Era uma vez um país onde cinco reclusos perigosos fugiram da prisão que tinha a vedação electrificada desligada para não mandar abaixo o quadro. Um país onde outro fugiu da carrinha da polícia, furando entre os agentes, e ainda conseguiu ir algemado de Lisboa ao Algarve antes que alguém o parasse. Um país onde um indivíduo entrou no ministério que tutela as polícias, meteu dez computadores debaixo do braço e foi-se embora como se nada fosse. Isto no espaço de dias. Tudo debaixo de câmaras de vigilância que não estavam ligadas, ou que estavam ligadas, mas não estavam a gravar, ou que estavam a gravar, mas não havia ninguém a olhar.
Pouco tempo depois, um jovem polícia matou um cidadão desarmado de origem cabo-verdiana num bairro periférico, levando a uma revolta que, durante semanas, provocou actos de vandalismo por toda a Grande Lisboa, incluindo autocarros incendiados, automóveis destruídos, ameaças de morte à polícia e feridos graves.
Neste país, e sabendo que a segurança é um tema em qualquer tempo e lugar, mas particularmente nos dias que correm, um pouco por todo o lado, surgindo muitas vezes ligada, artificiosa ou não artificiosamente, ao da imigração e que é cada vez mais explorado por partidos ditos populistas, o governo decidiu dar um sinal. E bem. A partir daqui, começou a espiral de exageros, ou, como os próprios intervenientes gostam mutuamente de acusar, de “extremismos”.
Falando ao país em directo, às oito da noite, ladeado pelas ministras da Justiça e da Administração Interna e pelas chefias nacionais de PJ, PSP e GNR, mas para, supostamente, evitar alarmismos; lembrando que Portugal é um dos países mais seguros do mundo, mas que “é preciso não viver à sombra da bananeira”, o primeiro-ministro anunciou um conjunto de operações em curso e de supostos novos investimentos nas forças de segurança, no mesmo tom com que, pouco tempo antes, garantira ir “atrás” dos incendiários e que “não podemos perdoar a quem não tem perdão”. Não se pára o país à hora dos telejornais para dizer que está tudo bem, muito menos para acrescentar que a escolha do horário foi casual. A que horas e com quantos ministros ao lado é que se vai falar quando o assunto for grave? Exagero número 1.
Claro que, logo a seguir, veio a oposição acusar o governo de “securitarismo” e de estar a ceder à extrema-direita, isto no tal país onde os criminosos entram e saem das carrinhas da polícia e das prisões pelo próprio pé e onde não há uma câmara de segurança que funcione quando precisamos dela. Exagero número 2.
Passam-se mais uns dias e lá se dá a por agora célebre operação policial na Rua do Benformoso. Durante mais de uma hora, põe-se uma rua inteira de mãos na parede, fazem-se buscas em dezenas de estabelecimentos comerciais, para se sair de lá com uma faca. Isto numa intervenção que teria por objectivo a apreensão de armas, e em que a PSP não quis divulgar o número de agentes envolvidos. Eloquente. Exagero número 3.
De seguida, mais rápido do que qualquer um de nós conseguiria lembrar-se do nome da capital do Bangladesh, já se acusava o governo de fascismo e convocavam manifestações. Ainda que a operação tenha sido conduzida pela polícia e não, obviamente, pelo governo, que pode definir políticas, mas não decide operações, autorizada e acompanhada pelo Ministério Público, como tem de ser, e de não ter havido qualquer espécie de violência policial, bastonada, altercação ou afim. Exagero número 4.
E assim, de exagero em exagero e já depois de o primeiro-ministro se ter confessado “atónito” com as reacções à intervenção policial para, a seguir, dizer que, afinal, “também não gostou de ver”, eis-nos chegados a sábado passado. Quando milhares de cidadãos comuns, mas também os oportunistas políticos do costume, vieram desfilar e falar de Abril, de fascistas e de como a Rua do Benformoso é uma rua como as outras, e o oportunista político do outro lado do costume se sentiu já confiante o suficiente para berrar repetidamente de cima dum palco “encostem-nos à parede”, confundindo, deliberadamente, tudo: os imigrantes do sudeste asiático da Rua do Benformoso e os portugueses, africanos e afrodescendentes dos bairros onde se incendiaram autocarros e ameaçou de morte a polícia. O sábado que o primeiro-ministro fechou a acusar todos de extremismo, colocando, ao mesmo nível, gritos incendiários e cartazes pacifistas, por mais usados que possam ser, depois, pelos moralistas de plantão. Exageros número 5, 6 e 7.
Não, a Rua do Benformoso não é uma rua como as outras, como mostrou a rixa que, logo no dia seguinte, fez sete feridos, e com que nem André Ventura teria sonhado nos seus melhores sonhos. É uma rua de 400 metros que, como o Expresso escrevia já em 2022, tinha registados 10 mil moradores, nos seus prédios estreitos de três ou quatro andares onde, na verdade, não caberá nem um décimo disso. A Rua do Benformoso é, infelizmente, neste momento o triste símbolo de um país onde operam redes de tráfico humano, auxílio à imigração ilegal para a Europa, vendas de moradas falsas, sobrelotação de habitações e pessoas a viver em condições desumanas, com todo o manancial de problemas que daí podem advir, a começar pelas questões sanitárias e a acabar no rastilho para o crime e a violência. Um país que toda a pessoa que já tenha chamado um Uber conhece, onde profissionais com cartão do cidadão português e que, para exercerem as suas profissões, têm de prestar provas em português, mas que, misteriosamente, não sabem dizer uma palavra nessa língua. Um país onde, mesmo que os dados não liguem criminalidade e imigração, também não desligam. A verdade é que a população imigrante em Portugal aumentou 33% só em 2023. E outra verdade – podem escrevê-la no mesmo parágrafo ou noutra fonte, noutra página, noutro livro, é que a criminalidade atingiu em 2023 os valores mais altos em dez anos.
Até que apareçam estudos que, comprovadamente, liguem ou desliguem uma coisa da outra, qualquer uso conjugado das mesmas é demagogia pura. Mas existe criminalidade e ela está a subir e as autoridades podem e devem combatê-la onde entenderem que o devem fazer – e isso inclui a Rua do Benformoso. Até lá, ver extremistas em todo o lado só vai continuar a permitir que os verdadeiros continuem a passar, alegremente, entre as gotas da chuva. Até onde? “Portugal é um país seguro, mas é preciso não viver à sombra da bananeira”, disse o primeiro-ministro. Certo. Nem de bananas, acrescentamos nós.