Classes de voto existem nas eleições legislativas ou são uma miragem? Ainda  fará sentido, em pleno século XXI, que o valor do voto de um cidadão seja determinado  pelo seu código postal?

Antes de mergulharmos nesta sátira involuntária, importa desembrulhar alguns  conceitos. A proporcionalidade é, na teoria, um princípio simples: um partido que  obtenha 20% dos votos deveria ter aproximadamente 20% dos lugares no parlamento.  É a promessa de que cada voto terá o mesmo peso na construção do poder legislativo.  Cada mandato deveria assim traduzir uma parcela equitativa de representatividade  popular. Mas eis que surge o paradoxo: a tão propalada estabilidade política revela-se,  frequentemente, inimiga direta desta mesma proporcionalidade. Quantos mais fiéis  formos ao espelho da vontade popular, mais complexa se torna a arte de governar.

E é aqui que a farsa geográfica se desenha. Tomemos dois portugueses: um  votante em Bragança (2 mandatos), outro em Lisboa (48 mandatos). Em Bragança, para  eleger um deputado, um partido precisa de obter cerca de 33% dos votos. Já em  Lisboa, basta-lhe cerca de 2% para alcançar o mesmo feito. Esta discrepância nos  limiares de representação condena à irrelevância eleitoral, à partida, qualquer projeto  político que não esteja concentrado nos grandes centros urbanos. Isto é  proporcionalidade? Ou será antes uma engenharia eleitoral que consagra cidadãos de  primeira e de segunda?

O exemplo britânico revela-se ainda mais cruento. Através do sistema First-Past the-Post, o Reino Unido divide o território em círculos uninominais, onde apenas um  candidato é eleito por cada um. Vence quem obtiver mais votos, ainda que seja apenas  um. Os restantes votos, por vezes a maioria, são simplesmente descartados. Que  liberdade de escolha pode existir quando o sistema te força a calcular, não a tua  convicção, mas a utilidade tática do teu voto?

Curiosamente, temos entre nós o exemplo máximo desta proporcionalidade  pura: as eleições para Presidente da República. No sufrágio para a mais alta  magistratura da nação, cada voto pesa exactamente o mesmo, independentemente do  local de residência do eleitor. Não há distritos que valham, nem códigos postais que  hierarquizem cidadãos.

Mas nem tudo está perdido. A Alemanha e a Nova Zelândia oferecem  alternativas que merecem reflexão. Através de sistemas mistos, combinam a eleição de  deputados por círculos uninominais com uma compensação proporcional a nível  nacional. Cada eleitor tem dois votos: um para escolher o seu representante local, outro para determinar a composição final do parlamento. Deste modo, assegura-se  que a distribuição final de lugares reflete fielmente a vontade expressa pelo conjunto  do eleitorado. Será que a solução passa por importar modelos?

Não se trata de deitar abaixo o sistema. A distribuição de mandatos por distrito  pode fazer sentido, mas precisa urgentemente de ser reconfigurada. E se, entretanto,  actualizássemos os círculos eleitorais para as atuais NUTS II? Seria um passo para uma  representatividade mais justa, num país que mudou profundamente desde que os  distritos foram desenhados.

Mas talvez a mudança mais urgente seja a mais simples. E se, no boletim de  voto, substituíssemos o nome do partido pelo rosto e nome do candidato que  encabeça a lista nessa zona? Talvez assim, finalmente, os portugueses soubessem  quem estão verdadeiramente a eleger. Talvez assim as campanhas fossem mais sobre  pessoas e menos sobre siglas. Talvez assim recuperássemos um pedaço da liberdade  que, sem darmos por isso, fomos deixando pelo caminho, condicionados pelo acaso  geográfico do nosso bilhete de identidade.