Após a tão famigerada cimeira no Alasca entre Trump e Putin, tivemos mais um convívio ao alto nível em Washington DC. Os líderes de países como Macron a representar a França, os chefes de estado da Alemanha, Reino Unido, Itália, Finlândia, bem como Mark Rutte, secretário-geral da NATO e Ursula von der Leyen, representando a União Europeia per si prestaram as vassalagens ao homólogo norte-americano.
Poderíamos dizer que foram discutidas as garantias de segurança necessárias para a sobrevivência do Estado Ucraniano ou até mesmo discutido um futuro acordo de paz ou um cessar fogo temporário e, posteriormente, uma negociação mais ponderada mas – sinceramente – estaríamos a ignorar o elefante na sala: a vontade de Trump em empurrar a Europa fora de qualquer papel decisivo na crise ucraniana (excepto na questão das armas, é claro, podem continuar a comprar as armas americanas para entregarem a Zelensky, que a economia do Uncle Sam agradece!)
Nas últimas semanas parece que a Casa Branca tem usado uma estratégia “polícia bom, polícia mau” com a Ucrânia. Os “polícias bons” têm sido Marco Rubio e outros assessores do presidente americano, falando em pressão e sanções indiretas para parceiros comerciais da Rússia e em mais colaboração com Kiev e com os parceiros europeus. Já Donald Trump e J.D Vance são os “polícias maus” que decidem colocar a batata quente nas mãos do Velho Continente. “A responsabilidade é vossa mas o dinheiro é nosso.”
Curiosamente parece que a comitiva europeia resolveu adotar uma estratégia semelhante. Alguns líderes europeus, como Starmer, Meloni, Rutte e Stubbs, fizeram de “polícia bom”, através da arte da diplomacia, usando simpatia pública e os elogios a Trump para abrir espaço a negociações privadas.
Outros, como Macron e Merz, chanceler da Alemanha, assumiram o papel contrário exigindo o cessar-fogo e pressionando Trump a manter a sua promessa. anterior à reunião bilateral com Putin no Alasca, de trabalhar para a concretização de uma pausa temporária das hostilidades, esforço infrutífero visto o presidente americano pretender um acordo de paz rápido e definitivo.
A única diferença entre estas duas visões intransigentes é que, na mentalidade de empresário do 47º presidente dos Estados Unidos, um acordo de paz imediato é equivalente a um acordo de negócios, um “great deal” como ele estaria acostumado a fazer nas suas empresas. Uma pausa temporária podia permitir uma discussão mais ponderada e decidida e a longo prazo, com participação europeia, de modo a tentar melhorar as condições de Kiev e oferecer garantias de segurança que não sejam como as dos acordos de Minsk. Obviamente é muito mais proveitoso para Trump tratar esta questão como se fosse um negócio.
Por outro lado, a ideia – errónea – que possui um génio diplomático sublime capaz de resolver conflitos e pendências sem ajuda de ninguém parece criar a ilusão que um acordo, às pressas, entre ambos os lados, é o suficiente para resolver todos os males. E se for a Ucrânia a ter que ceder para manter essa lenda do sucesso diplomático de Donald Trump viva, então que assim seja!
Além da questão do génio diplomático e do empresário mediador de negócios, Donald Trump tem um objetivo, um sonho, uma aspiração. Um pensador disse que um homem, durante a sua vida, teria que plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. O presidente americano já plantou uma magnólia na Casa Branca, já teve filhos com a primeira-dama e já escreveu livros onde documentava a sua vida e os seus métodos de negócio. Donald Trump acrescenta apenas mais uma missão: Ganhar um prémio Nobel da Paz. Resolver (nem que seja de forma precipitada) o conflicto entre Rússia e Ucrânia decerto colocaria Trump no mesmo pedestal de Madre Teresa, Obama e Nelson Mandela.
A Ucrânia, por outro lado, após 3 anos de guerra de atrito, continua a depender, em grande parte dos Estados Unidos para continuar a combater, embora vários esforços tenham sido feitos por parte de Kiev para tentar reverter essa situação. O aumento de investimento em fábricas de munições e na I&D para a construção de drones dão a entender que o futuro ucraniano passa por uma menor dependência de outros países para manter a sua soberania.
No final? Os EUA querem um bom negócio, a Rússia quer cimentar a sua posição de força, a Europa quer fingir que ainda tem algum papel. O principal interessado? A Ucrânia quer apenas sobreviver a estes interesses.