Quando, no início dos anos 80, recebi a minha carta de marinheiro – concedida pelo Capitão do Porto de Portimão – não poderia imaginar que seria a mesma mão a assinar, trinta anos depois, em 2012, a proposta da minha admissão como membro correspondente da Academia de Marinha. Nem que, pelo meio, a mesma mão me entregaria o Prémio Bartolomeu Dias, instituído no âmbito da pós-graduação em Estudos do Mar, ministrada pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Tive o privilégio, ao longo da minha vida, de me cruzar com personalidades verdadeiramente extraordinárias. O Almirante Nuno Vieira Matias foi uma dessas personalidades. Além disso, foi um bom amigo, um Português com letra grande, que amava profundamente o nosso país e o azul do mar. Referia-se a ele próprio, e a alguns que como ele sentiam e pensavam o mar como desígnio e vocação, como sendo um “teimoso do mar”. Sei que aos seus olhos mereci o seu reconhecimento quando me incluía nesse “clube de teimosos”, nesse grupo das pessoas que, como ele, acreditavam que pelo mar, que tanto passado nos deu, passava um oceano de futuro para Portugal. E, apesar de a minha carreira profissional não estar diretamente ligada ao mar, a verdade é que ao longo de tantos anos o mar tem sido uma presença constante e um permanente fator de inspiração.

Tem sido assim ao longo de mais de cinco décadas de existência e de mais de trinta anos de vida profissional. Exercemos, ao mesmo tempo, funções no Conselho Nacional de Educação. Desse tempo, recordo uma frase que me disse vezes sem conta e que guardo e estimo como uma verdade: “Ou se ensina o mar às novas gerações, ou então o mar ficará perdido”. Esta frase foi ganhando um sentido crescente, à medida que os temas do mar foram fazendo caminho no debate e discussão pública, ganhando expressão ao nível institucional e político, designadamente com a criação, em 2003, da Comissão Estratégica dos Oceanos, coordenada por um outro “teimoso do mar”, o Dr. Tiago Pitta e Cunha.

Nos anos seguintes, a ideia de criar de raiz uma escola com um projeto educativo ligado ao mar foi ganhando dinamismo. Foi assim que, no final da década passada, estruturamos o projeto educativo do Colégio Pedro Arrupe. Foram tantas as vezes que conversei com o Almirante Vieira Matias sobre o projeto educativo do Colégio, como o mar deveria ser ensinado e constar do currículo, como poderia o mar ser o mote para inúmeros projetos e atividades, que guardo boas memórias dessas conversas, das muitas dúvidas que me desfez, com genuíno sentido de contribuir para a criação de algo em que acreditava! Fosse a sabedoria do académico, a experiência do marinheiro, a clareza do chefe militar, a paciência do pedagogo, havia uma constante nessas nossas conversas: a luz do azul dos seus olhos, a luz de um azul que brilhava intensamente sempre que falávamos do mar, do seu mar, do mar que o Almirante Nuno Vieira Matias amou e compreendeu como poucos.

Que na hora do seu desaparecimento físico, o país saiba honrar condignamente a sua memória e recorrer ao seu exemplo “para ensinar o mar às novas gerações”.

Membro efetivo da Academia de Marinha