O Jardim e a Fragilidade
«A Europa é um jardim. Construímos um jardim. Tudo funciona. (…) A maior parte do resto do mundo é uma selva…» Foi o que o ex-presidente do Parlamento Europeu referiu, já em 2022. E olhando para a União Europeia, os níveis de IDH de vários países europeus e compararmos com os anos turbulentos que sucederam à Segunda Guerra Mundial, realmente parece que a Europa floresceu bastante desde esses tempos conturbados.
No entanto, nem tudo é o que parece. Por detrás do aparente sucesso, o Velho Continente demonstra sinais de fragilidade silenciosa. Isoladamente, cada fator parece inofensivo; juntos, formam um quadro preocupante que ameaça a integridade e coesão dos Estados europeus. Ao longo deste artigo, procurarei mostrar por que o nosso “jardim” pode estar mais vulnerável do que gostaríamos de admitir. Essa erosão que tem assolado a Europa pode levar ao surgimento de insurgência, ou, até mesmo, guerra civil.
Não, não estou a exagerar. Embora esse termo invoque em nós imagens de carrinhas Toyotas de caixa aberta, com indivíduos de túnica armados com Kalashnikovs, também é algo que pode acontecer na Europa. Mas como assim? Bastante simples.
Comecemos por definir o que é “guerra civil”. Segundo o dicionário de Cambridge, significa simplesmente, “um conflito em que as diversas partes vivem no mesmo país”.
Não é algo que costumamos ouvir falar na Europa (apesar de ter havido alguns conflitos dessa natureza no passado). Geralmente acontecem em países não desenvolvidos ou em desenvolvimento, países que não possuem prosperidade, mesmo que tenham recursos para atingirem esse estado. Por outro lado, guerras civis ocorrem em países onde os Governos não conseguem garantir a estabilidade dos seus cidadãos. Portanto podemos concluir que, em países onde existe estabilidade, seja esta imposta pela força, como ocorre em algumas autocracias, ou garantida pela existência de um Governo democrático e considerado legítimo como na Europa, o risco de guerra civil é mínimo.
Por outro lado, nações bastante fragmentadas — seja devido à existência de diversas etnias, ou ideologias — correm riscos maiores de incorrerem num conflito interno. Especialmente se conseguirem criar coligações entre si, ou quando, mesmo fragmentados, possuem os meios e a força para pegar em armas e iniciar confrontos. Dificilmente é este o caso dos países europeus. Mas então porque é que eu disse que a Europa tem todos os ingredientes para uma guerra civil?
Já lá vamos.
Existe ainda mais um cenário que torna propícia uma guerra civil. Quando existe um grupo maioritário num país e diversas minorias étnicas em expansão. O grupo maioritário perceciona uma possível perda de poder e/ou estatuto social com essa evolução demográfica e isso cria um sentimento de ameaça, suspeita e ressentimento. E é exatamente esse cenário que está a ocorrer no nosso continente.
Esse cenário é agravado por uma fragmentação da cultura dominante e da união como sociedade, que já vem desde o final da Guerra Fria. Com o desaparecimento da União Soviética, deixou de existir um adversário fora de portas que une as Nações à volta dos valores democráticos e ocidentais. A evolução tecnológica e o surgimento de novas gerações que não viveram o período de tensão e de ameaça nuclear, nem possuem o mesmo sentimento patriótico alimentado por um adversário exterior, enfraqueceram o tecido das sociedades.
Por outro lado, a desconfiança nas instituições tem sido um fenómeno que tem vindo a aumentar exponencialmente. O Estado — segundo o paradigma moderno — tem o dever de proteger os seus cidadãos e de garantir o bem estar do país. A crise económica de 2008, os inúmeros atos de terrorismo em países europeus, as crises de refugiados, a pandemia da Covid-19, os conflitos armados na Ucrânia e em Nagorno-Karabakh, na Abecássia e na Rússia, as manifestações de descontentamento, a inflação bem como a falta de segurança nas ruas, marcam estes 25 anos desde o virar do século. Claramente as coisas não estão tão bem como parecem. (continua na Parte II…)
Multiculturalismo e Risco de Colapso
Na primeira parte, vimos como a aparente estabilidade europeia pode esconder fragilidades profundas: fragmentação cultural, ausência de um inimigo externo unificador e um sentimento crescente de desconfiança em relação às instituições. Agora, avancemos para o ponto em que essas fragilidades começam a corroer a confiança do cidadão comum.
