A temporada da F1 política portuguesa está aberta, mas a corrida para Belém assemelha-se mais a um Grande Prémio sob chuva intensa: a pista está escorregadia e, com um exagero de candidatos, a verdadeira disputa será apenas pela qualificação. A corrida decisiva, a da segunda volta, ainda não tem pilotos garantidos. Este cenário reflecte uma realidade mais profunda: quatro décadas após o início da democracia, Portugal já não consegue identificar uma figura natural de consenso nacional, um piloto-chefe capaz de unificar o país sob a mesma bandeira.

Analisemos a grelha de partida, onde a luta é por um lugar no top-2. Não há, desta vez, nenhum competidor com um campo eleitoral blindado. Cada um carrega uma fragilidade que o adversário pode explorar. Luís Marques Mendes surge como a sombra, uma réplica calculada do Professor Marcelo, tentando herdar o seu eleitorado sem possuir o carisma descomplexado do antecessor. A grande questão é se conseguirá deixar de ser visto como o “candidato do sistema”. José Seguro é visto como um projeto fraco, ao qual nem o próprio PS confia totalmente, e que falha em atrair o eleitorado de esquerda de forma clara e entusiasta. Henrique Gouveia e Melo, embora independente e com um histórico irrepreensível, arrecada pouca bagagem de reconhecimento público, uma debilidade que os debates têm exposto de forma crua. André Ventura é, paradoxalmente, um candidato limitado: segundo as sondagens, não consegue mobilizar todo o vasto eleitorado do Chega, levantando questões sobre a verdadeira natureza de um movimento que se quer feito à medida de um único homem. João Cotrim Figueiredo é, por fim, o homem de grande ambição, mas cuja mensagem liberal não encontra eco suficiente num eleitorado maioritariamente avesso a radicalismos económicos.

A esquerda vive um drama particular. É um campo que já não coloca um Presidente na República desde Mário Soares, em 1986. É uma esfera política que, estando “pobre” de apoios alargados, não se pode dar ao luxo de snobar o que tem no prato. A sua força está dividida entre Seguro, Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto, uma fragmentação com consequências diretas: nenhum deles se qualifica, hoje, para a segunda volta. O cálculo é simples: se houvesse um único candidato a congregar este espectro, o jogo seria completamente diferente. A insistência na concorrência interna é um erro estratégico gritante.

Uma nota lateral reveladora: a proposta de Marques Mendes de colocar um jovem no conselho do Presidente, para grande aplauso fácil. É a falácia da falsa representatividade. Num universo hipotético em que a maioria dos jovens defende a ideia A, de que vale ter no conselho uma pessoa da sua idade que, no entanto, advoga veementemente a ideia B? A lógica do “quem parece” sobrepõe-se perigosamente à do “quem pensa”. Nestas situações, seria preferível uma pessoa madura e experiente que, partilhando da mesma visão (A), a pudesse defender com conhecimento e eficácia, em vez de um mero símbolo geracional OCO.

Este cenário alimenta ainda o pior dos mundos: uma campanha de constante neutralidade. A maioria dos candidatos busca refúgio num estatuto de independência tão absoluta que beira o ridículo, abstendo-se de tomar posições claras. Pior ainda: tentam, num acto de amnésia conveniente, divorciar-se do seu próprio histórico como líderes partidários. Foram, e bem que foram, figuras decisivas da vida política. Agora, pretendem que ignoremos essa bagagem, mas sem que se perca tempo nos debates a falar sobre ela. O resultado são confrontos estéreis, onde não se discutem verdadeiramente as ações concretas que cada um tomaria como Presidente, com questões que, muitas vezes, parecem direcionadas a legislativas. O que fariam, por exemplo, perante uma greve geral? Como interviriam na crise crónica do SNS ou no drama da habitação? As perguntas ficam no ar, as respostas na nebulosa.

As expectativas para as próximas semanas são, portanto, as de uma qualificação renhida. Veremos se Marques Mendes é capaz de se libertar da imagem de candidato do sistema e conquistar a sua própria pole position. Se Ventura conseguirá ser mais do que um fantasma do seu próprio movimento. Se Gouveia e Melo ganhará, finalmente, um debate. Se as sondagens traduzirão a verdadeira queda livre de Seguro. E se Cotrim Figueiredo será capaz de romper o cerco ideológico e apresentar-se como uma alternativa credível.

Nesta qualificação sob chuva, num asfalto onde todos patinam, a meta não é vencer, mas simplesmente garantir o lugar na corrida decisiva. A vitória final, em segunda volta, poderá não sorrir ao mais rápido, mas sim ao que conseguir convencer um país, mesmo sem um campeão claro, a acelerar com ele.