Concentremo-nos na EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural), inestimável instituição erguida com dinheiros públicos e direito privado, na qual o orçamento da Câmara de Lisboa para 2026 prevê gastar mais de 20 milhões de euros. Este dinheiro não financia apenas equipamentos; financia escolhas, prioridades e uma determinada concepção de cultura. O dinheiro público não é neutro, desde logo porque elegemos os responsáveis pela sua administração. Fingir que é, isso sim, é um gesto ideológico autoritário.
Lisboa não tem hoje um teatro de programação. Tem outra coisa. Por isso importa distinguir dois exercícios muito diferentes: gerir um espaço cultural e programá-lo. É a diferença entre gerir e governar. Gerir é um exercício de economia, próprio das empresas: ter um teatro e alugá-lo, sem critério, a quem o queira usar. Programar não é administrar um edifício, da mesma maneira que o Presidente da Câmara não é o gerente de Lisboa. É aqui que a programação deixa o plano administrativo e passa para o campo intelectual. Programar é propor um pensamento. Implica escolher, e escolher é excluir – não há neutralidade possível. A escolha de peças, autores, temas e linguagens obedece a esse pensamento e constrói uma narrativa para a cidade. Transforma o director artístico numa espécie de autor de autores, alguém que não escreve as peças, mas desenha a linha intelectual que as une. Essa linha tem consequências culturais e políticas, porque forma públicos, educa sensibilidades e define o que é apresentado como “cultura”. Este exercício compete ao poder democrático quando chama a si a obrigação de conceber políticas culturais. Fingir que essa função governativa pode ou deve ser neutra é uma mistificação, exactamente como fingir que o financiamento público é neutro.
O problema começa no momento em que a programação abdica dessa exigência intelectual e se reduz ao activismo. Activismo não é cultura: é militância com meios artísticos. Quando os equipamentos públicos se transformam em amplificadores panfletários, deixam de propor pensamento e passam a repetir slogans. Esta cedência da Câmara de Lisboa à esquerda radical – seguindo o melancólico exemplo do governo da República – ganha proporções agravadas por um modelo de financiamento inteiramente desligado das plateias: os espectáculos não precisam de público, porque não dependem dele. De resto, a expressão “teatro independente” explica-se nesta constatação: o teatro não é independente do Estado, das correntes esquerdistas, das lutas dos partidos contra o capitalismo e a democracia liberal, nem sequer da boa vontade dos governantes. O teatro, em Portugal, só é independente das plateias. Curioso, já que as plateias são o destinatário obrigatório da cultura séria. Em Lisboa, os espectáculos que a EGEAC mantém vivos não precisam de convencer, de seduzir, de ouvir a cidade; basta-lhes existir dentro do circuito certo, financiado pelo dinheiro público. O resultado é uma programação que já não respeita o público real – aquele que paga, vive em Lisboa e poderia querer ir ao teatro – mas apenas um público imaginado, ideologicamente homogéneo e politicamente confortável.
Confundir a recusa de financiamento público com censura é um erro – ou uma estratégia. A liberdade de criação não implica o direito a ser financiado, sobretudo quando o financiamento é retirado aos contribuintes e administrado por responsáveis eleitos. As políticas culturais são políticas públicas e, como tal, estão sujeitas à alternância democrática. Quando os eleitores escolhem governos de direita, escolhem também uma determinada concepção de cultura, tão legítima quanto a que a esquerda promoveu durante décadas. Respeitar essa escolha não é silenciar ninguém: é governar. Persistir em programações militantes, alheias ao público real e imunes ao escrutínio democrático, não é pluralismo cultural – é resistência à democracia. Lisboa não precisa de mais activismo subsidiado; precisa de uma política cultural coerente com o mandato político que a governa.