De acordo com os dados disponíveis e relativos aos 2301 indivíduos residentes em Portugal (continente, Açores e Madeira) e avaliados no período de 21 de maio a 8 de julho, faço os seguintes comentários:

1. Apesar de algumas limitações e da metodologia não ser pública, este estudo é indispensável e “precioso” pela informação que fornece e pelo conhecimento que permite extrapolar. Toda a equipa está de parabéns e esta iniciativa deve, tem e vai continuar. De igual modo, é fundamental a disponibilização de todos os dados numa revista científica.

2. Este estudo documenta que, à data de 8 de Julho de 2020, cerca de 300.000 (mais precisamente 298.230) indivíduos foram infetados pelo SARS-CoV-2 e sobreviveram. De acordo com o Boletim Epidemiológico de 8 de Julho, que reporta 45.059 casos confirmados, este valor representa uma diferença de 6,6 vezes o número de casos. Ou seja, só cerca de 15% dos casos foram diagnosticados. De salientar que cerca de 44% dos indivíduos referiram não ter tido sintomas (ou já não se lembraram…) atribuídos à Covid-19 e, em teoria, seriam “assintomáticos”. Neste questionário de sintomas, não foram pesquisadas temperaturas subfebris (inferiores a 38º Celsius) ou queixas nasais, como por exemplo, perda total ou parcial do olfacto. Deste tópico, retiro três conclusões importantes:

– Confirma-se a inexistência de imunidade de grupo e a “quase total” susceptibilidade da população para uma eventual segunda vaga. Se dúvidas houvesse sobre a necessidade imperiosa de nos prepararmos, estes dados são esclarecedores;

–  A elevada percentagem de assintomáticos, confirma a importância destes indivíduos na perpetuação da actividade viral e na manutenção de cadeias de transmissão na comunidade. A transmissão em indivíduos assintomáticos é uma vantagem adaptativa do SARS-CoV-2 que contribuiu para a ocorrência da pandemia.

– À semelhança de outros países, só diagnosticamos 15% dos casos. Este valor baixo de diagnóstico dos casos, justificou a manutenção de cadeias de transmissão mesmo no período de confinamento e a impossibilidade de baixar a curva de planalto. Achatámos a curva mas não conseguimos esmagar a curva durante o confinamento. Os critérios de testagem demonstraram insuficiências em termos de número e de critérios clínicos. Se queremos resolver a pandemia, temos de ter uma política mais agressiva de testagem, utilizar de critérios clínicos mais ligeiros (por exemplo, temperaturas ≥ 37,5º C, queixas nasais, perda de olfato ou de sabor) e procurar activamente os indivíduos assintomáticos.

3. Este inquérito também clarificou alguns dados muito interessantes sobre a ausência de diferenças significativas entre grupos etários. As crianças foram igualmente infectadas mas, aparentemente, com maior prevalência de assintomáticos ou formas ligeiras de doença. Ou seja, estes dados apontam para que as crianças não se infectem menos nem estão mais protegidas de se infectar. Devemos questionar-nos sobre o impacto das crianças e dos jovens na transmissão da doença, sobretudo, nos grupos de maior risco. Este estudo nacional reforça, assim, o impacto do encerramento das escolas na contenção da pandemia e, em particular, no período de emergência.

4. Verifica-se uma maior seroprevalência nos indivíduos do género masculino, o que poderá ser justificado pelo maior número de recetores ACE-2 existente nas vias aéreas dos homens.

5. Finalmente a literacia! Em muitas as doenças, nomeadamente as infeciosas, a indiferença, a iliteracia e a pobreza/precaridade representam fatores de risco para contrair a doença. Em relação ao nível de escolaridade, confirma-se uma diferença significativa nos indivíduos infectados com o ensino secundário (6,4%) versus os que concluíram o ensino superior (1,4%).

A todos os níveis e, também, no combate pessoal contra a pandemia o conhecimento é a nossa melhor defesa e o fator mais decisivo no desenvolvimento de uma sociedade.

Parabéns à equipa do INSA e muito obrigado.

Médico pneumologista, consultor da DGS e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos