“Donald Trump ameaça União Europeia com tarifas de 200% sobre vinhos, champanhes e produtos alcoólicos”
CNN Portugal
“Trump impôs esta quarta-feira tarifas de 25% sobre a importação de aço e alumínio para os Estados Unidos”
Observador
“União Europeia e Canadá responderam a Trump em força”
Observador
Os exemplos acima correspondem apenas a uma pequena fração daquilo que temos visto nas manchetes dos jornais recentemente.
De forma anunciada já durante a campanha eleitoral que o elegeu como 47º Presidente dos Estados Unidos da América, Trump tem realizado uma verdadeira Blitz de tarifas contra inimigos e aliados de forma indiscriminada, mas não descuidada. Geograficamente, os tiros foram disparados contra o Canadá, o México, a União Europeia, a China, entre outros; e abrangem, em termos de matérias, desde o aço até aos produtos petrolíferos passando – ainda que de forma meramente hipotética ao dia de escrita deste artigo – os vinhos europeus.
Este tipo de políticas não são uma inovação, tendo sido já aplicadas em diversos países e em diferentes épocas históricas, pelo que as consequências da sua aplicação não se tratam de absoluta futurologia. Com paralelismo com o Colbertismo surgido no século XVII, as políticas económicas de Trump visam também um fortalecimento da indústria nacional dos Estados Unidos da América, aumentando os custos dos produtos trazidos do exterior como forma de fomentar a produção desses mesmos dentro de portas.
Se notarmos com atenção, muitas das tarifas são aplicadas em áreas económicas onde a administração Trump já admitiu publicamente querer ver incrementada a atividade produtiva do mercado nacional. Ou seja, trata-se de áreas chave escolhidas com vista ao desenvolvimento de novas áreas de produção para os negócios americanos.
Ora, em teoria não há dúvidas de que estas políticas visam um fim absolutamente desejável para o americano médio, uma vez que a ideia subjacente é a de que, ao tornar os produtos importados mais caros, os consumidores e empresas americanas sejam incentivados a comprar produtos nacionais, estimulando assim a economia interna, aumentando produções, postos de trabalho e acelerando o crescimento do gigante como um todo.
No entanto, a realidade mostra que o arco-íris desejado não tem sido aquilo que a aplicação destas medidas tem trazido. Em primeiro lugar, as tarifas aumentam os custos para as empresas americanas que dependem de matérias-primas e componentes importados. Isso leva, por sua vez, a um aumento nos preços finais de manufatura dos produtos, aumento esse passado aos consumidores, aqueles que, no fim de contas, suportam o real custo das tarifas.
Além disso, temos assistido a um conjunto de retaliações por diversos países com suas próprias tarifas sobre produtos americanos, criando uma guerra comercial que prejudica ainda mais a economia global.
Espelho desta instabilidade e das previsíveis dificuldades das economias mundiais é o estado atual das bolsas de valores. O aumento significativo da volatilidade originou já quedas acentuadas em índices como o Nasdaq e o S&P 500, tendo estes recuado, no que ao S&P 500 diz respeito, para os valores pré-eleição de Trump. A par disto, a incerteza gerada por essas políticas (a somar aos altos preços das ações no mercado americano) tem levado investidores a procurar alternativas noutros mercados, como Europa e China, o que enfraquece ainda mais a posição dos Estados Unidos no cenário económico global e diminui a sua capacidade de impor políticas económicas que lhe sejam favoráveis.
Mais profundamente do que aquilo que se descreveu acima, as tarifas têm ainda um efeito inflacionário, aumentando os preços de bens e serviços e reduzindo o poder de compra dos consumidores.
Instabilidade nos mercados, volatilidade, menor poder de compra dos consumidores e preços mais altos são a receita perfeita para que uma nuvem de recessão pouse sobre a economia americana, nuvem essa com capacidade de alastrar – entre outros – ao bloco europeu.
Em suma, embora as intenções da administração Trump possam ser compreendidas dentro de uma lógica protecionista com semelhanças ao Colbertismo do século XVII, os resultados práticos têm mostrado que as tarifas fazem historicamente mais mal que bem. Ora, sendo isto amplamente conhecido, questiona-se quais as intenções dos EUA com a implementação destas políticas. Aguardam por um milagre económico? Ou é esta apenas uma forma de pressão sobre países terceiros com vista à aceitação de concessões noutras áreas? Esperemos para ver.