Os últimos 50 anos estão cheios de eleições que deixaram tudo na mesma. Não há nenhum mal nisso, pelo contrário: aquilo que distingue e recomenda uma democracia é a previsibilidade, a normalidade e a tranquilidade. Se estivéssemos a decidir o futuro do regime de cada vez que fôssemos votar, viveríamos permanentemente em ebulição e em revolução. Em certo sentido, é um bom sinal quando o voto se transforma num bocejo.
Mas, nas próximas presidenciais, não vai haver bocejo nenhum. São eleições que vão mudar tudo, ganhe quem ganhar. Neste momento, com a direita e a esquerda a meio de um imprevisível processo de reconfiguração, o Palácio de Belém é novamente o local onde será possível acelerar ou travar as mudanças. É talvez por isso que há tanta gente a atropelar-se para avançar com candidaturas — todos já perceberam que estas eleições não vão ser uma irrelevância.
Se Gouveia e Melo vencer as presidenciais, transformar-se-á num centro de poder externo aos partidos que provocará cisões no PSD, no PS e no Chega. Esse movimento de desagregação e de atração já aconteceu no passado com o general Ramalho Eanes e aconteceria agora de novo com o almirante. Aliás, ele ainda nem foi eleito e já começou. Quando aceitou ser mandatário nacional de Gouveia e Melo, Rui Rio fez um longo discurso a enumerar, com minúcia e zelo, as suas prioridades políticas, nomeadamente a reforma da justiça. É inevitável: aquilo que Rio não conseguiu fazer através do PSD, tentará fazer através do Palácio de Belém. Com ele virão outros antigos dirigentes social-democratas que se julguem num beco político e entendam que estão a ser ignorados, desvalorizados ou renegados. E depois seguir-se-ão dirigentes socialistas, especialmente se o PS se mantiver na triste condição de terceiro partido do Parlamento. E a seguir dirigentes do Chega que se fartem de ter as suas ambições submetidas aos interesses sufocantes de André Ventura.
Se o próximo Presidente da República for António José Seguro, a mudança radical acontecerá essencialmente no PS. O partido, como se sabe, é dominado pela mesma elite dirigente desde pelo menos 2004. Tirando o breve e turbulento momento em que Seguro foi secretário-geral — entre 2011 e 2014 — têm sido as mesmas pessoas a mandar no partido, sucedendo-se a si próprias nas cadeiras e nos cargos. Olhem para Augusto Santos Silva: com José Sócrates, foi ministro dos Assuntos Parlamentares e ministro da Defesa; com António Costa, foi ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente da Assembleia da República. Feitas todas as contas, Santos Silva foi o governante português que mais tempo esteve em funções em democracia. Sem surpresa, tem sido ele o socialista mais empenhado em arranjar uma alternativa de esquerda que possa desesperadamente impedir que António José Seguro se aproxime do Palácio de Belém. Ele sabe: se isso acontecesse, aqueles que têm controlado o PS seriam forçados a calçar as pantufas e recolher a casa.
Já uma vitória presidencial de Luís Marques Mendes não iria acelerar mudanças — iria travá-las. A primeira pessoa a perceber isso, como não podia deixar de ser, foi André Ventura. Até agora, o líder do Chega só destacou um candidato no qual afirma que não votará nunca, jamais, em tempo algum, nem debaixo da mais lancinante tortura: Marques Mendes. Ele representa a “velha direita”, o “velho PSD”, os “laranjinhas”, os “cavaquistas”, os “marcelistas”. Representa a secular tradição partidária e o cauteloso reformismo do regime. Representa tudo aquilo que a “nova direita” pretende obliterar. Se o país escolhesse Marques Mendes, André Ventura seria forçado a reconhecer que os eleitores, e a direita, o estavam a rejeitar a ele.
Não acontece muitas vezes, mas desta vez vai ser assim: os portugueses vão deitar-se no dia 25 de janeiro com um país e vão acordar no dia 26 com outro.