Em 1945, os exércitos aliados completaram o efeito-tenaz tão necessário sobre as tropas nazis. Dezenas de milhares de judeus que se encontravam na linha da frente – soviéticos, americanos, ingleses e muitos outros – abraçaram-se pela primeira vez perante os mortos e os sobreviventes do Holocausto. Os factos revestiram-se de tão grande carga dramática e sentimental que, desde então, Estaline despejou a sua fúria contra a facção mais “cosmopolita” da URSS. Russos, ucranianos, lituanos, letões, bielorrussos, asiáticos e outros foram louvados a Leste pelo seu papel meritório na guerra patriótica. Os judeus foram esquecidos e, dentre eles, os primeiros desafortunados que exibiram as suas condecorações em Kiev e Moscovo, encaixaram uma pergunta aterradora que não mais esqueceram: “Onde compraram essas medalhas?”
Cedo começou a celebrar-se o “Dia da Vitória” sobre os nazis: a 8 de maio nos Estados Unidos e a 9 na União Soviética e em Israel. Milhares de soldados e oficiais do Exército Vermelho mudaram-se para o estado judaico após a sua fundação. Da URSS que os vira partir brotou um sério antagonismo contra o pequeno estado, assim que ficou claro que este não seria um mero feudo socialista, antes um país preocupado com os interesses judaicos. Com mentiras sucessivas, propaganda aberrante, dinheiro a rodos, treino aturado e serviços de inteligência, nasceu a identidade palestiniana separada e supostamente ramificada nos antigos filisteus. Esta foi a primeira grande invenção soviética, que não tinha qualquer correspondência com a realidade, e de repente o recém-nascido “povo palestiniano” já tinha o “direito a reclamar o seu próprio Estado, para se libertar da ocupação israelita”. Também o projeto da carta fundadora da Organização de Libertação da Palestina foi redigido em Moscovo e aprovada por centenas de “Che Guevaras palestinianos” selecionados, um a um, pela polícia política soviética. O mesmo sucedeu com o Exército de Libertação da Palestina, criado nas oficinas do KGB, pois desde o primeiro dia o estado de Israel deu mostras de muita valia no confronto direto com mais de uma dezena de países árabes e muçulmanos hostis.
A “causa palestiniana” preside ainda hoje o debate político, e a muitos se estendeu o rastilho gerido do berço por camaradas de base socialista soviética que em alguns casos lavraram as próprias constituições dos respetivos países, documentos a que chamam orgulhosamente de “leis fundamentais” protegidas de perto por magistrados nomeados direta e indiretamente pelo poder reinante. Ao mesmo tempo, elites feitas à pressão gritam a cada dia contra a discriminação, mas parecem esquecer de todo que o antissemitismo é um sentimento enredado numa percepção negativa relativa ao judeu, ao israelita, à tradição judaica, à religião judaica, à cultura judaica, ao sucesso judaico e ao estado judaico. Negros, trans, gays, ciganos e muçulmanos presidem a hierarquia da opressão, que não poderia ser mais adequada para destruir a viabilidade futura de países que nas próximas décadas terão de enfrentar civilizações milenares articuladas entre si. Os judeus e, sobretudo, os judeus israelitas, desapareceram das categorias ungidas ao direito de proteção. Foram atirados de cabeça para as “classes opressoras”, quando na verdade não se conhece qualquer outro povo massacrado em latitudes tão distintas como Lisboa, York e Odessa. Chama-se-lhes brancos, quando de facto comportam todas as etnias desde o Monte Sinai. Jura-se que são abastados, apesar de só uma ínfima minoria entre aquela grei possuir riqueza real. E afiança-se que são ocupantes de uma terra de onde foram forçados a sair quando Jerusalém, a rainha das capitais, se tornou tributária da força bruta romana.
O anti-israelismo global que se vive está inteiramente ligado à “questão judaica” e embebido na forma como a URSS destruiu as comunidades judaicas de milhões de pessoas apesar de nunca ter proibido oficialmente o judaísmo ou fechado as portas das principais sinagogas, que na realidade serviram exclusivamente para a propaganda de um regime de base axiológica materialista e excessivamente envolvido com os ganhos advindos dos países árabes e muçulmanos. Vejamos o que por ali sucedeu e que luzes dali promanam para se avaliar a atualidade.
Para escapar a acusações de antissemitismo no seio da imprensa política internacional, as acções governamentais soviéticas dirigiam-se exclusivamente para a destruição das personalidades e realidades judaicas mais relevantes, uma de cada vez, nunca duas ao mesmo tempo, por mais fortes que fossem em termos de religião, cultura e trabalho, deixando de pé apenas o que era menos expressivo em termos judaicos e que poderia ser usado em favor do regime. Tudo o que era bom na religião, na cultura, no labor e na audácia judaicas era descrito como um “negócio imoral”, ao passo que tudo o que era inútil ou inconsistente com os valores judaicos era descrito como bom. O aparelho apaparicava sempre um ou dois judeus da capital com ligações ao partido, ou mesmo a funcionários ou para-funcionários do aparelho político reinante, colocando na boca destes indivíduos que não havia antissemitismo e que “dizer o contrário é uma calúnia prejudicial aos próprios judeus”. Havia sempre “um amigo judeu”, como se Adolf Hitler não os tivesse tido também! Há farta bibliografia sobre este tema.
