O setor das águas tem entre mãos uma proposta séria para um modelo de negócio que consegue, de uma assentada, três grandes objetivos: 1) Criar negócio por alargamento das fronteiras da indústria; 2) Regular mercado e qualificá-lo; 3) Olhar para a coisa pública, um bem de todos nós, como coisa geradora e potenciadora de valor para a sociedade, em sentido lato.

Seis participantes interessantes, criativos e trabalhadores (dois das Águas do Algarve, dois da EPAL, um das Águas do Douro e Paiva e um do Município de Seia(*)) juntaram-se em grupo e apresentaram um trabalho final, correspondente à pós-graduação em Tecnologias e Gestão da Água, criada em parceria entre a NOVA SBE e a NOVA FCT (com o patrocínio da Academia das Águas Livres da EPAL) de inegável mérito, oportunidade e interesse. O trabalho propõe-se lançar um negócio ao estilo UBER mas, neste caso, para as águas e os problemas das águas em nossas casas.

Pense assim: Está num ponto qualquer do país e precisa de um trabalho de desentupimento? De um trabalho de mudança de uma torneira? De reparação de um duche? De uma intervenção que lhe permita a introdução de um novo circuito de água no seu jardim? De uma derivação? Avariou a lâmpada de sua piscina e como fazer para a mudar sem “meter água”? O seu terraço inundou? Enfim, pense no que for e que precise fazer – que meta água, no sentido literal muito embora amplo – e comece à procura do prestador de serviços que lhe vai fazer o trabalho. Encontrou alguns panfletos com ofertas na sua caixa de correio? Telefone e espere pela resposta. Sabe se são bons? Fiáveis? Qual a avaliação que tem deles? Passam fatura? Pois, a oportunidade de negócio entre as entidades gestoras (distribuição de água) e as nossas casas está agora formalizada numa proposta de negócio, com pendor regulador e com inegáveis vantagens.

Há um conjunto imenso de profissionais que fazem estes trabalhos e um conjunto considerável de entidades gestoras (pelo país) de redes de água para distribuição a nossas casas. Pense na UBER. Quer um transporte de A para B? Quer saber se o motorista tem boa classificação? Quer saber quanto vai pagar de antemão? E a certeza de que anda com comodidade e simpatia? E que no final recebe fatura? Passe agora às canalizações (lato senso). Quer um preço mais ou menos standard? Um mercado regulado? A avaliação periódica de quem presta os serviços via classificação do cliente final? Quer a acreditação/regulação destes profissionais pelas várias Entidades Gestoras e o mercado final? Quer umas Águas de Portugal a servir para mais do que lhe é conhecido? Quer fatura? Pois bem, pense na ideia destes participantes na pós-graduação.

Os mesmos propõem “uma plataforma tecnológica (App) desenhada para agregar e promover a comunicação entre os diversos agentes do sector da água, que permita estabelecer uma relação de proximidade, troca de informação e serviços entre as variadas Entidades Gestoras e os seus clientes finais.

Através do download da App (já há uma demo!), o cliente final acede a todo um conjunto de informações, serviços e notificações, sem que isso represente qualquer custo para si próprio. Se efetuar o registo na aplicação e mediante o pagamento simbólico anual, o cliente final tem a possibilidade de requisitar um serviço de canalização a um Prestador de Serviços com competências profissionais reconhecidas pela Entidade Gestora da rede em baixa (todas as entidades a quem pagamos as contas da água!), tendo como certo, a garantia da prestação de um serviço de qualidade, a um preço justo e antecipadamente conhecido, num curto espaço de tempo e num horário que lhe seja conveniente.”

Melhor, “o negócio pretende contribuir para dar uma resposta eficiente (e já agora eficaz, digo eu) ao défice identificado em matéria de contratação/requisição de serviços profissionais de canalização” e que o grupo de trabalho constatou incidir especialmente nos seguintes aspetos:

  •  Inexistência de acreditação da atividade;
  • Preço do serviço não tabelado;
  • Inexistência de orçamento prévio à execução do trabalho;
  • Inexistência de fatura ou faturação inferior ao valor pago pelo serviço;
  • Inexistência de garantia sobre o serviço prestado;
  • Desconhecimento do tempo de resposta/espera.

