Ninguém deve ter conseguido ser indiferente à enorme flotilha que zarpou da bela cidade de Barcelona. Cerca de 20 barcos de recreio, veleiros e iates, chefiados pela conhecida ativista pelo clima (e por bloquear estradas) Greta Thunberg. O objetivo é bastante simples. Tentar o rompimento do bloqueio marítimo efetuado pelas Forças de Defesa de Israel e prestar ajuda humanitária – mesmo que simbólica – à faixa de Gaza. E esta missão tem sotaque português, visto que a deputada única Mariana Mortágua pelo Bloco de Esquerda, a atriz Sofia Aparício, bem como o ativista Miguel Duarte, têm a (des)honra de acompanhar Greta na embarcação principal.
Vamos ser sinceros, é uma iniciativa louvável querer ajudar o próximo, mesmo que seja com umas latas de atum, com uns mergulhos pelo Mediterrâneo e com umas paragens pelo caminho. Paragens essas listadas tanto pela ONU, a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch onde os ativistas podem dar o seu contributo, antes de chegarem a Gaza.
A primeira paragem, onde efetivamente estiveram, seria a Tunísia. Um belo país para passar férias (ou fome, dependendo da cor do teu passaporte). Um país conhecido como um dos rebentos da Primavera Árabe, os tempos de esperança e democracia acabaram depressa. Hoje é um regime cada vez mais autoritário sob a autoridade de Kais Saied: concentração de poderes, ataque direto às instituições democráticas, perseguição a opositores políticos, jornalistas presos e, a cereja no topo do bolo, uma política migratória que faria Donald Trump parecer um anjo. Nada muito complexo. Envolve despejar migrantes e refugiados em zonas desérticas junto às fronteiras (Argélia/Líbia) e deixá-los sem água, comida ou meios de comunicação.
Pelos vistos os nossos guerreiros de Tik Tok não encontram entraves em aportar na capital da Tunísia e em manter um silêncio cuidadoso. Pois é, não tem hype nem dá visibilidade nas redes sociais.
Já agora permitam-me sugerir mais umas paragens para essa flotilha de ativistas no seu caminho. Aonde as manifestações e os slogans não chegam.
Saídos de Tunes, os nossos ativistas poderiam aportar em Argel, capital da Argélia. Um belo país onde a Carta dos Direitos Humanos é espezinhada todos os dias e os opositores são presos arbitrariamente. Liberdade de expressão? Só se for para expressar o ódio contra os papões do costume: O Ocidente, Israel, o costume. Sem contar com os campos de refugiados pagos pela União Europeia para impedir ondas de indivíduos a atravessar o mar Mediterrâneo. Mas não temos flotilhas a ir para lá prestar apoio às vítimas ou a distribuir ajuda humanitária. Porque será?
E que tal abastecerem a flotilha na Líbia? Ou até mesmo organizarem outra frota para ajudar os líbios. Desde que Gaddafi foi deposto em 2011 que o país está mergulhado numa guerra civil que dizimou milhares de civis e muitos mais afetados pelas deslocações forçadas, falta de recursos, sem contar com as execuções sumárias e extrajudiciais que ocorrem em campos de detenção. Um país dividido e retalhado por milícias apoiadas por potências exteriores e campos de refugiados. A guarda costeira líbia é conhecida por interceptar imigrantes refugiados que têm como objetivo alcançar a Europa e por colocar os mesmos nesses mesmos campos. As condições lá são iguais ou piores que as de Gaza. Tortura em centros líbios? Nah, isso não dá visibilidade no feed.
E antes de alcançarem a Faixa de Gaza talvez fosse bom fazerem uma paragem para abastecimento (ou para tirarem umas fotos) em Alexandria, Egipto. Cidade histórica, fundada por Alexandre Magno, excelente para quem quiser passar uma temporada à beira mar. Mas o Egito de Abdel Fattah al-Sisi não é exatamente o destino ideal para ativistas de palco. Milhares de presos políticos, tortura sistemática e censura fazem parte do pacote.
Pormenor curioso: é o mesmo Egito que ajuda Israel a manter o bloqueio de Gaza e que se recusa a receber deslocados palestinianos. Sem contar que é um dos países que recebe mais financiamento dos Estados Unidos. Estranho como não há hashtags a pedir o boicote ao Cairo. Pois, medo de antagonizar milhares de árabes da causa palestiniana.
Olhemos então para a própria flotilha. Temos ativistas, celebridades, até deputados. Um deles até foi ao funeral de Nasrallah, líder do Hezbollah, um movimento terrorista responsável por vários ataques e mortos pelo mundo fora. Interessante, não acham?
No fim de contas, esta flotilha é menos sobre Gaza e mais sobre likes. A bússola aponta sempre para onde há câmeras, hashtags e palcos. Contra ditaduras árabes fecham os olhos, contra Israel abrem megafones e mandam flotilhas. Coerência? Só se for a de navegar ao sabor da maré da atenção.