O Outono é tido como a estação da nostalgia: evoca mais crepúsculos do que auroras, a luz vermelha do poente prevalece sobre o azul das alvoradas; é o tempo da evanescência dos dias, da aproximação das chuvas, dos cinzentos e castanhos, do frio que se insinua. Apesar da vivacidade campestre evocada por Vivaldi, é sobretudo a dolência da canção “Autumn Leaves” – que convoca doces memórias, embora apenas memórias – que se impõe como soundtrack, caso imaginássemos um filme sobre o Outono. Esta estação, que antecede os rigores do Inverno, é também metáfora do envelhecimento, tantas vezes interpretada como sinal de finitude ou decadência. O título da versão francesa original, “Les feuilles mortes” , acentua justamente essa tonalidade invernal.

Albert Camus, citado por José Tolentino de Mendonça no belíssimo texto “Fazer mais com menos” (em “Para os Caminhantes tudo é Caminho”), escreveu que “O Outono é uma segunda primavera, onde cada folha é uma flor”, sugerindo que a queda das folhas não marca um fim, mas anuncia uma renovação tecida de desapego e liberdade. Desenvolvendo essa ideia, Tolentino afirma: “No Outono, assistimos à exposição fulgurante que a natureza faz das suas metamorfoses, expressando nessa dança de cambiantes o seu indómito desejo de existir, e mostrando que este se realiza na aceitação do modo sempre diverso com que a vitalidade se declina.” E acrescenta: “Para sermos os mesmos, para aprofundarmos aquilo que somos, temos de mudar muitas vezes.” Nesta perspetiva, a velhice não deve ser encarada como o início do fim, mas como um período de oportunidade. Em “O Grande Gatsby”, F. Scott Fitzgerald, pela voz de Jordan Baker, responde a uma pergunta angustiada sobre o futuro com a seguinte expressão: “A vida começa de novo quando esfria no Outono.”

Os avanços da medicina, a melhoria das condições de salubridade pública e um conjunto diverso de fatores sociais e ambientais têm permitido prolongar de forma consistente a esperança de vida. Aos 65 anos, em Portugal, a expectativa média de vida é ainda de 20,19 anos (INE). Porém, tal número não significa que as pessoas estejam mais jovens aos sessenta e cinco anos, nem que sejam atualmente mais aptas para o trabalho do que eram as gerações anteriores. Apesar disso, as exigências de sustentabilidade económica têm vindo a empurrar progressivamente a idade da reforma. Assim, um “idoso” – termo convencionalmente atribuído a quem ultrapassou os 65 anos – beneficia de descontos nos transportes e nos museus, pensados para dignificar o tempo de descanso, embora, paradoxalmente, a reforma lhe seja adiada durante mais alguns anos de vida ativa.

A velhice deveria ser um tempo de consolidação do vivido, de serenidade, reflexão e aprofundamento interior. Contudo, este ideal confronta-se com diversas ameaças. A primeira é a doença, resultante do acúmulo de condições pré-existentes, do surgimento de múltiplas patologias associadas à degenerescência natural dos órgãos e funções, ou ainda da maior probabilidade de cancro. Acrescem outras ameaças que, não sendo exclusivas da idade avançada, se tornam mais frequentes nesta fase: a deterioração cognitiva, cuja expressão máxima é a demência; a perda progressiva de mobilidade; e a solidão. As duas primeiras podem assumir a forma de doenças que limitam, por vezes drasticamente, a autonomia — atributo essencial da identidade pessoal. A solidão, por sua vez, resulta muitas vezes de perdas sucessivas, de afastamentos inevitáveis, mas também de escolhas ou da impossibilidade de as fazer. Soma-se a tudo isto, a carência económica especialmente penalizadora num grande número de idosos.

Paralelamente, múltiplas tecnologias e terapêuticas têm contribuído para prolongar a vida em situações antes fatais, influenciando globalmente a longevidade. No domínio cardiovascular, por exemplo, poderíamos referir a prevenção primária e secundária, a implantação de pacemakers, o tratamento percutâneo da estenose aórtica ou as abordagens modernas da insuficiência cardíaca. Em simultâneo, proliferam programas de anti-aging (anti-envelhecimento), nenhum deles capaz de inverter o curso do tempo – um verdadeiro retro-aging (rejuvenescimento?), embora alguns atenuem sinais visíveis da idade, como as rugas, ou proponham soluções cuja eficácia ainda aguarda confirmação científica sólida.

Mesmo aceitando a irreversibilidade da natureza, é possível lutar por um envelhecimento mais saudável. O exercício físico adaptado pode contrariar a perda de massa muscular (sarcopenia) própria da idade avançada, ajudar a controlar o peso, melhorar a mobilidade e contribuir para uma maior longevidade. O treino mental, nas suas diversas modalidades, reforça a saúde cognitiva e emocional. Programas alimentares adequados podem restituir equilíbrios. Programas comunitários bem estruturados são instrumentos valiosos para mitigar o isolamento social e reduzir a solidão, reacendendo o sentido de pertença e fortalecendo os laços humanos.

O caminho a percorrer é ainda longo; em muitos domínios, está quase tudo por fazer. A família, outrora âncora e suporte dos mais velhos, tem vindo a perder esse papel essencial e frequentemente confronta-se com falta de apoios técnicos que instituições especializadas poderiam fornecer. Faltam programas estruturados de acompanhamento da doença crónica, faltam iniciativas de exercício físico adaptado, falta, em suma, um programa global de enquadramento e apoio que permita viver a velhice como oportunidade de realização e felicidade — e reconhecer que as folhas de Outono, longe de anunciarem o fim, podem muito bem ser ocasião de novas flores.

Vale a pena pensar e decidir depressa, porque depressa se chega à velhice e por lá se anda mais tempo que antigamente.