Desde que em 2019 Chega e IL conseguiram pela primeira vez representação parlamentar (na altura com apenas um deputado cada, respectivamente André Ventura e João Cotrim Figueiredo), a direita portuguesa entrou num rápido e intenso processo de reconfiguração que continua em curso. O Chega é hoje o principal partido da oposição ao Governo suportado pela AD e a IL é a quarta força política nacional. Também sintomático é que o Chega vá aparecendo com alguma regularidade em sondagens à frente da própria AD. Dados que sugerem que o processo de reconfiguração da direita e do sistema partidário em Portugal pode estar longe de terminar – com a até há pouco tempo impensável possibilidade de o Chega substituir o PSD como principal partido à direita do PS a ser hoje um cenário cada vez mais equacionável.

Mas enquanto André Ventura vai pensando cada vez mais na trajectória que o poderá levar a ser Primeiro-Ministro, o espaço à direita do Chega vai também tendo movimentações cada vez mais intensas. No meu artigo de 18 de Fevereiro deste ano, antevi a possibilidade de surgimento de um partido à direita do Chega com possibilidade de obter representação parlamentar, o que configuraria (mais) uma mudança significativa no panorama partidário português. Recordando o que escrevi na altura:

“A confusão e a falta de meios e de credibilidade de alternativas que têm existido – desde o (entretanto extinto) Ergue-te de José Pinto Coelho e Rui Fonseca e Castro até ao ADN de Bruno Fialho e Joana Amaral Dias, sem esquecer o Nova Direita de Ossanda Líber – têm até agora significado, na prática, que o Chega não enfrenta concorrência relevante à direita. Mas, caso uma destas forças se consiga relançar ou – o que talvez seja apesar de tudo menos improvável – caso surja uma nova força política à direita do Chega com a força, meios e credibilidade necessários, tudo pode rapidamente mudar no panorama partidário português. Tal como mudou com o aparecimento e extraordinário sucesso do Chega a partir de 2019.”

Desde então, o Expresso deu conta de uma sondagem que apontava a possibilidade de uma votação superior a 5% por parte do movimento Reconquista, liderado por Afonso Gonçalves, caso este se transformasse em partido e esse tema ganha cada vez mais destaque na própria vida interna do Chega, como deu conta aqui no Observador Inês André Figueiredo neste interessante artigo (sobre o tema vale a pena ler também este artigo de Leonardo Ralha no DN).

O que se poderá dizer sobre esta possibilidade? Por um lado, uma votação na ordem dos 5% parece pouco verossímil para um novo partido com as (potenciais) características do Reconquista atendendo ao histórico do sistema partidário português e, em particular, das eleições legislativas. Transformar seguidores e visualizações nas redes sociais em votos na urna é uma tarefa árdua e difícil, como provam os muitos projectos que têm ficado pelo caminho em Portugal. Isto dito, o potencial para conseguir representação parlamentar claramente existe – e por várias razões. Em primeiro lugar porque o extraordinário sucesso do Chega leva naturalmente a uma menor radicalização e a uma aproximação ao centro no discurso, nas propostas e – em especial – nas medidas negociadas, assumindo cada vez mais uma postura social-populista. Em segundo lugar, pelas ambiguidades do Chega no tratamento do tema da “remigração” – o ponto central na agenda política do movimento Reconquista. Relativamente à concepção e implementação em Portugal de possíveis políticas estruturadas de remigração, a postura do Chega parece com frequência deliberadamente ambígua: por vezes sinalizando alinhamento com posturas mais radicais mas com frequência alinhando por um discurso mais contido centrado no controlo dos fluxos de imigração. Esta ambiguidade abre claramente espaço à direita do Chega. Aliás, o próprio sucesso do Chega aumenta esse espaço potencial, uma vez que actualmente bastará que apenas 1 em cada 10 eleitores do Chega se revejam numa oferta mais radical para que esse partido consiga ter representação parlamentar (e isto sem considerar sequer a potencial mobilização de abstencionistas ou de eleitores de outros partidos que não o Chega).

Ainda que tal esteja a merecer pouca atenção em Portugal, é também de notar (e merecedor de reflexão e análise…) que, entre os subscritores em destaque do Save Europe Act, Afonso Gonçalves apareça numa muito restrita lista de líderes europeus de direita ao lado de nomes como Viktor Orbán, Santiago Abascal ou Eric Zemmour – enquanto o Chega aparece apenas representado pelo conselheiro nacional Pedro Pinto Faria.

Caso um novo partido à direita do Chega apareça e tenha sucesso eleitoral (sendo que para esse efeito a fasquia é clara: obter representação parlamentar), os efeitos para o Chega serão mistos. Por um lado, haverá no imediato uma óbvia (e maior ou menor) perda de votos para esse novo partido, com a potencial perda de muitos lugares de eleição marginal. Mas por outro lado, a existência e afirmação de um partido com representação parlamentar claramente mais radical à direita permitiria a André Ventura credibilizar-se como uma alternativa comparativamente moderada e potencialmente facilitaria o caminho até à conquista do poder. Mesmo que com uma representação parlamentar pequena – ou menos unipessoal –  o novo partido transformaria o Chega no partido central da direita portuguesa. Neste sentido, é até possível especular que o cenário central de o Chega substituir o PSD seria francamente facilitado, a prazo, pela existência de um partido à direita do Chega com representação parlamentar.