Todos os momentos são bons para falar de saúde. E a prevenção cardiovascular é um dos temas mais importantes para ser debatido desde cedo. O nosso estilo de vida e os nossos hábitos podem impactar significativamente o futuro e os anos de vida úteis sem doença. Por isso, uma abordagem multidisciplinar da prevenção e gestão do risco cardiovascular é fundamental.
A doença cardiovascular é fruto de uma conjugação de fatores de risco. Não nos podemos esquecer da genética, do stress, do sono de má qualidade, do tabaco, da alimentação e de muitos outros fatores que podem prejudicar a sua saúde cardiovascular.
A verdade é que todos nós temos algum fator de risco, que pode contribuir para uma maior probabilidade de desenvolver uma doença cardiovascular. Prova disso é a elevada prevalência destas doenças, que continuam a ser a primeira causa de morte em Portugal.
A acompanhar a diversidade de fatores de risco, muitas destas condições, como a hipertensão ou o colesterol elevado, evoluem de forma silenciosa durante anos, sem sinais/ sintomas evidentes, aumentando o risco de eventos cardiovasculares. Para isso, recomenda-se a ida a uma consulta com o seu médico pelo menos uma vez por ano, para que possa viver sem sobressaltos e com maior controlo dos fatores de risco e prevenir complicações futuras.
Nestes casos, a pessoa sente-se bem. E, por a doença ser silenciosa, pode instalar-se durante décadas sem nenhum sintoma, até desencadear, de forma súbita, um acidente vascular cerebral (AVC), um enfarte do miocárdio ou outro evento cardiovascular.
Precisamente por estas doenças poderem evoluir sem sintomas, a literacia em saúde assume um papel fundamental para estarmos bem informados sobre os fatores de risco, os sinais de alerta e como os podemos prevenir. No entanto, ainda não chegámos ao nível ideal da literacia. Precisamos do apoio da comunicação social, das escolas, das famílias e dos agentes de saúde, não só de médicos, mas também de enfermeiros, de farmacêuticos e de todos aqueles ligados à área da saúde.
É também neste acompanhamento que a articulação entre os diferentes profissionais de saúde assume particular importância. As farmácias comunitárias, quando estão integradas com os centros de saúde, quer na prescrição integrada de medicamentos, quer no reconhecimento de doenças não controladas ou a falta de adesão à terapêutica, são muito importantes. Um dos maiores problemas de saúde pública na Europa é precisamente a má adesão à terapêutica, que, em Portugal, rondará os 40% dos doentes1 que não tomam corretamente a sua medicação. E a verdade é que estes doentes têm um maior risco de ter um AVC ou enfarte. E estima-se que uma percentagem significativa de segundos eventos cardiovasculares se devem à falta de adesão à terapêutica.
No entanto, ainda existem barreiras para uma verdadeira abordagem multidisciplinar. Entre médicos, enfermeiros e farmacêuticos, denotam-se falhas na comunicação entre os intervenientes responsáveis pela saúde.
Ainda assim, estamos num bom caminho para posicionar o doente no centro da decisão. Quando temos um doente bem informado e que está incluído nas decisões que são tomadas, vai cumprir melhor os objetivos que propomos, enquanto médicos, em termos de estilo de vida e de medicação. Desta forma, a terapêutica é otimizada e a sua doença estabilizada.
Nos próximos anos, o foco é o combate à obesidade e ao sedentarismo. Apesar de a geração mais nova estar a praticar mais exercício físico, ainda é preciso ter atenção a estes fatores de risco, que podem contribuir para o desenvolvimento de problemas cardiovasculares graves.
No fundo, prevenir a doença cardiovascular exige mais do que tratar fatores de risco isoladamente. Precisamos de informação, acompanhamento e, sobretudo, a colaboração entre diferentes profissionais de saúde, com o doente no centro de todas as decisões.