O cidadão comum já não acredita que o Estado vá resolver os problemas. Quanto muito adia a sua resolução ou aplica medidas que mascaram o problema e não o resolve. Pior, a legitimidade do Estado começa a ser questionada. É aqui que o perigo cresce: quando a perceção de legitimidade desaparece, as pessoas deixam de obedecer por convicção ou por confiança e começam a obedecer apenas por medo. E quando até o medo deixa de ser eficaz, o tecido social rasga-se.
Depois temos um dos principais catalisadores de toda essa situação, que é o multiculturalismo. Esta promessa de que diferentes culturas e etnias poderiam viver em harmonia num continente bem cuidado debaixo de um teto democrático tornou-se uma situação de desconfiança mútua estando cidades separadas por aquartelamentos e bairros. Existe o bairro da minoria x, ou do grupo y e um sentimento de lealdade não propriamente à nação onde habitam mas sim ao seu próprio grupo social havendo, muitas vezes, conflictos entres esses grupos ou contra a maioria vigente. Esta lealdade às próprias facções reflete-se também ao nível dos governos ou de partidos específicos, que ao invés de se preocuparem com o País, preocupam-se apenas em garantir que o grupo étnico ou social ao qual pertencem seja valorizado e beneficiado. Daí surge o lobbying pela autorização de construção de mais templos religiosos de tal minoria, por exemplo, ou então o aligeiramento das regras de obtenção de residência para outro grupo. Ora, se a maioria dos governos ou partidos procuram agradar a uns ou outros (seja por existir alguma afinidade ou por dependerem daqueles eleitores em específico) o Estado não buscará mais os interesses da Nação, mas sim desta ou daquela facção. E isso seria o degradar gradual de uma identidade coletiva nacional, substituída por lealdades identitárias externas.
Essa degradação da identidade nacional significa um aumento gradual da tensão. O Reino Unido neste momento é o país mais avançado nessa tendência. Um estudo da Universidade de Birmingham prevê que, a este nível de crescimento do número de imigrantes de diversas etnias, em 2063 os britânicos serão uma minoria.
Em outros países da Europa está a suceder essa tendência. O inverno demográfico e o casamento tardio por parte dos europeus, motivados por insegurança no cenário económico apenas tornam essa situação mais complicada.
A guerra civil em países europeus num exercício puramente especulativo
- Revoltas polvilhadas por diversas cidades, por parte da maioria ameaçada, seguida de contra manifestações por parte das outras facções étnicas;
- Confrontos entre facções que escalariam em destruição maciça ou tentativas de massacres casa a casa, como ocorreu no Ruanda.
- Colapso estatal parcial no qual bairros ou cidades ficariam nas mãos de cada grupo étnico. Teríamos milhares de refugiados a saír de cidades para o campo. Rapidamente espalhar-se-ia o conflito para uma extensão muito maior.
Num caso de guerra civil pelo país inteiro poderíamos estar a falar de regiões inteiras separadas por checkpoints. O Governo só teria controle de algumas áreas. Um exemplo disso seria o caso do Líbano.
A guerra civil europeia, se acontecer, não terá frentes definidas, mas sim linhas de fratura: bairros étnicos contra bairros vizinhos, velhas maiorias contra novas comunidades em expansão. Será caótica, descentralizada e duradoura. Os governos já têm dificuldades em controlar motins de 1000 e 2000 pessoas armadas com pedras e paus. E se fosse 10 vezes mais? E se estiverem espalhados pela cidade ou pelo país?
Voltamos ao começo: a Europa parece um jardim organizado, florescendo com estabilidade e prosperidade. Mas as ervas daninhas que crescem silenciosas – desconfiança, fragmentação social, tensões identitárias – não desaparecem sozinhas. Hoje são motins de mil ou duas mil pessoas, amanhã podem ser bairros inteiros fora de controle. Ignorar isso é arriscar que o jardim que construímos se transforme num terreno caótico, onde os Estados são desfeitos pela força dos acontecimentos. O ciclo fecha-se: o jardim só permanece intacto enquanto houver quem cuide das flores antes que seja tarde demais. Mesmo que seja preciso usar um bom pesticida.