Nove em cada dez adultos portugueses têm pelo menos um fator de risco cardiovascular. Esta é uma das conclusões de um estudo realizado em 2024 que se baseou na autorreferenciação de indivíduos sem doença cardiovascular conhecida, utilizando uma ferramenta digital. Os resultados estão em linha com os principais indicadores de doenças cardiovasculares em Portugal e suportam os números que demonstram claramente que estas continuam a ser a principal causa de morte em Portugal. A elevada prevalência destas condições de saúde na população portuguesa antevê o peso que estes eventos vão ter na saúde pública, bem como os consequentes encargos associados ao tratamento e à gestão das comorbilidades [doenças adicionais a outra já pré-existente] nos doentes.
Neste contexto não poderia ser mais português dizer que “Prevenir é mesmo o melhor remédio”. Os principais fatores de risco das doenças cardiovasculares estão no grupo de doenças evitáveis e possíveis de serem prevenidas, de acordo com os hábitos e estilos de vida. O seu controlo precoce e contínuo é decisivo para reduzir a mortalidade e a incapacidade por estas doenças. E neste tema, todos temos uma palavra a dizer, todos os profissionais de saúde têm uma responsabilidade acrescida e toda a população poderá certamente, em pequenos gestos, contribuir para a redução dos fatores de risco.
A literacia em saúde surge neste contexto como uma bandeira irrevogável na preparação das gerações futuras e na consolidação de conhecimentos de toda a população. Rastreios, sessões de esclarecimento, workshops e eventos ligados à promoção da atividade física são todos bem-vindos no combate à prevalência dos fatores de risco. A prevenção é uma responsabilidade de todos. Planos de saúde local bem estruturados e focados na prevenção são fundamentais, mas a colaboração com entidades privadas pode e deve ser uma solução cada vez mais promissora.
É inequívoca a proximidade das farmácias à população. São locais de saúde de porta aberta, sem marcação e onde todos podem entrar. Nas farmácias resolvem-se problemas simples e orientam-se os mais complexos, em articulação com outros profissionais de saúde. O farmacêutico e os restantes profissionais da farmácia são, muitas vezes, a primeira cara dos cuidados de saúde e são procurados pela população que neles confia e reconhece o seu profissionalismo e proximidade. As farmácias são já um aliado na medição e quantificação dos riscos para as doenças cardiovasculares. A maioria das farmácias realiza medições de pressão arterial, medição de colesterol, perfil lipídico [exame de sangue que mede os níveis de gordura, como o colesterol e os triglicéridos], serviço de nutrição e aconselhamento de cessação tabágica, pelo que o aproveitamento da rede de farmácias na prevenção destes fatores de risco, parece-me óbvio num contexto de saúde preventiva.
Remunerar pela prevenção torna-se cada vez mais um desafio já concretizado nas farmácias portuguesas nas campanhas de vacinação. Por que não continuar a estimular o poder político para incluir as farmácias na prevenção de um conjunto de doenças que em Portugal tem tanto impacto? Temos já alguns exemplos de seguradoras que comparticipam nas farmácias portuguesas rastreios de saúde que incluem alguns dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares. Embora ainda sejam uma minoria, são já um sinal de que o setor privado também aponta no caminho da prevenção.
Mas, se dentro da farmácia os farmacêuticos podem fazer parte da solução e integrar a medicina preventiva na sua prática diária em articulação com o Sistema Nacional de Saúde, é fora de portas que conseguimos impactar uma grande parte da população. Fazer a diferença na saúde de quem pode estar doente e não sabe ou dotar a população em geral de maior conhecimento são a base da prevenção. Promover a literacia em saúde em projetos de intervenção na comunidade é uma estratégia vencedora comprovada, quando um estudo publicado em 2017 conclui que cada euro investido em prevenção pode gerar uma poupança de 14€ em tratamento.
Na farmácia Oeiras Figueirinha acreditamos que a prestação de um serviço de excelência vai muito mais além do apoio na doença. Centra-se sobretudo na prevenção da mesma. As formações nas escolas, nos centros de dia e associações de doentes levaram os nossos projetos a mais de 16 mil pessoas nos últimos dez anos. Participar em projetos que levam medições de pressão arterial e colesterol à rua e a eventos organizados pelas mais variadas entidades do concelho, organizar rastreios nutricionais e caminhadas, faz parte do nosso trabalho diário.
Ir ao encontro da população é cuidar de quem nos visita, mas sobretudo de quem não sabe que precisa de nos visitar. É sinalizar possíveis complicações, reencaminhar a outros profissionais, alertar para os perigos de alguns hábitos, é esclarecer as dúvidas e é sobretudo caminhar juntos na direção da prevenção e na melhoria de saúde da população em geral. Cuidar do doente sem ter o foco na prevenção é cair na rotina do dia a dia e não acrescentar valor aos atos farmacêuticos. Se a farmácia tiver as pessoas no centro da sua atividade, o caminho da prevenção surge naturalmente como uma forma de estar no ecossistema da saúde.
E no fim do dia, não são só os doentes que agradecem estas ações. Se a saúde pública e a prevenção das doenças for, também, o centro da nossa prática diária, todos vamos beneficiar.
Ana Valério é farmacêutica e diretora técnica da Farmácia Oeiras Figueirinha há 11 anos, onde lidera uma equipa de 20 profissionais. Atualmente tem também funções de negociação com a indústria farmacêutica para um grupo de oito farmácias. Para este grupo é também responsável pelo projeto de transformação digital focado na jornada do doente. É uma das cronistas convidadas do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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