Estas questões foram dirigidas aos Enfermeiros, num direto televisivo de um jornal nacional, por um conhecido jornalista, escritor e comentador português. Colocadas a uma dirigente sindical que, em 2019, expunha o desgaste da profissão. Apesar da distância temporal, continuam a ecoar como se tivessem sido proferidas ontem. Representam, na sua essência, desinformação e preconceito, o mesmo padrão que caracteriza as afirmações presentes numa recente crónica sobre horas extra, médicos e enfermeiros—sensacionalistas e, lamentavelmente, provenientes de quem, em espaços privilegiados de opinião pública, deveria ser mediador responsável da informação.

A dimensão e o impacto do exercício do Cuidar não se refletem em opiniões fragmentadas. Em várias dimensões, desde a segurança à integralidade, passando pela humanização, a Enfermagem é, enquanto disciplina e profissão, agregadora de valor, otimizando os resultados em saúde e garantindo a sustentabilidade do sistema de saúde.

A complexificação crescente das necessidades da sociedade, das organizações de saúde, dos destinatários de cuidados e dos profissionais de saúde torna cada vez mais premente a reflexão sobre a relevância da gestão de equilíbrios, com destaque para a Saúde Mental.

Estudos como o NursesMH#Survey2024 revelam números preocupantes: quase três quartos dos enfermeiros percecionam negativamente a sua saúde mental; cerca de um terço reporta sintomas de depressão grave; a maioria experiencia sintomas somáticos e enfrenta problemas como ansiedade, insónia e disfunção social. A sobrecarga de trabalho e os turnos noturnos agravam significativamente estes índices, enquanto a ausência de fins de semana livres afeta mais de metade dos Enfermeiros. Sem surpresa, a grande maioria dos Enfermeiros considera a carga de trabalho extremamente pesada.

Voltemos ao “carregamento de pesos”. Não obstante a diferenciação e a relevância da profissão, o seu exercício, no Cuidar, traz consigo um custo físico e emocional que não pode ser ignorado.

O burnout, mas também os problemas neuromusculares, são realidades frequentes entre os Enfermeiros, impactando diretamente a qualidade de vida de quem cuida e de quem é cuidado, e constituem-se como duas das principais causas de absentismo laboral.

As causas, mais do que prevalências, encerram em si histórias, “pesos” tatuados em cada Enfermeiro, tantas vezes o último reduto da dignidade humana. O peso de quem empurra camas de madrugada para dar lugar ao último cigarro; o peso dos abraços finais ou dos corpos despidos, verdadeiros e frágeis, que se lavam, mobilizam e amparam nas quedas; o peso do choro dos pais que veem partir os filhos e dos filhos que veem partir os pais; o peso de não se conseguir salvar uma vida; o peso associado à “revolta contra o sistema e contra a vida”, incorretamente direcionada; o peso da responsabilidade, da decisão e da omissão…

Os milhares de horas suplementares que foram realizadas com abnegação e dano pessoal, os doentes a mais atribuídos—sabendo que isso tem consequências graves—e a desvalorização e banalização do sofrimento de quem é cuidado e de quem cuida são também pesos pesados, que impõem medidas urgentes.

É absolutamente necessário reconhecer a Enfermagem como profissão de risco e desgaste rápido. Políticas como a antecipação da idade de reforma, a atribuição de subsídios de risco, programas de apoio emocional, espaços de descanso e lazer e ambientes organizacionais positivos são medidas imperativas, porque potenciadoras de segurança, qualidade e bem-estar.

“Carregam pesos? Mergulham em profundidade?”

A resposta não é sobre estar 24 horas com os doentes, é sobre estar efetivamente. É sobre vigilância e diagnóstico, sobre prevenção da doença e promoção da saúde, manutenção e reabilitação, recuperação e paliação. É sobre intuição clínica e tomada de decisão e é, tantas vezes, sobre fazer a diferença entre a vida e a morte. É sobre Cuidar.

Sim, é carregar pesos, muitas vezes demasiado pesados, e é também “mergulhar fundo”, ontologicamente, nas vidas de quem se cuida, criando impacto e valor real.