1 A recente e trágica morte de CK convida-nos a reflectir sobre as múltiplas circunstâncias em que a mesma ocorreu. Grandes analistas de “linguagens totalitárias” que estudaram, por exemplo, a linguagem do Terceiro Reich, alertam-nos que “estamos com uma linguagem 102% pronta para o maior genocídio da história”. De acordo com tais analistas, “nós temos actualmente um vocabulário político, um vocabulário público, temos um vocabulário “pronto” que tem a estrutura perfeita para um novo genocídio”. E tudo, curiosamente, usando e invocando a palavra democracia, tudo em nome e em prol da democracia (esperemos que sejam apenas hipérboles linguísticas).
Também o pensador alemão Rodzenstock nos alerta para “a doença da linguagem como raiz da violência”. Quando esta capacidade humana inata, natural, vital para transmitir informação, para comunicar ideias, pensamentos, sentimentos e visões de mundo se corrompe, toda a sociedade se vai desmoronando e, consequentemente, é o próprio ser humano que se degrada, corrompe, esvazia. A violência, de acordo com o mesmo autor, “começa muito antes do primeiro tiro. Ela começa com a palavra disparada”.
2 Um dos primeiros sintomas deste processo é o da “degeneração” da linguagem, isto é, o recurso sistemático a slogans, clichês, chavões que nos dispensam de pensar. Neste caso, CK deixou de ser um homem, cristão, casado, com dois filhos, que gostava de debater e confrontar ideias em contextos universitários, e foi transformado num mero rótulo. O homem concreto, real, de nome Kirk desapareceu, e agora, a sua dignidade como pessoa humana (mesmo veiculando ideias com as quais, legitimamente, possamos não concordar), transformou-se num mero chavão, numa bandeira, numa etiqueta. Ou seja, desaparece o diálogo, o debate de ideias, o contraditório, os avanços e recuos das posições de partida, e há agora apenas um selo, uma marca, um carimbo! E qual é o problema? Esta foi precisamente a desumanizante metodologia utilizada por todos os regimes e movimentos totalitários da história; o nazismo, o comunismo, o fascismo. Veja-se o processo de desumanização (para a qual a degeneração da linguagem foi determinante) que os nazis fizeram para rotular os judeus, os ciganos, os negros, os escravos, os deficientes para, assim, arranjarem uma espécie de justificação moral para, transformando humanos em “não humanos” (desumanização), os poderem finalmente eliminar. Ou seja, a linguagem deixa de ser a tal capacidade humana universal, vital para transmitir ideias, pensamentos, sentimentos e acaba por se transformar num tribunal intimidatório, acusatório, o qual, a partir do rótulo colado na testa, passa de imediato a sentença de morte (neste caso, literal); em tempos idos, foi a guilhotina; depois as câmaras de gás, e agora as balas.
3 O sintoma seguinte da “doença da linguagem” é o da “crise”. E agora, como já está tudo devidamente etiquetado e rotulado, o diálogo torna-se praticamente impossível (verifique-se o teor dos comentários de grande parte dos “especialistas” e dos “activistas-jornalistas” acerca de temas como este). Ou seja, nesta fase já não interessa a validade intrínseca do argumento; já não interessa o que se diz, nem qual a profundidade com que se diz; já não interessa a maneira mais ou menos fundamentada e esclarecida que caracteriza o que se diz. Não; nesta fase, nada disso já interessa ou é relevante; o que unicamente importa é o silêncio hostil dos chavões, dos slogans, dos clichês: Fascista! Homofóbico! Racista! Ditador! Conservador, Machista! E é aqui que estamos. É então chegada a fase da cegueira ideológica total, da surdez cultural completa, do fanatismo, do “daqui não saio daqui ninguém me tira”. Com a prisão (sem disso muita gente se dar conta) das gaiolas político-ideológicas contemporâneas e dos novos paradigmas culturais, perdeu-se a boa e sã capacidade de ouvir, de dialogar, de escutar, de discernir; as grandes fábricas de rótulos e carimbos estão por isso em grande e multiplicam-se sem cessar. E é então que o outro, o próximo, o simples interlocutor já não existe; ele é agora um mero inimigo, um alvo a abater, a anular, a excluir, a eliminar (e de forma literal). Ou seja, chegámos ao fim da linha; a caneta deixou de ser arma matafórica; e agora é a própria bala que se torna arma real, literal, e letal. Como alguém dizia, “os inquisidores modernos não desejam a nossa morte por sermos fascistas; os inquisidores modernos chamam-nos fascistas para poderem desejar a nossa morte com a consciência mais tranquila”.
