Quem, vindo de Marte, aterrasse em Portugal na noite das autárquicas e ouvisse José Luís Carneiro a discursar, seria capaz de jurar que o PS tinha acabado de ter um resultado retumbante. Era tal o alívio demonstrado pelo líder socialista, foi de tal forma convincente, era tal a vontade demonstrar que o PS ainda é maior do que Chega, que contaminou grande parte das leituras que se fizeram a partir dos resultados. Mas depois existe uma coisa chamada realidade. É que os socialistas perderam e perderam muito nestas eleições autárquicas.
Factualmente, os socialistas perderam 22 autarquias e o controlo da ANMP e da Anafre. É uma mudança importante na dinâmica política. Numa análise mais fina, também é possível concluir que o PS não ganhou nenhum dos cinco concelhos mais populosos do país (Lisboa, Sintra, Gaia, Porto e Cascais). Caíram todas para as coligações lideradas pelo PSD.
Alargando o exercício aos 15 concelhos mais populosos, é possível encontrar seis autarquias controladas pelo PS. Em três delas (Amadora, Almada, Gondomar), e mesmo tendo aumentado a afluência às urnas, o partido perdeu dezenas de milhares de votos face a 2021. O caso de Almada, então, é flagrante: voaram 6 mil votos de uma eleição para outra, o PSD duplicou a votação e o Chega quase quintuplicou.
Em Odivelas, o PS conseguiu sensivelmente mais mil votos e manter Câmara, mas o Chega e PSD conseguiram, respetivamente, mais 10 mil (!) e 2 mil votos. No Seixal, bastião comunista, o PS perdeu 2 mil votos e um vereador, ficando relegado para terceira força política — o Chega mais do que triplicou a votação. Mantendo como grelha de avaliação os 15 concelhos mais populosos, em Matosinhos, Luísa Salgueiro conseguiu mais 7 mil votos, mas viu PSD crescer cerca de 8 mil e o Chega outros 9 mil. Perdeu um vereador, mas manteve a maioria absoluta.
Há depois uma honrosa exceção: Loures. Ricardo Leão, o mesmo que tinha sido praticamente excomungado pelos camaradas de partido, incluindo por Alexandra Leitão, conseguiu mais 15 mil votos do que em 2021, mais dois vereadores e uma distância considerável face ao segundo mais votado, o Chega, que triplicou a votação, basicamente à custa do PCP, que passou para quarto lugar.
Existem exemplos complementares. Braga, uma das cidades mais dinâmicas do país e em crescimento contínuo em termos de densidade populacional, os socialistas conseguiram perder três mil votos face a 2021. E logo numas eleições onde existia uma enorme fragmentação à direita — além do fenómeno do Chega, havia ainda uma candidatura independente nascida do PSD e Rui Rocha, antigo presidente da IL, como candidato a vereador. Perder nestas circunstâncias, ainda que por pouco mais de 200 votos, é obra.
Continuando a olhar para o mapa autárquico, é possível concluir que o PS vai ganhando influência à medida que os concelhos em questão são menos populosos. As vitórias estão sobretudo concentradas no interior do país, onde há mais pobres e eleitores mais envelhecidos. Na faixa litoral do território nacional, onde se concentra o eleitorado mais jovem e com maiores rendimentos, a onda laranja é uma evidência.
O que reforça uma tendência que se vem acentuando de uns anos a esta parte: mesmo considerado as reconquistas de Coimbra e Viseu (que obedecem a dinâmicas muito locais), a verdade é que o PS está a demonstrar cada vez maiores dificuldades em renovar o seu eleitorado, facto que já foi particularmente penalizador na última eleição legislativa.
Ora, tudo somado, é ainda mais estranha a evidente sensação de alívio de José Luís Carneiro: alívio porque o partido, perdendo, não sofreu uma humilhação? Alívio porque o Chega, um partido com seis anos, não conquistou tantas Câmaras, mas teve saltos quânticos em praticamente todos os territórios com maior densidade populacional, mesmo numas eleições sem Ventura? Tecer loas ao bipartidarismo parece curto enquanto meta eleitoral.
José Luís Carneiro tem, a seu favor, o facto de estar há pouco tempo no cargo e de a estratégia eleitoral não ter definida por si. Mas convém que o discurso que teve na noite eleitoral não corresponda aos sentimentos mais profundos, porque seria sinal de que está desfasado da realidade que o partido enfrenta. Terminado o ciclo de desafios eleitorais (as presidenciais não são para aqui chamadas), os socialistas deviam pensar em mudar de vida. O primeiro passo é evidente: começar a ouvir mais Ricardo Leão do que Alexandra Leitão.