Durante estes dias, andamos todos mais ansiosos, mais confusos, mais inseguros; mais atentos aos nossos familiares, aos nossos vizinhos, aos nossos amigos, aos profissionais de saúde e auxiliares, ao mundo em geral. Por vezes, sinto que isso se assemelha às máscaras P1 (que tanto vimos por estes dias a serem usadas), parecem que protegem mas como não as sabemos usar, acabam por não cumprir totalmente seu propósito.

Sentimo-nos todos alinhados e empenhados na luta contra esta ameaça chamada COVID-19, que afecta de forma mais preocupante, os mais velhos. Temos por isso ouvido falar em tantas medidas sanitárias, que nos dão estratégias, ensinamentos e garantias capazes de os proteger vorazmente. Ainda assim, há um outro olhar – sugerido pela WHO –, que partilho convosco, nestes tempos de verdadeira incerteza, de bastante confusão, de enorme preocupação e amorosa proteção.

1 Identificar o comunicador privilegiado

A par das conversas familiares em que todos opinam, divergem, consideram e reagem à sua maneira, é importante que exista um comunicador por excelência, em quem o mais velho confie, que procure ouvir, falar, escutar silêncios, desvendar expressões mas sem nunca considerar, por certa, a sua interpretação. Poderá ser, alguém fora do circuito da família, poderá não ser o familiar mais próximo do idoso ou o mais presente. Foque-se na eficácia e não nos agentes da comunicação.

2 Acompanhar as dúvidas e questões à medida que são colocadas

A velocidade da nossa sede de informação, de notícias, de sermos os primeiros a saber, de querermos ter a capacidade de antecipar factos e decisões e de partilhar tudo isto a todo o momento é, na maioria dos casos uma velocidade contrária à dos mais velhos. Por vezes, verifico que os mais velhos estão mais descontraídos, menos ansiosos, menos comunicativos e até, por vezes, de forma desconcertante menos reativos e colaborantes às ações de mitigação e eliminação do vírus

Sim, são claramente olhares diferentes para a mesma realidade. A Vida, os anos de vida o envelhecimento, trazem-lhes, necessariamente, experiências e vivências que, inteligentemente, acomodam na perceção do mundo e provavelmente lhes confere um poderoso sentimento de imunidade: “Sim, sim, lavei as mãos de manhã”, “não consigo fazer nada, já não me deixam sair de casa!”, “tenho tantas chamadas, não consigo responder a todas, o que se passa?”

Deixe que as perguntas sejam colocadas nos seus tempos, formas e espaços, não reduza a comunicação à recomendação/intimidação de boas práticas “Já lavou as mãos?!” “Se precisar de alguma coisa, ligue, não saia!” ou como fonte de auto-conforto: “Estou tão preocupada consigo!”, “Se for preciso, largo tudo e, vou ter consigo!”. Pergunte antes “o que tem ouvido?”, “o que lhe parece que vai acontecer?”, “o que lhe parecem estas medidas”. Compreenda o processo de raciocínio para conseguir adaptar o discurso.

3 Não infantilizar o tom da conversa

Pais e mães são e serão sempre pais e mães, neste momento de enorme fragilidade na harmonia das famílias, das sociedades e da humanidade, deixem pais e mães ser o que são, na sua medida e nas suas capacidades.

  •  Receba testemunhos e conselhos, debata-os, VALORIZE experiência do passado: “mãe/pai como foi quando……?”; “Como se passava o tempo quando tiveram de ficar em casa?”; “Como se ultrapassou esse momento?”
  •  Se estamos preocupados, ficam naturalmente preocupados, e isso é bom!
  •  Os mais velhos são desconfiados, sabem que nunca lhes contamos tudo, estão habituados a esse jogo mas sem estarem totalmente fora da realidade.
  •  Os pais têm por definição e função proteger, aconselhar, orientar, cuidar dos filhos. Devolva a capacidade de decisão e a necessidade de dar colo.
  •  Não imponha a reversão de papéis, a emoção perdura mais do que a memória. Não deixe que a particularidade do momento se sobreponha cegamente à particularidade da vida, das relações, do carinho, da paciência, da dignidade, do amor.

O privilégio de ser mais velho é muitas vezes atraiçoado pelas dinâmicas velozes e vorazes da nossa consciência operacional, mas não nos esqueçamos: quem cuida dos mais velhos, sejam familiares, amigos, profissionais, cuida e protege sempre de um nome, de uma história, de uma identidade.

Não basta fazer o bem, mas sim “o bem, bem-feito!”