Os soviéticos disseminavam permanentemente que não havia qualquer problema judaico no país e que reluziam as sinagogas vazias de Moscovo, Odessa, Kiev e Leningrado, tudo palavras vãs e sem relação alguma com a vida judaica real. Aqueles prédios estavam mortos em sede de judaísmo e os representantes postos a falar não passavam de espantalhos usados como um meio para legitimar a perseguição de pessoas e coletividades que haviam sido marcadas para a morte. O judeu de que se “gostava” não era o tradicional, o produtivo, o empecilho à revolução cultural que não cessava, mas sim o homem de palha de serviço, o secularizado a um nível máximo, ou o maluco, o doente mental, o condenado. A disponibilidade do sistema era máxima e total para castigar os “maus” judeus de cada cidade, os “Netanyahus” de cada comunidade, enquanto afirmava, como um anjo papudo, que “até um judeu diz que…”.
A obra antissemita soviética foi sempre realizada em três etapas: difamação da estrutura sinagogal e dos seus líderes através da imprensa; mobilização da opinião pública contra a comunidade condenada à vez; e finalmente, assassinatos de carácter através do aparelho legal que não poderia ser mais corrupto e alheio à ideia de justiça, com total achincalhamento da equidade, da independência, da objetividade, da imparcialidade e do tratamento de todos por igual. Invariavelmente, as sinagogas eram invadidas como se fossem bordéis e roubado tudo o que lá se encontrava, o que posteriormente se tentava falsificar em favor do programa soviético.
Ao contrário do que ocorre hoje na Rússia, Ucrânia e Cazaquistão, onde as comunidades judaicas prosperam à sombra da Chabad de Lubavitch, a pátria socialista fazia de cada judeu e de cada comunidade um esqueleto adaptado aos seus interesses. O turista poderia recolher uma fotografia de uma bonita fachada da sinagoga da capital e quiçá até encontraria um funcionário judeu disposto a dizer maravilhas do regime. Todavia, o judaísmo estava morto e sepultado num território imenso de 22 milhões de km2, porque a onda persecutória fora propalada tão alto e por tantas vozes ao mesmo tempo que os templos já eram vistos pelo público como lugares de mercado negro, o que causara neuroses individuais em toda a comunidade judaica soviética que não queria ser vista perto de tão censurados edifícios.
Os maiores vultos da comunidade – invariavelmente vendidos ao público no papel de especuladores, parasitas e trapaceiros – haviam sido tão sucessivamente caluniados e agredidos que tinham perdido a sua capacidade criativa e a sua inspiração para continuar a produzir vida judaica e criar uma geração sólida de continuadores. A imprensa de serviço utilizara contra eles as suspeitas avariadas das autoridades e as denúncias anónimas da ralé da sociedade, ao mesmo tempo que abrira o microfone das estações de rádio a caluniadores profissionais especializados, que adoravam relacionar tudo o que mexesse com ilicitudes. Por outro lado, os escritos anónimos raivosos, produzidos a pedido, haviam sido encaminhados pelo próprio governo para autoridades cujos dirigentes nomeara, promovendo o abate brutal das comunidades mais fortes e das suas pretensas atividades “ilegais”.
Este foi o terrível jogo antissemita na URSS, onde era impossível aos servidores da justiça colocarem a sua consciência acima de tudo, porque a dependência económica e uma farta rede de interesses e punições possíveis os tornara escravos. Os funcionários que se excederam e pretenderam ter voz própria acabaram arredados da carreira ou foram mesmo executados. É absolutamente perversa a forma como os comunistas sempre causticaram o sistema de justiça anterior à revolução bolchevique, porque excepções meritórias existiram e os próprios Czares não conseguiram confrontar diversos magistrados que viveram na sua época.
Sobre estes factos nunca se pronunciou, sem grave adulteração, o “partido”, nem o da URSS, nem o português, cuja bandeira oficial é aliás similar, sendo que este último foi sempre cáustico a desonrar a história lusitana de muitos séculos, aquela em que os judeus participaram, uma história cheia de méritos e triunfos, e desfez totalmente a imagem do aparelho de justiça do passado, sobretudo o da monarquia “despótica”. Com a devida licença, sobre tudo isto podem os judeus pronunciar-se, porque há mais de um milénio viviam nos territórios que um dia tomaram os nomes de Portugal e da URSS. Julgadores livres, existiram sempre. Podiam fazer parte do aparelho, mas não eram escravos como na pátria do socialismo. O que ocorreu no Porto em 1618 é um exemplo significativo. Todas as forças que politizavam a sociedade queriam a comunidade cristã-nova na fogueira, mas dois homens sozinhos – o presidente do Tribunal da Relação e o Corregedor da cidade – travaram os ímpetos da Inquisição e ordenaram mesmo o cerco do Tribunal Eclesiástico com guardas a cavalo, de nada valendo os protestos do Inquisidor, que se deslocou a Madrid para pedir o auxílio a Dom Filipe, porque este não ousou afrontar a força do bem, da coragem, da independência e o sentido de justiça de duas simples almas, que a história guardará para sempre como muito grandes.
