versão aceitável. Para ele, a verdade não depende da razão mas da conveniência, pelo que toca a dissimulá-la e a desvalorizar as provas. «Menti, menti sempre que da mentira alguma coisa fica», dizia Voltaire ao caracterizar a atitude dos políticos franceses do seu tempo.

2 A retórica é uma arte de convencer própria dos profissionais da política. Não diz a verdade, diz apenas meias-verdades e meias mentiras numa composição hábil destinada a aderir ao ouvinte. É fácil? Não é difícil.

A verdade, pelo contrário, incomoda quem a diz e até quem a ouve. Ambos correm riscos, os da incompreensão e até piores. Mas estabelece entre quem a diz e quem a ouve uma ligação imediata. E porquê? Porque em quem a diz o ouvinte percebe a virtude do desassombro e a coragem da frontalidade. E reconhece-se nelas. Reconhece a e identifica-se com a atitude de quem a diz, provavelmente até mais do que com o conteúdo. Trata-se de uma maneira de dizer a verdade. De dizer uma verdade que o ouvinte frequentemente preferia até não ouvir mas que sabe que é autêntica. E preferia porque as consequências de a ouvir e de a não poder ignorar podem ser desagradáveis. Pesa a responsabilidade de, pelo menos, a ter ouvido.

3 A verdade do desassombro e da coragem de a dizer não é a verdade em si. Esta provavelmente nem existe porque depende de um conjunto evolutivo de paradigmas que se sucedem historicamente incidindo sobre os mesmos temas, sem resposta definitiva. A verdade não é propriedade definitiva de um estado de coisas ou de uma opinião. Mas, mesmo assim, é possível descartar a verdade da retórica política assimilável destinada a vencer, não a convencer. É por isso que quem diz sem receios a verdade não é nem pode ser um profissional. Daí a sua fraqueza mas também a sua força.