A entrevista recente de Marine Le Pen chamou a atenção de vários comentadores políticos franceses. Questionada sobre um eventual apoio a uma redução do número de funcionários públicos em França, a líder parlamentar da União Nacional (RN) retorquiu com um revelador: “não, isso é conversa de direita”. Esta revelação inusitada sobre o posicionamento do seu partido não foi um descuido, nem um inadvertido tombar de máscara. Foi taticismo puro.
Quando herdou a liderança do partido, Marine rompeu com a proposta altamente ideológica de direita reacionária, nacionalista e ultra-liberal concebida por Jean-Marie Le Pen. Aproveitando o enfraquecimento do comunismo e a desconexão dos socialistas com as classes populares e da França industrial e rural, à medida que a esquerda abraçava o multiculturalismo progressista e migratório e a desindustrialização, Marine aproveitou astutamente para criar uma alternativa mais inclusiva. Assim, juntou ao nacionalismo do seu partido uma dose pragmática de socialismo em defesa do Estado-providência e do generoso modelo social francês contra a globalização, a imigração, os grandes consórcios estrangeiros e o monstro tecnocrático e a burocracia de Bruxelas. Assim, a Frente Nacional, com o lema de “a França aos franceses” e os apelos à libertação dos pequenos empresários da opressão fiscal, evoluiu para a União Nacional do patriotismo económico, da luta de classes e do coletivismo.
Hoje, Marine Le Pen e Jordan Bardella colocam o poder de compra no centro do seu discurso político, abordando as questões sociais através de uma perspectiva redistributiva, assistencialista e estatista. No programa do RN, saltam à vista nacionalizações, aumentos de pensões, criação de impostos sobre ativos financeiros e a diminuição da idade da reforma para os 60 anos. A ironia das ironias, é que esta concepção socioeconómica, que transformou o RN no partido dos pensionistas e dos trabalhadores, o colocou perigosamente perto da extrema-esquerda, com quem converge nos ideais protecionistas, no euroceticismo e na rejeição de uma suposta agenda de globalização financeira e capitalismo selvagem.
Entre nós, André Ventura parece seguir a mesma cartilha. O Chega nasceu como defensor acérrimo da liberdade individual e económica. Era o partido da “flat tax” de IRS e IRC e da abolição do IUC, IMI e IMT. Hoje, considera os lucros extraordinários da banca e das gasolineiras “imorais” e apelida a Iniciativa Liberal de “o partido dos grandes grupos económicos”.
Ao passar de partido de protesto para partido de propostas, com sentido de oportunidade política e sem grande coluna vertebral ideológica, o Chega aliciou eleitores com menor literacia financeira e sem noções da irresponsabilidade orçamental das suas propostas económicas, como o aumento das pensões para o nível do salário mínimo e a atribuição de subsídios e suplementos para todas as profissões descontentes. Assim como o RN, o Chega foi fazendo incursões eleitorais no interior do país, por exemplo nos círculos de Beja e Portalegre, roubando eleitorado histórico à esquerda. Naturalmente, esta demografia eleitoral foi moldando o sentido de voto parlamentar do Chega, que viabilizou nesta legislatura as propostas socialistas relativas à descida das taxas de IRS até ao sexto escalão e ao fim das portagens num conjunto de ex-SCUT.
Curiosamente, enquanto Le Pen promove o seu desdém por uma designação de direita, afirmando-se como patriota numa luta desenfreada contra globalistas, Ventura continua a proclamar-se, com solenidade e em voz alta, o líder de uma oposição de direita conservadora, nacionalista e popular. Para Le Pen, há que reconhecer que este realinhamento foi uma aposta ganha, permitindo ao RN obter uma melhor aceitação entre a classe média e os jovens, ambos fortemente afetados pela crise inflacionária, até se tornar o partido mais votado de França. Em Portugal, os estudos eleitorais demonstram que existe igualmente uma tendência de transferência de voto do PS para o Chega, cujo crescimento não é apenas explicado pela migração de antigos abstencionistas descontentes com o sistema político-partidário (há círculos onde o voto no Chega aumentou sem a abstenção diminuir).
Quanto à redução do número de funcionários públicos, Ventura adota uma fórmula mais ambígua, defendendo a necessidade de “reorganizar e gerir melhor” os recursos. Do mesmo modo, o Chega tem como bandeira a redução do número de deputados e do vencimento dos titulares de cargos políticos, enquanto se queixou no passado que os aumentos salariais propostos pelo governo socialista para a função pública não compensavam sequer o aumento da inflação. Assim como Le Pen, Ventura fez bem as contas e não foi em conversas de direita. Entre os deputados há 230 eleitores, entre os funcionários públicos cerca de 750 mil.