4 Quando este processo se degrada ao ponto de nos conduzir à situação actual, caracterizada por uma verdadeira “guerra total da linguagem”, em cujo seio, já não se escuta nada nem ninguém, entramos definitivamente num processo aparentemente irreversível de autodestruição civilizacional. É curiosa a citação trágica de Bertolt Brecht: “Nós sabemos que o senhor é nosso inimigo, mas considerando que nos garante que é boa pessoa, nós então estamos dispostos a oferecer-lhe o seguinte: uma boa parede, onde vamos colocá-lo à frente de uma boa espingarda, com uma boa bala, e depois vamos oferecer-lhe uma boa pá, uma boa sepultura. Com a direita e o conservadorismo, não há qualquer diálogo, só luta”. Estamos verdadeiramente perante o “mistério do mal”, da maldade, do ódio, da destruição. Antes da bala ter morto CK já este estava ferido de morte pela palavra, pelo chavão, pelo carimbo, pelo título. Antes da bala ter morto CK já este havia sido desumanizado, caricaturado e rotulado como fascista, racista, extremista, xenófobo, etc, etc. (era precisamente isto que estava inscrito nas munições do seu assassino). As palavras perdem o seu significado quando, de forma simplista e com ligeireza, se acusa de “fascista” e “extremista”, a alguém que defenda (por exemplo) a liberdade de expressão, ou é contra o aborto e eutanásia, ou acha que o casamento deve ser apenas entre homem e mulher (claro que é legítimo a discordância em relação aos mesmos). Então onde está a tolerância? Com pessoas com quem concordamos não precisamos de ser tolerantes. As palavras também perdem o seu significado quando, por outro lado, se considera “democrata” a quem exalta (ainda que de forma discreta, “ao de leve”, em silêncio…) assassinatos políticos, ou pelo menos, aos mesmos se faça referência com um cínico “condeno, mas ele é que provocou a situação”, que configura mais ou menos algo do tipo; “ela andava de mini saia, agora não se queixe de ter sido violada”.
5 É preciso reflectir sobre o processo de perversão e manipulação da própria linguagem e, portanto, do Pensamento, a que temos vindo a ser sujeitos (e sem disso, porventura, muitos nos apercebermos); ela é um dos principais atributos humanos, sem o qual deixamos de ser humanos. Mortes como a de CK (e outras) são um alerta. Na era soviética, usava-se o termo “inimigo do povo” para justificar eliminações em massa. Milhões foram mortos apenas por terem o carimbo na testa de “inimigo do povo”. Hoje, não há “inimigos do povo” mas há fascistas, negacionistas, terraplanistas, machistas, homofóbicos, xenófobos, etc, etc. E não adianta provar a inocência; está-se condenado à partida. Toda esta “Lavagem cerebral” decorrente da degradação e manipulação da linguagem, apoiando-se as mesmas na utilização massificada dos media, das televisões, das artes, da escola, da universidade, vai construindo artificialmente dualismos e antagonismos pessoais e sociais, com o objectivo de dividir grupos, comunidades, a sociedade em geral… em polos opostos, antagónicos, e em permanente disputa. Veja-se ao que chegámos: temos tendencialmente na sociedade contemporânea a divisão entre “o bom e o mau”, “o opressor e o oprimido”, “o branco e o negro”, “o rico e o pobre”, “ o patrão e o empregado”, “o homossexual e o heterossexual”, “o homem e a mulher”, o “amigo do clima e o inimigo do clima”, etc., etc. Para o inconsciente coletivo das pessoas, num dos lados está o bem, noutro o mal, o certo e o errado, o bom e o mau, criando-se artificialmente um clima de permanente polarização, radicalização e conflito social. Vítimas deste processo aparentemente imparável vamo-nos transformando em seres automatizados, sem identidade própria, sem sentido crítico e capacidade de percepção moral; apenas uma caricatura, um recorte, uma identificação utilitária numa sociedade cada vez mais administrada, fechada, tendencialmente totalitária. Os resultados estão, abundantemente, à vista.