Nos últimos dias, este caso ganhou ampla visibilidade pública e gerou forte  inquietação na comunidade portuguesa: um aluno de 9 anos sofreu amputação de dedos  depois de colegas lhe terem fechado a porta sobre a mão. A mãe revelou que já existiam  episódios anteriores de agressão e que a escola tinha sido informada desses sinais. Uma das  respostas recebidas foi: “Temos de ter calma, foi um incidente que podia ter acontecido com  qualquer criança, estavam a brincar e correu mal”. Este tipo de frase traduz um problema  sistémico: a dificuldade que ainda existe em distinguir claramente o que é brincadeira e o  que é bullying (e, sobretudo, as consequências perigosas de normalizar comportamentos  agressivos através de narrativas que os desvalorizam).

Onde termina a brincadeira e começa o bullying? 

Do ponto de vista psicológico, a diferença é inequívoca. As crianças estão a brincar  quando todos os envolvidos se divertem num contexto de inclusão, segurança e  reciprocidade. Uma brincadeira saudável pressupõe equilíbrio de poderes, respeito pelos  limites do outro e ausência de dano. O bullying começa quando uma criança passa a ocupar  repetidamente a posição de alvo, enquanto outras obtêm prazer, divertimento ou vantagem  às suas custas, seja através de troça, humilhação, exclusão ou agressão física/verbal. A  existência prévia de episódios semelhantes, como referido pela mãe neste caso, reforça  ainda mais este diagnóstico.

O fenómeno do bullying caracteriza-se por três elementos centrais, reconhecidos pela  literatura científica:

– Repetição de comportamentos agressivos;

– Intencionalidade, entendida aqui não como maldade consciente (a categorização em  “crianças boas” vs “crianças más” é redutora), mas como persistência, apesar do  sofrimento do outro;

– Desigualdade de poderes, quer emocional, social ou física.

É frequente ouvir justificações como: “Mas são crianças, não percebem que magoam”.  É verdade que a empatia e outras competências socioemocionais estão ainda em  desenvolvimento na infância, o que faz com que algumas situações comecem, de facto, num  contexto de brincadeira. No entanto, o limite é claro: a partir do momento em que uma criança expressa dor, desconforto ou angústia e o comportamento persiste (sem qualquer  tipo de mudança), deixamos o território da brincadeira e entramos no campo do bullying. 

Problemas estruturais nas escolas 

Para compreender a persistência do bullying em contexto escolar, é indispensável olhar  para os problemas estruturais que limitam a capacidade de prevenção e intervenção. Não se  trata apenas de episódios isolados, mas de falhas sistémicas que enfraquecem a resposta  educativa e deixam muitas crianças desprotegidas.

Falta de mecanismos de denúncia claros e acessíveis 

Apesar da importância da denúncia como ponto de partida para qualquer intervenção,  em muitas escolas portuguesas não existem canais formais, visíveis e seguros que permitam  a alunos, pais, professores ou auxiliares reportar situações de forma confidencial. Parte-se  do pressuposto de que “toda a gente sabe a quem se dirigir”, mas esse pressuposto não  corresponde à realidade.

A ausência de mecanismos estruturados alimenta o silêncio: a maior parte das vítimas  não denuncia, e as que o fazem demoram, em média, mais de um ano. O problema não é  “falta de casos”, mas de caminhos.

Inexistência de procedimentos uniformizados de atuação

Quando uma denúncia chega à escola, a resposta depende frequentemente de quem a  recebe e não de um protocolo previamente definido. Falta clareza sobre: – Quem deve avaliar a situação;

– Quais os passos obrigatórios de investigação;

– De que forma e em que momento envolver as famílias;

– Como ouvir vítima, agressor e testemunhas separadamente;

– Que medidas disciplinares e educativas devem ser consideradas;

– Como monitorizar o caso após a intervenção;

– Quando articular com PSP/GNR, CPCJ ou serviços de saúde.

Sem procedimentos uniformizados, a resposta é desigual. Há escolas que intervêm com  rigor, outras que recorrem à minimização ou à informalidade. Esta ausência de estrutura  compromete a consistência da proteção oferecida às crianças.

Insuficiente investimento em formação especializada 

A prevenção e intervenção eficazes exigem competências técnicas que nem sempre  fazem parte da formação de base dos profissionais escolares. Temas como identificação  precoce de sinais, distinção entre conflito e bullying, dinâmicas de grupo, prevenção do  cyberbullying, mediação, intervenção com agressores e apoio emocional à vítima são áreas  críticas que continuam sem formação sistemática em muitas escolas. Isto, inevitavelmente,  deixa as equipas menos preparadas para agir com assertividade e rigor.

O mito da reputação e o perigo das narrativas que desvalorizam 

A tentativa de proteger a imagem institucional tem levado muitas escolas a recorrer a  narrativas que minimizam comportamentos desadaptativos: “estavam só a brincar”, “aqui  não existe bullying”. Estas frases, usadas como mecanismos de defesa, desvalorizam sinais  importantes e adiam intervenções necessárias.

A crença de que admitir casos de bullying afeta negativamente a reputação da escola  conduz, em alguns contextos, à omissão de registos, à resistência em criar mecanismos de  denúncia e à relutância em implementar protocolos formais. Mas o resultado é  contraproducente: problemas ignorados intensificam-se, tornam-se mais graves e acabam,  muitas vezes, divulgados publicamente (e é nesse momento que a imagem institucional fica  profundamente comprometida).

A boa reputação de uma escola não nasce da ilusão de “não existirem casos”, porque  isso seria uma expectativa irrealista (o bullying, infelizmente, ainda é um problema  universal). Nasce da capacidade de agir, de reconhecer o fenómeno sem ambiguidade e de  intervir com transparência, rigor e consistência. É esta postura que fortalece  verdadeiramente a confiança da comunidade educativa.

Bullying também pode vir de adultos 

Outro equívoco frequente é considerar que o bullying existe apenas entre crianças.  Muitas escolas concentram-se exclusivamente nas dinâmicas entre pares, negligenciando  comportamentos que emergem de adultos para crianças (alguns subtilmente mascarados de  humor ou disciplina). O bullying pode também ocorrer quando um professor ridiculariza  erros e dificuldades, compara alunos constantemente, ou recorre a “brincadeiras” que  expõem a criança à humilhação. Estas práticas, embora socialmente normalizadas, constituem formas de violência emocional com impacto reconhecido na autoestima, no  desempenho académico e na saúde mental.

Há muitas frentes onde é urgente intervir. Proteger as crianças exige reconhecer o  fenómeno sem ambiguidade e atuar de forma rigorosa e consistente. O bullying não se  resolve com o improviso. Resolve-se com conhecimento, estratégia e coragem institucional.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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