São irmãos gémeos os modernos anti-judaísmo e anti-israelismo. O ventre donde despertaram para a vida foi o soviético, que logo negou ao judeu e ao israelita, individual ou coletivo, o mais pequeno mérito e a força das suas razões. Ainda hoje as sociedades políticas de inspiração soviética não dão qualquer valor ao israelita-vencedor e ao judeu tradicional, de sinagoga, de cultura, de ciência, de negócios, e por aí adiante. É silenciado e, quando impossível de silenciar, falsificado tudo o que produzem. O foco cai sobre o seu alegado padrão de vida. É abanada a bandeira do privilégio e da “injustiça” em relação aos outros. Quais outros? Todos.
Não está em causa o facto de cada estado nacional poder escolher elites e filosofias através das suas lutas internas em regra povoadas de facadas nas costas e não de amor pelos povos. Porém, com uma luz tão avermelhada, Israel não faz sentido e os judeus também não. Não existe outro exemplo na história de um povo que voltasse para casa ao fim de dois milénios, muito menos quando tal há muito havia sido previsto pelos seus profetas. Naquela areia onde há poucas décadas deambulavam pobres montados em camelos, ergue-se agora uma potência científica que bebe do mar, prospera na agricultura e exporta alimentos, medicina, segurança e tecnologia.
Cercado por inimigos desde a sua fundação, pisado por ruidosas maiorias nos palcos das organizações políticas supranacionais, alvo permanente de deslegitimação, desumanização e de aplicação de padrões duplos, condenado por celebridades e boicotado de todas as formas, esta nação tão pequena e sem recursos naturais continua o seu caminho sem temer nada ou alguém. Muitos impérios já desapareceram aos seus olhos, Assírios, Babilónios, Persas, Romanos e todos os que a história regista até aos Nazis e aos Soviéticos.
Algo não faz sentido de acordo com as filosofias materialistas. Talvez haja um povo com uma existência de sentido. Influência, colonatos e belicismo não podem explicar tudo. Israel e o judeu individual e coletivo já deviam ter desaparecido se apenas contasse a matéria. E não. O judeu existe, vive, sofre, morre e ressuscita amparado na tradição e trazendo os seus mortos de volta à vida – em memória, em identidade, em força, em prosperidade e em coragem. O mesmo sucede com o judeu das nações, o estado de Israel. Se a lógica corrente imperasse, Israel não deveria ser tão forte, nem fazer explodir no ar os mísseis inimigos, nem monitorizar em tempo real a segurança da diáspora judaica, nem documentar os ardis mais inacreditáveis, nem buscar nazistas a milhares de quilómetros para os julgar. Faz tudo isto e ainda estuda produzir legislação de aplicação extraterritorial para combater o antissemitismo global que se pratica livremente, e amiúde da forma mais descarada pelas próprias elites – ao estilo “Mata, mata!” –, o que tanto desonrou pessoas, países e civilizações do passado.
A causa principal da questão judaica e israelita foi sempre de índole espiritual. A própria simbologia do estado de Israel revela o escudo da realeza de David e o candelabro que outrora se ergueu no Templo de Jerusalém. O materialista pode pensar bem e escrever melhor, mas as suas bases estão todas erradas. Sonha com os pedregulhos do espaço e não lhes atribui qualquer lógica ou significado. Nega a racionalidade que cerca o Universo, o seu sentido, o seu destino. No conjunto tudo reduz a débeis suposições sobre energia, história, ego, poder e justiça. É esta a intelectualidade rastejante em que se vive. É esta a bússola moral que tenta definir a realidade ao seu jeito. É esta a massa amorfa que medita sobre o interesse nacional em múltiplos países. Em nenhum momento a divindade deixa de ser um mito e o sucesso judaico escapa à desconsideração.
A seiva cabalística do alfabeto hebraico deixa marcas em brasa em todas as civilizações. Emet (a palavra verdade) sustenta-se de pé, dado que é escrita com letras hebraicas de duas pernas e basta existir para o ser; Sheker (a palavra mentira) desequilibra-se durante o caminho, pois compõem-se de letras com uma perna e exige equilíbrio e manutenção constantes, insistência obsessiva, teatralidade e desdobramentos na emoção do ódio; e Matará (a palavra intenção) revela como e a quem vai ser servido o fruto último.
Quando reuniram pela primeira vez os cientistas nucleares norte-americanos e soviéticos, causou incómodo a eventual relação de parentesco entre os chefes das delegações, ambos judeus de apelido Winkler. E como alguém outrora afirmou na ONU, “Estávamos aqui antes de vocês, estaremos aqui depois de vocês”.