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É uma pena que Portugal tenha saído da lista verde de Inglaterra. A falta de turistas é sempre uma maçada, mas esta é mesmo a pior altura para não termos visitantes. Pela primeira vez na história, há um museu nacional que podemos exibir com orgulho e dizer: “Estrangeiro que estás cá apenas durante um fim-de-semana, mas desejas conhecer Portugal: eis o Museu dos Coches!”

Trata-se de um museu que custou 50 milhões de euros, que gasta 3,5 milhões de euros por ano em manutenção e onde, apesar disso e de ter só seis anos, falta a luz, os elevadores não funcionam, há avarias no sistema de ar condicionado que prejudicam a conservação das peças, coches por arranjar, e humidade nas paredes. Portanto, para perceber o nosso país, um turista só precisa de visitar o Museu dos Coches. E se estiver apertado de tempo, pode ligar só ao “museu” e borrifar nos “coches”.

Como noutros grandes museus europeus, o seu valor não está limitado ao acervo artístico. Também o edifício, pela sua história, assume grande importância. Tal como o Palácio do Louvre está intimamente ligado ao facto de ter servido de residência real, tal como os Uffizi são indissociáveis da família Medici, também o Museu dos Coches tem uma biografia prenhe de simbolismo. É que foi mandado construir em 2008 por Manuel Pinho, ministro da Economia do Governo Sócrates, apesar das críticas que diziam não ser necessário, ser caro e ser feio. Na altura, a Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, afirmou: “Neste espaço (…) irá surgir um equipamento que faz, precisamente, a ponte entre o passado e o presente: um diálogo entre a arquitetura e um conceito museológico contemporâneo e a expressão da nossa história através das viaturas dos séculos XVII, XVIII e XIX.

Por acaso, lembro-me bem desse diálogo. Foi um tipo de diálogo a que se costuma chamar conluio. A arquitectura levou o conceito museológico contemporâneo para um canto e segredou-lhe: “Ouve lá, inventa aí umas necessidades artísticas absurdas e eu faço um projecto caríssimo. Depois dividimos o saque.” Uma vez que José Sócrates esteve envolvido no processo, é seguro dizer que alguém colocou a “mama” em “mamarracho”.

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(Quando, em 1905, a Rainha D. Amélia criou o Museu dos Coches, não esperava que uma das peças mais importantes da colecção viesse a ser o landau em que o seu marido e o seu filho foram assassinados, em 1908. Em nome da tradição, faço votos para que este Museu dos Coches venha a albergar a viatura em que a vida do fundador começou a correr mal. Estou muito curioso para ver como vão lá pôr o avião à porta do qual José Sócrates foi preso).

À primeira vista, o museu parece uma garagem. Numa segunda observação, vendo os coches lá estacionados à balda, sem qualquer rigor na apresentação, confirma-se que é uma garagem. A diferença é que numa garagem normal limpam-se as mãos aos desperdícios. Nesta garagem, nunca alguém irá assumir a responsabilidade pelo prejuízo, o que quer dizer que se lavam as mãos dos desperdícios.

Gastar 50 milhões numa garagem de carroças pode parecer esbanjamento, mas, para explicar Portugal, é uma pechincha. O Museu dos Coches desvenda o país. É uma espécie de Eduardo Lourenço de betão armado. Como símbolo nacional está ao nível do Galo de Barcelos. Se o Galo de Barcelos fosse líder de um bando de salteadores de estrada, claro. Haverá metáforas da portugalidade mais baratas? Com certeza que não. Se são baratas, ou é outra figura de estilo, ou outro país.

Na semana passada, um italiano leiloou uma escultura invisível por 15 mil euros. Ui, o que nós gozámos com os papalvos que foram burlados pelo paleio intelectual deste artista! Esquecemo-nos do Museu dos Coches e das justificações que nos foram dadas para a sua construção. Como impostura artística é bastante mais caro e – a não ser nas salas em que não há luz – é impossível não ver. O que significa que nunca poderemos esquecer.

Paradoxalmente, esta situação vem corrigir uma grande injustiça. Durante mais de um século de Museu dos Coches, as carruagens ocuparam o lugar principal, enquanto os animais de tiro que as puxavam nunca foram destacados. Agora, finalmente, é feita a homenagem devida à besta que carrega, não apenas os coches, mas todo o armazém. Falo dessa dócil azémola, o contribuinte português. Parabéns a nós.

No fundo, Gabriela Canavilhas tinha razão. O museu fez, de facto, a ponte entre o passado e o presente. Aliás, para ser mais preciso, fez a ponte entre o presente e o passado. A torrar dinheiro desta maneira, é só uma questão de tempo até voltarmos a andar de coche como no antigamente.