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Corria o dia 12 de Março de 2016. À entrada no Congresso do CDS/PP que elegeu Assunção Cristas como nova Presidente do partido, realizado em Gondomar, Nuno Melo disse então várias coisas, que, lidas em perspectiva, à luz da sua actual e anunciada candidatura à liderança são preocupantes e reveladoras de uma excêntrica percepção da realidade.

Desde logo: a marca de água evidente e zumbi de mais um ser dominado pelo tantra portista. Naquela ocasião, aliás, Nuno Melo começou por negar qualquer receio de que o CDS ficasse “na sombra” de Paulo Portas, para depois, logo a seguir, surpreendentemente, ter manifestado a esperança de que ele continuasse por perto. E se ele está tão perto.Como nunca. Tão perto, tão perto quanto por detrás do organizado e estruturado e mediatizado cerco cerrado de quase 2 anos à actual e desafiada direcção do partido, eleita democraticamente.

Naquele ensejo de há anos, Nuno Melo também se mostrava muito confiante nas capacidades de Assunção Cristas.Mas nas eleições de 2019, o CDS foi levado por aquela candidata à malha de 4,44 %…

Melo também afirmou esperar ser um factor de unidade; e tem-se visto! Proclamou igualmente que seria no partido o que o Congresso quisesse… Mas a última assembleia magna do CDS, de Janeiro de 2019, disse alto e livremente o que queria e Nuno Melo rejeita ostensiva e brutalmente o resultado e o caminho escolhidos. Porque são sem ele (apesar de não contra ele). Porque não quer.

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“O país precisa de um CDS que faça uma oposição capaz (…). O CDS vai-se concentrar nas batalhas que tem, e não são poucas, fora e não dentro, é isso que vou dizer a este congresso”, assegurou na mesma ocasião. Mas Nuno Melo nunca praticou este credo relativamente à nova direcção eleita democraticamente há quase dois anos. Porque quer ter no partido o papel que bem entende na sua interpretação senatorial, queira-o ou não o Congresso livre do CDS.

No final daquela sua oração preliminar, anunciou (como também o fez o ex-todo o poderoso Vice-Presidente do partido, Adolfo Mesquita Nunes) que o CDS podia ser “a afirmação maior do centro direita em Portugal”. E espalharam-se os dois ao comprido. Porque as pessoas normais de direita, que não percebem o que é ter a ambição de liderar o espaço político de centro e da direita em simultâneo (?), parece, por exemplo, que preferem o Chega como a sua primeira e descomplexada escolha de uma direita-direita, sem ser ao centro (o que quer que isso pudesse significar).

Afinal, o maior problema de Nuno Melo e do seu grupo de ex-incumbentes politicamente desempregados é o tempo.Correm todos contra o tempo, na desesperada tentativa de reanimar um ciclo de liderança portista que foi sempre uma coisa e o seu contrário e que não deixou saudades. Que já não tem recurso, já caducou e transitou em julgado. Que estirou o CDS num beco político de difícil saída, donde, apesar de tudo e de muitos, com coragem, com trabalho, com determinação, Francisco Rodrigues dos Santos e a sua direcção têm procurado sair.

Depois de terem passado de bestiais a bestas pelos fazedores de opinião no mesmíssimo segundo em que se lembraram de trilhar no partido outro caminho, mais livre, mais claro e mais previsível, o caminho que bem entenderam. E que, globalmente, tem corrido bem. Livres das sinecuras, bajulações e dependências dos antigos capatazes que tinham o partido preso à grade como um animal de estimação há perto de 20 anos.

Desde aí, nem um minuto de descanso lhes foi dado pelo grupo parlamentar (onde não os deixaram entrar, evidentemente), nem pelos alegados quadros “notáveis” do partido, assim chamados não pela evidente ausência de boas ideias (o que podia ser compreensível), mas pelo tempo que passam na TV a debitar “futeból” e trivialidades. O Covid fez o resto.

Agora, depois de um primeiro estatelanço do moço de forcado João Almeida (no Congresso de há quase 2 anos), depois da picaresca e rastejante voltareta em subsequente Conselho Nacional do segundo moço de forcado, Adolfo Mesquita Nunes, também um Nuno Melo novo (só pode) foi compelido a sair do esconso mais desconchavado da trincheira do “oposicionismo interno” para desafiar a actual liderança do CDS. O mesmo Nuno Melo daquele dia 12 de Março de 2016. O que era vice-presidente do CDS com responsabilidades quando o partido teve os tais 4.44 % nas últimas legislativas (elegendo à corda 5 deputados) e foi eleito à tangente com 6,65% nas últimas eleições europeias (depois dos 2 mandatos de que ninguém se recordava). Um caudilhista do princípio do século XX, que fala sempre disto e daquilo.

Felizmente, o país donde fala e de que fala já não existe. E como ele bem disse, apesar de tudo, é urgente falar ao país daquilo que realmente interessa aos portugueses. Do futuro.

E sobre o futuro, o novo Nuno Melo não lhes interessa nada. Porque é passado.