Joan Coromines redescobriu, sob o voo de uma Branca da Couve, o “María, pósate” dos antigos Padres da Igreja. Era Abril na sua ondulante e suave Catalunha, o Abril das últimas tangerinas e dos primeiros narcisos. O mês que abre as coisas, como tão bem o sabiam os romanos. Na sua memória prodigiosa, na sua altiva perspicácia, equiparar Maria à mariposa dava-lhe uma felicidade semelhante à de Berceo, que viu a Θεοτόκος (Teotokos – “mãe de Deus”) encarnada num prado de Maio com as suas gramíneas, as suas poáceas e as suas calêndulas. Mas uma coisa era o manto da Virgem e a fertilidade da terra, e outra era aquela criatura alada em cujo nome (Ψυχή – Psique – sopro, hálito) os Gregos viam a alma. Seria Maria, a mãe de Jesus, também a matriz anímica em que, para assombro dos homens, fora concebido o Filho de Deus?
Coromines deve ter sussurrado, com a voz embargada: María, pósate! E, como se o ouvisse, ela pousou sobre uma verde leira de funcho, abriu as asas e fez com que o linguista revisse, em voo rasante, meia dúzia de palavras e suas raízes, alegrando-se por a língua castelhana ser dona da palavra “mariposa”, distinta do tradicional Papilium latino, ainda presente em catalão e francês, da Farfalla italiana, da Butterfly inglesa ou da Borboleta portuguesa. É difícil acreditar que uma palavra minúscula, nascida para nomear um insecto tão belo e frágil, pudesse ser expressa de tantas formas. E, distraídos, esquecemos completamente o pacto de verdade que sempre subjaz à etimologia e ao amor.
Com o propósito de seduzir, os seres humanos aprenderam a arte da perfumaria com as flores; com os animais como o cervo-almiscarado e a baleia; com a madeira e com as sementes de anis. Em matéria de amor, o olfacto é muito mais importante do que a visão: age mesmo quando não há luz, fareja distâncias e progressões, fragrâncias de nardo e terra molhada, quando a brisa para para descansar, repousando os seus flancos invisíveis sobre um rio ou uma nascente.
As borboletas, por seu turno, injectam nas suas missivas de feromonas um desses perfumes primitivos e irresistíveis através dos quais fêmeas e machos trocam preâmbulos de danças e promessas de antenas que roçam. O curioso, o extraordinário, é que entre as borboletas diurnas é o macho que segrega o perfume do amor, enquanto entre as nocturnas é a fêmea a responsável por fazê-lo.
A arte da perfumaria tem os seus horários favoritos, horas para colher o jasmim e a rosa, geralmente ao amanhecer ou ao entardecer, quando Vénus, a estrela da paixão, está claramente visível. Não sabemos exactamente porquê, talvez pelo equilíbrio precário entre a humidade, a pressão e a velocidade do vento. A chuva é inimiga das feromonas, esse alfabeto de delícias que as borboletas decifram a distâncias inacreditáveis. A chuva, e também o sol em excesso, porque os seus raios dissipam o aroma antes de este atingir uma altura suficiente para viajar confortavelmente.
Ao encontrarem-se, macho e fêmea surpreendem-se consigo mesmos, e é então que as antenas, à semelhança do tacto para nós, humanos, transformam o espaço e o volume num alvo preciso de desejo. Ela mantém as asas dobradas, tímida amante na sua forquilha de ramos discretos; ele, por seu lado, pavoneia-se e voa para a frente e para trás, para cima e para baixo, emitindo ultrassons que, imaginamos, são poemas na língua dos lepidópteros, versos que vêm do fundo obscuro dos bosques, que fazem lembrar fetos e folhas mortas.
Em todo o caso, a irradiação perfumada das feromonas continua durante algum tempo, até que a cópula – que pode durar minutos ou horas – os une pelos últimos segmentos corporais, e cada um dos amantes olha na direcção oposta, permanecendo cauda com cauda num estado que vai do gozo à extrema atenção, do êxtase ao espanto. Sentindo-se possíveis vítimas de um predador, as borboletas cobrem mutuamente costas. Para se salvar, poderiam voar enlaçadas, mas preferem não ter de o fazer, pois é no repouso que o amor melhor entrelaça os seus dons.
Algumas espécies preferem manter as asas abertas durante a cópula, outras fecham-nas e outras ainda optam por um tremor que nos recorda o júbilo de certos espasmos nas coxas, mãos na parede e no cabelo, e suspiros. Ela pensa, se porventura o faz, na planta onde depositará os seus ovos, sonha com folhagem e caules, enquanto ele permanece atento ao cheiro próximo de outra possível amante. Ela calcula a área ou o perímetro da zona em que semeará o futuro da sua espécie. Ele não sente qualquer estímulo para além do vazio gerado nas suas minúsculas entranhas. Que para as borboletas o olfacto é superior ao mundo revelado pelos seus omatídeos prova-se pelo frequente dimorfismo que confere aos machos um aspecto muito diferente do das fêmeas.
Se confiarem nos seus olhos, o erro pode ser fatal. É no aroma difuso das feromonas, portanto, que os iminentes amantes cifram os seus encontros. Por vezes, e para que tal se concretize, atravessam perigos de espinhos e bicos vorazes, perseguições e ataques. É preferível chegar com uma asa rasgada a não chegar sequer; melhor é perecer na viagem para uma felicidade efémera do que nunca a alcançar: regressam ao caule de onde fugiram, impelidas pela dor do corte, e talvez seja isso o amor – uma ferida que nos cura.
Não fosse alado o nosso osso esfenoide – chamam-lhe os chineses tie ku, “osso-mariposa” – e poderíamos pensar que não há ligação possível entre o amor das borboletas e o nosso. Mas também para nós o amor é uma ferida que cura, um “suave cautério”, nas aladas palavras de São João da Cruz.
Por vezes, é certo, as feridas são tantas que já não admitem cicatriz, e pensamos voar sem rumo até desaparecermos, fundindo-nos com o horizonte, dissolvidos no ar.
É precisamente nesses momentos que devemos dizer: María, pósate!