Porque digo eu que este é um negócio que permite alargar as fronteiras da indústria? Bom, para além de captar, elevar, filtrar, decantar, transportar, distribuir e todas as atividades mais que nos lembremos no circuito da água há agora a hipótese de as Águas de Portugal fazerem um negócio que alarga a sua atividade convencional por alargamento das fronteiras da indústria. “Uberizando” o mercado que presta serviços em nossas casas e empresas e, no geral, consumidores regulares e finais de água.

Porque digo eu que se permite, desta forma, regular e qualificar o mercado? Bom, claramente porque este mercado – como outros congéneres – tem todo o tipo de prestadores e também, infelizmente, todo o tipo de aprendizes. Muitos deles vêm a nossas casas aprender. Alguns outros vêm a nossas casas explorar. Outros ganhar dinheiro sem que haja fatura e sem qualquer dúvida na mais total ausência de garantia. Outros ainda fazem asneira e, no entanto, nunca ninguém vem a saber. Com um serviço e aplicação destes será muito difícil que não se qualifiquem profissionais e que não se regule, e bem, discriminando pela positiva.

Finalmente, porque se olha a coisa pública, bem de todos nós, como potenciadora de valor para a sociedade em sentido lato? Diria que aqui os puritanos virão reclamar a coisa pública como pública (sentido estrito) e à coisa pública não são admissíveis “negócios”. Mais ainda “negócios” deste teor. E assim será até ao dia em que a coisa pública, de tão obsoleta, cairá de podre. De envelhecida, pela incapacidade de inovar e pela negação de que existe um mercado.

Sim, há aqui uma falha clara de mercado. Sim, há aqui uma oportunidade fantástica. Sim, há aqui vontade e um grupo de trabalho que fez o projeto inicial. Sim, financeiramente compensa. Sim, recupera-se facilmente o capital e contribui-se para a sociedade. Sim, é possível e desejável avançar trilhando este tipo de caminhos.

Se assim não fosse – e apenas para dar um exemplo – as universidades públicas teriam perímetros tão fechados e permitir-se-iam tão pouco que acabariam anquilosadas nos ardis jurídicos do “não posso fazer” somados aos puritanismos do “não é do interesse público”. E provavelmente em alguns casos não há interesse. Mas, quando não houver, o mercado falará. Em muitos casos, porém, o mercado tem vindo a aceitar e a aplaudir. Nada, portanto, como tentar.

Pergunte-se, pois, se a sociedade não valorizaria, e muito, que a coisa pública pudesse regular e proporcionar/patrocinar uma plataforma que promovesse a qualidade dos prestadores de serviços em nossas casas? Para que mais que biscateiros e aprendizes pudéssemos ter profissionais de mão cheia? Não é pela causa pública regular a qualidade do serviço, promover a avaliação, evitar que as populações se sintam mal servidas e espoliadas? Pois se é que se leve o projeto em frente.

O projeto foi batizado de T’UBER. O UBER dos tubos. Não considero o nome o mais feliz mas esse é, apenas, um detalhe.

No mais, o projeto é tão feliz que podia e devia ser implementado. Vamos a isso, Águas de Portugal (AdP)?

É que se a AdP não pega nisto com carinho e braços fazedores (interessados não hão-de faltar dentro do próprio grupo AdP ou, para sermos justos, primeiro até no grupo de trabalho da pós-graduação) pode ser que muitos dos fornecedores do grupo AdP ou, no limite, outra empresa pode estar interessada no projeto. Qualquer grupo empresarial que trabalhe com águas, e não só, pode sentir-se atraído face aos benefícios e à notoriedade potenciais.

Nota final: atenção que tal como a UBER não é uma empresa de táxis, o negócio proposto não tem de ser um negócio de água, no sentido estrito do termo. Isto dito, que as AdP têm uma vantagem clara neste negócio, disso não tenho dúvida. Mas o grupo terá de ser rápido ou outros porão a ideia em marcha. Porque tem tudo para ter tração na medida em que financeira e operacionalmente o projeto é válido e trará dinheiro e reputação. Ou será que quererão deixar isto para a Aquapor, por exemplo?

(* Águas do Algarve – Maria da Luz Berjano e Nuno Matins; EPAL – Elisa Soares e Fábio Lourenço; Águas do Douro e Paiva – Emília Carvalho; Município de Seia – Paulo Mendonça)

Professor Catedrático, Diretor Académico –  Formação de Executivos, NOVA SBE – Nova School of Business and Economics; crespo.carvalho@novasbe.pt