É inegável a deterioração progressiva na qualidade e eficiência dos serviços essenciais  que a administração pública portuguesa providencia, nomeadamente na Educação,  Saúde e Justiça. Longe de ser uma crise passageira, esta situação configura um défice  crónico de gestão do Estado, persistentemente enfrentado com remendos ineficazes.

A Teoria do Mercado dos Limões de George Akerlof, prémio Nobel de Economia, oferece  uma chave explicativa para este fenómeno. O economista demonstra como a assimetria  de informação, ou seja, a incapacidade de distinguir a qualidade antes da compra, gera  uma seleção adversa que desencadeia um efeito de bola de neve. No mercado de  usados, por exemplo, os vendedores de carros em bom estado retiram-se perante a  desconfiança generalizada, recusando vender ao preço médio, ditado pelos veículos de  má qualidade. O resultado é um declínio inevitável na qualidade global dos produtos  transacionados.

Este princípio aplica-se com rigor ao universo da função pública. Num contexto de  remunerações achatadas e sem diferenciação, a administração pública atrai  predominantemente candidatos que valorizam a segurança do emprego acima do  reconhecimento do mérito. Os mais talentosos ou ambiciosos são filtrados para fora do  sistema. Posteriormente, a rígida estrutura salarial e a ausência de prémios de  desempenho conduzem a um ambiente de produtividade fraca, onde até os profissionais  provenientes do setor privado são absorvidos por esta cultura de baixa exigência.

Os números ilustram a dimensão do desafio. O Hospital de São João, no Porto, sustenta  um efetivo de aproximadamente 5.300 colaboradores. Para contextualizar: este número  é superior ao total de trabalhadores de grupos privados como o Hospital da Luz ou a  CUF, que, com mais de uma dezena de unidades cada um em Portugal, gerem redes  nacionais com efetivos na mesma ordem de grandeza. A complexidade de um hospital  central e a sua missão pública justificam uma estrutura robusta, mas a mera escala não  pode servir de justificação única para uma discrepância desta magnitude, sobretudo  quando os ganhos em eficiência e celeridade não são proporcionais.

Esta ineficiência macroestrutural reproduz-se em microescalas, mascarada por soluções  aparentemente pragmáticas. A epidemia de contratos de prestação de serviços  externalizados na administração pública, como os de limpeza hospitalar, que se tornam  permanentes na prática, é um sintoma do mesmo mal. Em muitos casos, o Estado  poderia mesmo internalizar estes serviços, saindo mais barato do que a atual  dependência de contratos externos de má qualidade. Ao recorrer ao mercado com base  no critério único do menor preço, o Estado replica o mecanismo do mercado dos limões.  As empresas que investem em qualidade são inevitavelmente excluídas da concorrência.

O resultado são contratos que se renovam perpetuamente, com serviços de má  qualidade que acabam por custar mais ao Estado em supervisão, rescisões e no custo  humano da degradação das condições de higiene e segurança.

Para inverter esta trajetória, é necessário considerar a introdução de políticas salariais  seletivas e competitivas na administração pública. Importa reconhecer que este talento  existe em Portugal, pois temos jovens competentes e qualificados, mas sem estas  medidas essas pessoas serão inevitavelmente empurradas para fora do país por não se  sentirem valorizadas no setor público. Atrair e reter os melhores profissionais,  remunerando o mérito e a performance, não é uma despesa, mas um investimento. Um  núcleo de funcionários mais qualificados, motivados e eficientes tem a capacidade de  realizar o trabalho de vários colegas menos produtivos, gerando ganhos de eficiência que  compensam o custo salarial adicional.

Entretanto, o Estado implementou um sistema de pontos em alguns organismos. Trata se de um instrumento de avaliação de desempenho que classifica os funcionários com  base em diversos parâmetros, como assiduidade, produtividade e metas atingidas. Os  profissionais com melhor classificação tornam-se prioritários para progressões na  carreira ou para aceder a determinados benefícios. Contudo, embora constitua um  primeiro passo positivo, este modelo revela-se ainda demasiado enviesado e acaba por  não produzir os efeitos desejados, dado que, na prática, as progressões salariais  continuam maioritariamente vinculadas à antiguidade e nem tanto ao mérito.