Pedro Nuno Santos acabou demitindo-se no seguimento de mais um escândalo relacionado com um dos maiores erros de sempre criado pelo seu próprio governo, para desventura de todos os portugueses, e do qual foi ele mesmo o principal protagonista desde o início.
O ministro das Infraestruturas e da Habitação tinha sob sua tutela assuntos fundamentais e fulcrais para o país, como a TAP e os aeroportos, os comboios da CP, a Infraestruturas de Portugal e também a habitação. Mas basta a TAP para falarmos de um dos piores desempenhos de qualquer ministro em Portugal.
É caso para mencionar Esopo, escritor da Grécia Antiga e autor da frase “Quem trama desventuras para os outros estende armadilhas a si mesmo”.
Em 2015, quando após as eleições ganhas pela coligação PSD/CDS, António Costa cria a geringonça e forma governo, recebeu a TAP com um contrato de venda de 61% do seu capital a passar para gestão privada, decisão do governo de Pedro Passos Coelho que o PS sempre muito criticou, sob o pretexto de a TAP ser uma companhia de bandeira de grande interesse estratégico para o país.
Assim que pôde, a geringonça iniciou a sua reversão, nacionalizando 50% da empresa, mas ficando sem mandar na mesma, perdendo direitos económicos e assumindo maiores responsabilidades financeiras e mais riscos que os acionistas privados, ficando como único responsável em caso de incumprimento da dívida pela empresa.
Com o decorrer do tempo ficou demonstrado o grande erro desta reversão. A TAP foi-se revelando um cancro para o país. Para além da imagem de falta de estratégia e desorganização que deixa transparecer, da insuficiência de aviões, dos atrasos constantes e dos maus serviços prestados aos seus clientes, tem sido apenas um sorvedouro de dinheiro dos nossos impostos, atraindo casos atrás de casos.
Durante o ano de 2019 sabe-se que a companhia aérea pagou a administradores e gestores um total de 1,17 milhões de euros, apesar de ter registado um prejuízo de 118 milhões de euros em 2018.
Em 2020, já com a pandemia e com a TAP a sofrer fortes prejuízos devido à paralisação do tráfego aéreo e o acionista privado indisponível para capitalizar a empresa, o governo decide resgatar a companhia e passa a deter 72,5% da mesma.
O Estado compromete-se a injetar na empresa 1,2 milhões de euros, mas a Comissão Europeia exige que, ou a TAP reembolsa o empréstimo, ou terá de ser apresentado um plano de reestruturação a fim de cortar custos e assegurar a viabilidade futura da empresa. Esta reestruturação avançou, passando obviamente pela redução do número de trabalhadores, desativação de rotas não rentáveis e redução do número de aviões, o que significou perda de empregos e redução salarial para muitos dos trabalhadores da TAP.
Por esta altura, Pedro Nuno Santos dizia que “seria um desastre o país perder a TAP, não se podendo ficar agarrados aos resultados!”
No entanto o drama continuou, com uma administração da TAP estrangeira escolhida pelo ministro português a criar polémica atrás de polémica desde a tomada de posse em 2021.
Para além da contestação dos trabalhadores sobre o plano de reestruturação e de um programa de resgate que já se sabia que atingiria 3,2 mil milhões de euros dos contribuintes, a empresa continua os seus gastos avultados, desta feita com a compra de uma frota de automóveis topo de gama e a contratação de uma amiga da presidente para um cargo de direção.
Em Dezembro de 2021 sabemos que o Estado vai ficar com 100% do capital da empresa que regressa à propriedade exclusiva do Estado, seis anos depois da privatização. Depois do aumento de capital de 462 milhões realizado em Maio do mesmo ano, o Estado injeta mais 536 milhões, e transfere os 1200 milhões do empréstimo de emergência inicial para capital da empresa.
E vai continuando com a sua gestão danosa, somando prejuízos (no 1º semestre de 2022 fecha com mais 202 milhões de prejuízos registados e cancela 156 voos em Agosto do mesmo ano).
Até à falta de segurança informática a empresa não escapou. Em Setembro de 2022 sofre um ataque informático que expõe dados de 1,5 milhões de clientes que incluem nomes, informações de contacto, informações demográficas e número de passageiro frequente.
Apesar de ter diminuído o número de passageiros, funcionários, aviões e receitas, a TAP aumentou até dezembro de 2022 mais de 50% o número de diretores (de 39 para 59) desde que voltou a ser nacionalizada.
Entretanto, ficamos a saber que o governo quer voltar a privatizar a TAP! A tal companhia nacional de bandeira, estratégica e fundamental para os interesses do país, nas palavras do primeiro-ministro António Costa e do ministro Pedro Nuno Santos. O último diz agora que “a integração da TAP num grande grupo de aviação pode ser mesmo a única maneira de assegurar a viabilidade de uma empresa estratégica para o País”.
Tal como disse na altura o líder do PSD Luís Montenegro, ouvir isto “É de ir às lágrimas”.
E só falo neste artigo sobre uma das tutelas deste ministro, a TAP. Muito mais polémicas existiram só com este ministro e as suas outras tutelas que dariam para escrever mais umas quantas páginas.
Tudo isto era mais que suficiente para que Pedro Nuno Santos já não fosse ministro há muito tempo.
Demitiu-se agora, e já vai tarde, derrubado por um dos maiores escândalos visto em qualquer país democrático: Alexandra Reis, atual Secretária de Estado do Tesouro, deixou a administração da TAP há cerca de 10 meses, com uma indemnização de 500.000 euros, não se percebendo ainda se foi demitida, se se demitiu ou se chegou a acordo com a transportadora aérea. Muita coisa haverá ainda a explicar sobre tudo isto pelo primeiro-ministro da atual maioria socialista. Para já sabemos que Pedro Nuno sabia desta compensação financeira.
Voltando a citar o atual líder do PSD, “A reversão da privatização da empresa foi um crime político e económico.”
É realmente um caso de polícia a fazer lembrar uma frase do escritor norte americano de romances policiais Raymond Chandler: “Não há armadilha mais mortal do que aquela que fazemos para nós próprios”.