Quem for pela Rua Garrett em direção ao antigo Largo das Duas Igrejas, posteriormente rebaptizada Praça de Camões, inevitavelmente dará de caras com a estátua erguida ao nosso vate nacional, contanto que conjure coragem suficiente para pular a turbamulta inane de turistas. Ultrapassadas as selfies e o fragor babuíno d’ A Brasileira — e tereis muita sorte se não estiverem por lá uns acrobatas –, lá está ele. Fronte laureada e mirando a lonjura, desafiante e soldadesco, punho cerrado sobre o peito e a espada pendente. Quatro metros de bronze sobre um pedestal de sete e meio. De tão altaneiro, é o Camões apoteótico que ali figura. Não há nele membros lassos ou proporções humanas – é o príncipe dos poetas e o cantor do peito ilustre Lusitano quem contempla o horizonte, inteiriço e fero.

À distância de cinco séculos, que tudo magnifica, é o retrato justo e digno do maior dos nossos poetas, além da projeção de uma forma mentis nacional que tem o condão de nos arregimentar sob o estandarte do seu génio. E é, talvez, a compensação possível do maior dos nossos opróbios. Refiro-me ao significado que encerra, para a nossa consciência colectiva, o epitáfio mandado erguer por parte de D. Gonçalo Coutinho, seu amigo: “Aqui jaz Luís de Camões, príncipe dos poetas do seu tempo: viveu pobre e miseravelmente, e assim morreu em 1579”. Até hoje, estas palavras parecem levantar-se do pó dos séculos para nos lançar em rosto a imagem desse Camões indigente e mísero. Circunvoluções mais propensas à fabulação e ao rastreio de causalidades veriam na perda da independência ocorrida no ano seguinte a desforra cósmica de tamanha injustiça. Eu, mais timorato, denoto a curiosidade e engulo em seco.

Mas se, entre os poetas, Camões foi o primeiro dos desventurados e a sua vida a mais desgraçada que jamais se viu, como ele plangia, foi porque se conjuraram, para sua perdição, erros [seus], má fortuna e amor ardente. De facto, quem compulsar as suas Cartas sem olhos remelosos, não encontrará nelas salamaleques ou grandes mesuras, e muito menos o protótipo do cavalheiro probo e exemplar. Escritas currente calamo, o que delas ressalta, além de uma imensa erudição e hermetismo do seu quadro referencial, por vezes mesmo críptico, é o tranca-ruas libertino que por essa altura ia sugando o tutano da maçã pútrida que era a Lisboa quinhentista, dividindo o seu tempo entre o Mal-Cozinhado e a sombra das vielas. E não admira. Viviam-se tempos perigosos e imorais, de cobiça e rudeza, mesmo encimando Portugal, a reboque da expansão marítima, a vanguarda da revolução tecnológica.

Para um Escudeiro feito Cavaleiro fidalgo — Camões não era, é certo, senhor de pendão e caldeira –, classe de fidalgotes e quidams poucas léguas acima dos simples homens honrados, mas já demasiado nobilitados para condescenderem com qualquer tipo de ocupação, Lisboa era um paraíso de volúpias.  Na Europa, era mesmo o bazar por excelência onde o bem e o mal se vendiam – e onde, não raro, eram intermutáveis.

Não há, pois, contradição alguma em asseverar a grandeza e torrencialidade do seu génio ao mesmo tempo que reconhecemos, na peugada de Mariz, o “gastador, muito liberal e magnífico, [e que] não lhe duravam os bens temporais mais que enquanto ele não via ocasião de os despender a seu bel-prazer”. Ou admitimos, quando menos a título de hipótese plausível, alguma malandrice da sua parte com a coisa pública nos tempos em que serviu como provedor de defuntos, ainda antes da instituição oficial da Provedoria. No mais, é legítimo supor, com o respaldo de alguns testemunhos, que se tratava de um homem de natureza terrível, afogueado e inquieto. Ele próprio o admite, quando confessa não gostar de mostrar as solas dos pés, ou seja, virar costas aos perigos. E ainda bem que assim era, pois quem sabe as combinações que a Natureza faz para engendrar um Génio? Fosse ele carácter sumiço e apagado, não experimentado na faina da vida, quem sabe se Camões seria Camões? Quem sabe se Portugal seria Portugal?

É por essa razão que, em vez de edulcorar a sua imagem e fazer dele uma espécie de Viriato das letras, permeável à sucessiva sobreposição de roupagens míticas, importaria aprofundar, ainda que às apalpadelas, o homem de carne e osso. Porque, como bem notaram Camilo e Aquilino, será apenas através desse esforço de compreensão da sua dimensão humana – e Camões era terrivelmente humano, na glória e na baixeza -, e não pintando ao seu derredor aquelas névoas irisadas de fulgores poéticos, no dizer de Camilo, que vamos compreender, como Helder Macedo bem intuiu, a perpétua e sempre renovada contemporaneidade de Camões. A assombrosa verdade de que ele está, por vezes, mais perto de nós do que nós mesmos, quando pinta os painéis da nossa história e da sua – mas também nossa – vida interior. Que ele foi o primeiro poeta europeu a incorporar na sua língua a experiência do encontro entre diferenças, nos idos dessa primeira Globalização por nós posta em marcha, tornando-a com isso infinitamente mais dúctil (esqueço quem disse que o português era um castelhano sem ossos, se Cervantes ou Unamuno). Que a sua Lírica é, mais que um suave remanso de vapores eufónicos, a dactilografia de uma alma – e, portanto, de todas. Enfim, que é no florilégio da sua vida e obra, no sal das suas feridas não mais do que na linfa quase orgástica do seu ardor apaixonado, que encontraremos, volvido todo este tempo, as razões profundas e quase subterrâneas – direi mesmo fundacionais – do nosso sentir e existir. É que, por mais voltas que se dê, seja qual for o futuro das nossas letras, é na sua língua que pensamos, escrevemos e amamos – se é que pensar e escrever não são também, quando bem direcionadas, formas diferentes de amar. É o caso de Camões, ainda que tantas vezes sob o signo da desesperança e do desengano. E, como o Professor Reis Brasil bem notou, tanto melhor o compreenderemos quanto mais o nosso amor se conseguir aproximar do dele:

E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.