O truque mais velho na política democrática é simular um amor imorredoiro dos políticos pelo povo. Sucede que o amor pode assumir muitas formas. O político que quer vencer descobre que o caminho mais curto para o poder aponta para a exibição do amor pelo povo governado enquanto compaixão. É um caminho mais curto porque não exige competências, conhecimentos nem qualificações. Exige sobretudo um certo talento de encenação e uma considerável falta de vergonha.
O amor que politicamente conta é o amor-compaixão. Isto quer dizer que o político ama o povo porque é capaz de se compadecer dele, sentindo verdadeiramente a dor que o povo sente. Escusado é dizer que o amor que este político nutre pelo povo é, no jogo de aparências, tanto maior quanto menor for comprovadamente o amor dos restantes políticos pelo povo sofredor. Como é difícil mostrar o amor que se sente, é mais aliciante mostrar o contraste entre, por um lado, o político bom que sofre com o sofrimento do seu povo, e, por outro, o político mau que é “insensível” às dores populares. A alquimia do sucesso na política das emoções está na exaltação da superior compaixão que uns sentem e na acusação incessante de que os outros não a sentem.
Ora, como é que o político mostra que sente as dores populares mais autenticamente do que os outros seus adversários que competem com ele pelo favor – pelo amor – do povo? Tem de mostrar que está mais próximo do povo do que os seus competidores. O político “sensível” é aquele que está “próximo”; o “insensível” é o que está “distante”. Pelo contrário, a distância demonstra a insensibilidade, e, portanto, a indiferença perante o povo, porque a partilha da dor só é possível em proximidade. Afinal de contas, não nos compadecemos de puras abstracções. Precisamos de estar próximos da experiência concreta de sofrimento. Uma experiência de sofrimento que possamos pelo menos ver.
Este truque foi sempre praticado na experiência relativamente longa da democracia ateniense nos tempos da Antiguidade. Ficava normalmente a cargo dessa figura peculiar a que os gregos chamavam o demagogo. Mas, desde a Revolução Francesa, o jogo tornou-se mais permanente e intenso. A Revolução democrática moderna alargou o palco da exibição da compaixão. Desde então, à esquerda e à direita despontaram estes corações “sensíveis” e dolentes no peito daqueles que queriam votos e aplausos. Em particular, a esquerda política apostou na divisão de classes para levar mais longe a identificação da “sensibilidade” com a “proximidade”. O rico, representante de ricos, levava uma existência separada e, por conseguinte, distante do pobre. Não podia, assim, conhecer as suas dores, partilhar o seu sofrimento. A riqueza era essencialmente distância da realidade da esmagadora maioria das outras pessoas. Logo, o rico não podia ser um bom governante. No limite, desprezaria o bom povo, traduzindo o inultrapassável ódio de classe.
A democracia do nosso tempo diluiu o esquema da esquerda. Contornou de vários modos a refutabilidade política da origem social do candidato a eleito do povo, abrindo o jogo das emoções exibidas a toda a gente sem grande discriminação. De resto, foi sempre uma história familiar a renúncia – havia quem chamasse “traição” – à sua origem social para beneficiar do favor popular. O rico, e até o nobre, que se desfaziam em juras de amor aos pobres, denunciando com horror os seus pares pela sua vil “indiferença” e “insensibilidade” fizeram as crónicas da Revolução em França e das suas imitações posteriores pelo continente até recentemente.
Hoje, a hipermediatização da política permitiu subir (ou descer, depende da perspectiva que se tem sobre o tema) vários patamares nas técnicas que este exercício envolve. Se o que conta é apenas a pureza deste sentimento de amor-compaixão, o segredo está em saber exibi-la. Se, como a pureza é invisível, e portanto insusceptível de ser exibida aos olhos do povo, então resta comprovar a sinceridade desse amor-compaixão. Uma vez mais, a sinceridade é difícil de comprovar porque a possibilidade da hipocrisia, do fingimento e da pura mentira está sempre à espreita. Diante dos ecrãs de televisões e telemóveis é, pois, crucial exibir por gestos e expressões faciais essa indesmentível sinceridade. Políticos a chorar, ou perto disso, com rostos fechados ou indignados semelhantes aos dos profetas de outrora, com gestos de identificação total do sofrimento que o povo experimenta, tornaram-se frequentes e bem-sucedidos.
Em Portugal já tivemos uma longa procissão de demagogos sentimentais que fizeram carreira fabricando o contraste com o vilipendiado coração de pedra dos seus adversários. Enquanto secretário-geral do PS e primeiro-ministro, António Guterres foi talvez o caso mais vexante da democracia portuguesa, mas não foi o único. No PS teve vários imitadores com maior ou menor sucesso. Os outros partidos, à direita e à esquerda, acabaram por lhes seguir o rasto com medo de ficar para trás, encerrados na jaula fria da distância e da “insensibilidade”. O PSD não teve tantos demagogos sentimentais nas suas fileiras como o PS e talvez por isso adquiriu uma certa reputação de nasty party. Mas também conta com uns quantos candidatos a essa duvidosa categoria, receosos de perder o comboio da deseducação sentimental.
Contudo, hoje, é André Ventura quem aspira a ser o mestre desse fogo-de-artifício emocional operando exibições meticulosamente encenadas para simular uma superior proximidade às dores do povo português em contraste com a cruel indiferença dos seus adversários, aqueles que habitam a redoma do privilégio protegidos do sofrimento que não é o seu. Foi isso que ficou demonstrado no último vídeo divulgado nas redes sociais do Chega. Ali se confirma o abnegado heroísmo de Ventura, não pela exibição de supostas superioridades pessoais, mas antes através da experiência de comunhão no sofrimento com as gentes fustigadas pelos incêndios deste Verão, traduzida em gestos evidentemente encenados e dolorosamente despudorados. É um daqueles casos em que temos de nos preparar para a convivência sem conflitos do mais puro ridículo com a persuasão política eficaz.
Paradoxalmente, a descida cada vez mais funda ao jogo emocional em política cria o contrário do que se pretendia inicialmente, e que era garantir a proximidade entre políticos e governados. É mesmo o contrário que daqui resulta porque o prémio para a hipocrisia tecnicamente elaborada e mediaticamente bem-sucedida passou a ser enorme. Quanto mais insistirmos em políticos “autênticos”, aqueles que são “cá dos nossos”, mais hipócritas os teremos. Quanto mais recompensarmos experiências emocionais imediatas, menos disponíveis estaremos, como povo eleitor, para premiar o político bem preparado, consciente da sua tarefa e eficaz na obtenção de resultados práticos. Vivemos tempos em que todos se torturam para ter, de preferência especados a mirar um telemóvel, uma pequena experiência emocional de manhã e uma pequena experiência emocional à noite. A política penetrou esse festival ininterrupto. Mas neste domínio a fasquia é mais alta. A democracia depende da preservação de um mínimo de racionalidade na estrutura do seu debate público. De razão fria. Daquela que não faz acelerar o coração, mas brota da parte mais nobre da nossa natureza.
Na era do império da imagem como é a nossa, é fácil perceber como certas imagens têm forçado guinadas, por vezes bruscas, nas escolhas políticas das democracias ocidentais. Imagens verdadeiras ou imagens encenadas – imagens que nos “impressionam” – formam uma experiência emocional que nos leva automática e irreflectidamente a exigir uma resposta política directa. Agora que uma outra era emerge, a da multiplicação das imagens forjadas por tecnologias novas, a credibilidade insubstituível da imagem vai lentamente esboroando-se sem que tenhamos nada para a substituir. Será mais um contexto de desorientação a juntar aos que já temos.